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Cláudia Leitte conversa sobre música popular e literatura e desafia imagem de 'musa de axé'

02/12/2006

Washington Possato

Cláudia Leitte com o livro de seu autor favorito, Dean Koontz


Leonardo Lichote - O Globo Online

SALVADOR – Uma musa de nebulizador?

- Algum problema para você? – pergunta educadamente a cantora Cláudia Leitte, gripada, antes de começar a entrevista.

Problema nenhum. Verdade que o prosaico aparelho destoa da imagem de ídolo da vocalista do Babado Novo – atual estrela da música baiana, aos 26 anos, com um histórico de 400 mil CDs e DVDs vendidos e shows grandiosos como o que levou 200 mil pessoas ao Aterro do Flamengo. Mas, se o nebulizador parece fora do lugar no figurino de musa-loura-axé-Bahia, o que dizer do gosto por Clarice Lispector e o "Fausto" de Goethe, a paixão por Etta James, por música eletrônica e pela pouco conhecida cantora de blues Susan Tedeschi , nomes que aparecem em suas falas tão naturalmente quanto os "esperados" Roberto Carlos, Jesus Cristo, Ivete Sangalo e Michael Sullivan?

Os mais desconfiados podem pensar em uma estratégia maquiavélica, uma tentativa de "reposicionamento no mercado". Mas não parece ser simples assim, mesmo porque é a própria cantora que faz questão de separar seu trabalho daquele feito por Clarice, Goethe e cia..

- São totalmente diferentes – diz, segura, a cantora. - Clarice disse que era uma amadora, porque só escrevia o que queria, não pensava em ninguém na hora de escrever, só nela mesma. Isso é lindo, mas meu trabalho é o oposto. Eu canto para as pessoas. Não estou ali para protestar, ou para ser lírica. Tem um pouco disso tudo, mas nosso objetivo é a alegria de quem está ouvindo, ver o povo pulando. E é isso que adoro fazer, minha arte é essa.

A conversa avança e se percebe cada vez mais que a personagem "musa de axé" – Cláudia ou qualquer outra - existe de verdade apenas nas imagens chapadas das revistas de celebridade e das TVs. De perto, a coisa se complica. Para ela, a consciência do que canta ("muitas de nossas letras são superficiais", ela chega a dizer) vem acompanhada de um prazer verdadeiro com sua arte, mas também de auto-ironia e bom humor. O sucesso "Lirirrixa" - um primor de clichê de música baiana, com seus versos cheios de "jogue a mão para cima", "dê uma reboladinha" e "tum, tum, tum" – foi feito exatamente como piada sobre os clichês da música baiana.

- Estávamos compondo uma música cheia de dissonâncias. Alguém começou com essa brincadeira de cantar coisas que toda música baiana tem, "mão para cima", "vai para lá", "vem para cá". Outro disse "está massa" e aí acabamos gravando – conta.

No palco, a cantora escancara seu humor de referências. Há duas semanas, nas gravações em Salvador do DVD ao vivo comemorando os cinco anos de Babado Novo (previsto para ser lançado em março pela Universal, dois meses depois do CD que foi recentemente gravado num estúdio carioca), ela puxou em tom de brincadeira a "Boquinha da garrafa" e "homenageou" Daniela Mercury numa divertida imitação. A graça fica mais refinada quando pensamos que ela é descendente de uma linhagem de cantoras que tem Daniela na linha de frente - e Cláudia sabe disso! Ou seja, novamente a relação é de amor/humor. E, novamente, nada é tão simples quanto o unificador rótulo de "axé music" faz parecer.

No mesmo show, em meio a sucessos e inéditas, ela cita ainda Shakira, Nelson Gonçalves, Xuxa e um antigo comercial de Vicky Vaporub (!), em piadas/referências de um segundo, piscou-perdeu.

O apelo pop e rápido aparece também nas canções – afinal, o assunto é música popular para multidões. Arranjos de Lincoln Olivetti, um certo fascínio tupiniquim com o inglês (com o grupo, ela já gravou Led Zeppelin, Gloria Gaynor e, agora, uma música própria inédita, "Stay"), modulações de voz que remetem a cantoras gospel e do r&b contemporâneo, melodias de uma beleza direta que passeiam naturalmente do reggae ao samba de roda e, como a cantora ressalta, alegria. "Paz, carnaval, futebol/ Não mata, não engorda e não faz mal", resume "Ensolação de coração" parceria de Carlinhos Brown e Michael Sullivan registrada no DVD. É isso mesmo, o tribalista e o hit-maker dos anos 80 já têm dezenas de músicas, sendo que outra delas está no repertório do DVD, a também inédita disco-funk "Ver-te mar".

- Que me perdoe meu sogro (Chico Buarque), mas Sullivan é o maior compositor do Brasil. Ele vai na veia. Você ouve e entende – explicou Brown, nos bastidores do show.

Nesse nobre terreno da música popular das multidões, onde Sullivan é maior que Chico, Cláudia se sente à vontade. Nega que pense em engrenar uma carreira solo mais "sofisticada", cantando MPB, para firmar imagem de "cantora séria".

- Prefiro a dor e a delícia de não ser tão séria – fala, sorrindo, e dá uma pequena pausa: – Mas eu sou séria – acrescenta, deixando claro que "não ser tão séria" não implica em tratar seu ofício de entertainer como algo frívolo.

Claudinha, como é conhecida por seus fãs, fica mesmo séria quando lembra, sem citar nomes, o comentário de Pitty na entrega do VMB (ela dedicou seu prêmio às mulheres "que usaram seus cérebros e não suas bundas para conseguir alguma coisa").

- É preconceito, desrespeito. Sou contra a vulgaridade, mas não se pode julgar o trabalho dos outros sem entendê-lo. Mesmo porque a sensualidade é uma marca da música. Diana Krall tocando piano é supersexy – opina. – É estranho esse papo de "sou roqueiro e acho que os pagodeiros tem que ser exterminados". Falcão, do Rappa, já cantou aqui nos trios, Nando Reis [que já compôs com Wando e falou bem da banda Calypso] também.

O saudável e ingênuo mantra de Brown e Sullivan ("Paz, carnaval, futebol/ não mata, não engorda e não faz mal") parece ecoar a todo tempo entre as palavras de Claudinha. Para a dor e a delícia da música popular brasileira, é simples assim.

(© O Globo)


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