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02/12/2006
Sanfoneiro começou no rádio com Hermeto Pascoal e já companhou de Luiz
Gonzaga a Santanna, O cantador
JOSÉ TELES
O título de Patrimônio Vivo da cultura pernambucana concedido,
pelo governo do Estado, este ano, ao mestre Camarão, apenas confirmou o
que ele já era há muito tempo: um capítulo vivo da história da cultura
nordestina.
Reginaldo Alves Ferreira, nascido em Brejo da Madre de Deus, começou
a empunhar uma sanfona com sete anos. Depois de, segundo ele, tocar em
tudo que foi cabaré no interior pernambucano, foi para Caruaru, onde,
aos 18 anos, ingressou no cast da Rádio Difusora (atual Rádio Jornal),
fazendo uma dobradinha com um albino apelidado de Sivuquinha, o hoje
famoso Hermeto Pascoal. Ainda na Rádio Difusora, por causa das bochechas
avermelhadas foi apelidado de Camarão, pelo cantor Jacinto Silva.
Camarão acompanhou alguns dos maiores astros da era do rádio, nomes como
Orlando Silva ou Nelson Gonçalves: “Eles se apresentavam na Rádio
Jornal do Commercio e depois vinham para Caruaru. Aliás, eu toquei
na inauguração da TV Jornal. Por sinal, comprei o meu primeiro
carro trabalhando na campanha para senador do doutor F. Pessoa de
Queiroz, dono da TV” , relembra Camarão.
Ele também foi muito atuante na gravadora Rozenblit, pela qual lançou
seu primeiro LP, em 1961, “Depois fiz o Trio Nortista com Ivanildo Peba
e Jacinto Silva. O trio chegou a gravar um disco, mas sem Jacinto. Quem
entrou no lugar dele foi Déo do Baião”, historia.
Na Rozenblit, Camarão participou do primeiro disco do lendário
Coronel Ludugero, humorista e forrozeiro que marcou época na música
nordestina (morreu num desastre aéreo em 1970): “O primeiro 78 rotações
de Ludugero era ele marcando uma quadrilha, tocada por mim”, conta o
sanfoneiro. Gravei também os primeiros discos de Jacinto Silva, na
Rozenblit”, continua esta testemunha ocular da história do forró.
Ele foi responsável por uma inovação no gênero. Na época em que a
formação tradicional do forró era sanfona, zabumba, triângulo, Camarão
formou uma bandinha, que teve como vocalista Azulão, outra lenda da
música nordestina. A Bandinha do Camarão deixou seis discos, que fizeram
sucesso, mas que estão todos fora de catálogo, como de resto, a
discografia do sanfoneiro. Os discos estão nos arquivos de várias
gravadoras, Copacabana, RCA, Chantecler, que não demonstram interesse em
relançá-los. Nos últimos dez anos, Camarão tocou com Santanna, O
cantador. Problemas de saúde o levaram a dar uma parada: “Fui obrigado
também a parar com as aulas”, conta Camarão, com a saúde recuperada o
suficiente para voltar a empunhar sua sanfona hoje.
(©
JC Online)
Sanfoneiros comandam duas noites de
forrobodó
Diversas gerações de sanfoneiros se reúnem durante dois dias no
Bairro do Recife para mostrar que o instrumento está cada vez mais
vivo, apesar de ainda continuar discriminado
JOSÉ TELES
“Eu toco um instrumento bastardo. Ainda era garoto quando
Villa-Lobos foi ao Recife em busca de talentos. Peguei minha sanfona
e fui para lá. Quando cheguei, um menino trompetista me disse que
ele não me receberia. Fui embora e perdi a chance de conhecê-lo. Se
tivesse tocado, com certeza teria conseguido a bolsa de estudos”. O
desabafo, décadas depois, é de Sivuca, considerado um dos maiores
músicos brasileiros vivos, um dos responsáveis por tornar a sanfona
um instrumento mais respeitado. Doente, Sivuca não vai poder
participar de mais um Encontro de sanfoneiros do Recife, que
acontece hoje e amanhã, a partir das 15h, na Torre de Malakoff, no
Bairro do Recife. Além de muito forró, o evento terá também
palestras, exposições de discos, instrumentos e fotografias.
O Encontro de sanfoneiros do Recife é realizado há nove
anos, sempre em dezembro, numa festiva celebração de um instrumento
que, se não é mais bastardo, continua discriminado. Afinal, afora um
punhado de músicos da chamada MPB, como o paulista Toninho
Ferragutti, o gaúcho Borghettinho e o próprio Dominguinhos, a grande
maioria dos sanfoneiros encontra-se no Nordeste, toca em trios de
forró pé-de-serra, ou decora bandas de forró estilizado.
Para garantir o sustento, muitos sanfoneiros calejados precisam
de outras virações além de animar os forrobodós da vida. Arlindo dos
Oito Baixos, que tocou durante 18 anos com Luiz Gonzaga, dá aulas de
sanfona e mantém há dez anos, no quintal de sua casa, em Dois
Unidos, o mais badalado forró da cidade.
O decano dos sanfoneiros nordestinos, Reginaldo Alves Ferreira, o
conhecido Camarão, 66 anos, 56 de profissão, 18 LPs lançados (todos
fora de catálogo), nem se interessa mais em lançar disco: “Gravei
por tudo que é fábrica, mas fiquei desencantado depois do meu último
CD. Paguei para divulgar, mas não aconteceu, então perdi o
interesse. O último trabalho que fiz foi com Dominguinhos, Sivuca,
Arlindo, Zé Calixto para um projeto sobre a sanfona”, diz Camarão. O
projeto a que ele se refere foi O Brasil da sanfona, Miriam
Taubkin.
O compositor Xico Bezerra, um dos organizadores do evento, com
Marcos Veloso, anuncia a presença de 60 sanfoneiros: “Estes os nomes
confirmados, mas certamente vai aparecer muito mais gente com sua
sanfona”. Entre as presenças confirmadas estão Camarão, Arlindo dos
Oito Baixos, Duda da Passira, Raminho, Genaro, Joquinha Gonzaga,
Chiquinha Gonzaga, Terezinha do Acordeom e Zé Bicudo. “Acho que o
encontro é um incentivo para estes sanfoneiros que estão começando
agora. E é bom também para ajudar a levantar o forró pé-de-serra”,
diz Raminho.
O pé-de-serra é o forró autêntico, formatado por Luiz Gonzaga,
que passou a usar esta denominação para não ser confundido com as
bandas estilizadas, que imperam nas grandes festas juninas de
Campina Grande, Caruaru ou Amargosa (BA).
De forró mesmo as bandas só têm a sanfona, cada vez mais
instrumento decorativo, embora financeiramente sejam bem mais
lucrativas do que o pé-de-serra, recebem sonoras negativas quando
tentam contratar sanfoneiros como Duda da Passira (ele e Félix
Porfírio são os homenageados do 9º Encontro de Sanfoneiros do
Recife). “Muitos estão entrando nesta praia. eu não entrei e nem
entro”, garante Duda da Passira. “Me chamam sempre, mas não aceito”,
emenda Raminho.
(©
JC Online, 01.12.2006)
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