Mesmo antes de chegar as lojas, os ambulantes já vendiam com muito
sucesso o CD e DVD do show gravado ao vivo no Marco Zero
MARCOS TOLEDO
Se tem algo que funciona impecavelmente neste País é a pirataria.
Antes mesmo de chegar às lojas, agora no fim de novembro, O CD e DVD de
Alceu Valença já era bem-vendido nas ruas – local onde o cantor e
compositor faz escola com sua música em muitos carnavais. Fato que se
repetiu no comércio legal, segundo a produção do artista. O primeiro
lote foi logo inteiramente repassado para as lojas, principalmente no
Rio de Janeiro e em Pernambuco.
O projeto Alceu Valença: Marco Zero ao vivo (Indie Records),
que resultou em CD e DVD, não poderia ter saído melhor. Mais do que a
concretização de um trabalho musical e audiovisual bem-cuidado e
planejado o produto final se revelou um importante portfólio da cultura
pernambucana com característica tipo exportação. Aos 60 anos, Alceu
comprova que, se há alguém capaz de sintetizar a cultura tradicional do
Estado em um invólucro pop de qualidade, esta pessoa é ele mesmo. “A
gente tem a consciência que Pernambuco tem que ser mostrado lá fora”,
afirma o artista.
Diferentemente de outros DVDs que iniciam diretamente com o show, o
de Alceu dá uma volta por pontos turísticos do Recife e de Olinda que,
ao longo de todo o trabalho, são o tempo inteiro evidenciados. Outra
diferenciação é o fato de mostrar continuamente as pessoas, sobretudo
aquelas que atenderam ao chamado do “donatário da capitania cultural de
Pernambuco”, como o cantor foi chamado no dia da gravação, no último 18
de agosto, no Marco Zero do Recife. Quem esteve presente corre o sério
risco de se ver no vídeo. O público tem participação importante como
personagem.
A concepção do show – uma viagem pelos ritmos tradicionais do
Carnaval pernambucano – também funcionou muito bem, com pouquíssimas
alterações. Ficaram de fora apenas as canções Chego já (cujo
áudio entrou como bônus, com imagens de arquivo do Carnaval em Olinda e
no Recife), Olinda sonho de valsa (na qual o anfitrião cantava ao
mesmo tempo com todos seus convidados especiais: Silvério, Zeca Baleiro,
Paula Lima e Daúde) e Duda no frevo. Acende a luz, só
instrumental, regida por Duda (homenagem ao maestro), entrou na íntegra
também nos extras do DVD, que ainda contam com um making of com
depoimentos de Alceu e dos convidados nos bastidores e no qual o autor
evidencia o centenário do frevo, a ser comemorado em 2007.
O repertório, com frevos-de-rua, batuques, frevos-de-bloco e
participações, desenvolveu-se muito bem. Para Alceu, contudo, o DVD é
apenas de uma amostra do que é a cultura pernambucana. “A cultura é tão
rica... Não entraram os forrós”, exemplifica. Já o repertório do CD, que
conta com 14 das 17 faixas do DVD, possui uma ordem aleatória que,
segundo Alceu, obedece a seu gosto pessoal. “Ode ao Carnaval e à cultura
pernambucana”, como define o próprio autor. Alceu Valença: Marco Zero
ao vivo possui sucessos como Voltei Recife, Vampira,
Me segura senão eu caio, Beijando a flora e Bom demais.
É um trabalho de ótima qualidade que representa a consagração maior da
longeva carreira do artista. É promessa de sucesso do Réveillon (quando
Alceu se apresenta na Praia de Maracaípe, Litoral Sul do Estado) ao
Carnaval.
“(O DVD) prova que o frevo é um garoto e mostra que Pernambuco é
multicultural, que adora folia, se fantasiar, estar em comunhão. A
música nossa é uma coisa solidária”, define o próprio Alceu. “Dizer que
o recifense não gosta de coisas do Recife é mentira. É coisa de
intelectual bêbado em mesa de bar. Pernambuco adora Pernambuco. Me
adora, inclusive. Eu me espelho em Pernambuco e Pernambuco se espelha em
mim”, arremata o cantor, sem necessidade de modéstia. Ele pode.