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Três discos relançados de uma vez

11/06/2008

FAUSTO NILO, que desde as rodas iniciais do “Pessoal do Ceará” sempre gostou de cantar: prazer e desafio de interpretar a própria obra deram origem aos três discos relançados

Fausto Nilo assumiu sua verve de intérprete da própria obra desde meados dos anos 90, produzindo releituras e apresentando canções inéditas, em uma tessitura sonora que privilegia a canção. Agora, relança em uma caixa especial os três frutos desse período, que se confunde com seu retorno ao Ceará: “Esquinas do Deserto”, “Casa Tudo Azul” e “Verso e Voz ao Vivo” ganham edição caprichada.

O chamado “período azul” do pintor e escultor espanhol Pablo Picasso (1881-1973) abrange suas obras concebidas entre 1901 e 1904, que chamam atenção pelo uso das sombras e dos tons azuis e verde-azulados, pelo retrato de figuras como mendigos e prostitutas, influência das viagens dos artista pelo seu próprio país e da perda de um de seus amigos mais próximos, Carlos Casagemas, que abdicou
 
 
 
 
 
da vida. À época, muitos não compreenderam como o pintor, na exuberância de seus vinte anos de idade, ainda distantes do período cubista que o consagraria, mas já suficientes para lhe render reconhecimento a partir de suas telas de cores exuberantes e técnica singular, mudou de direção de forma tão drástica. Para buscar outras belezas.

Na obra lítero-musical do cantor, compositor e arquiteto cearense Fausto Nilo, o azul é um símbolo-signo de presença constante e várias leituras possíveis. Desde a fantasia de um mundo blue do bolero “Dorothy Lamour”, parceria com Petrúcio Maia que se tornou uma das marcas do letrista, até o reencontro sentimental com a Casa Tudo Azul, o estabelecimento comercial de seu pai, na Quixeramobim natal (erguido onde morara outro filho ilustre da cidade do sertão central: Antônio Mendes Vicente Maciel, o beato Antônio Conselheiro), cristalizado em forma de memórias da infância na canção de mesmo nome, sobre dolente e sinuosa melodia de Dominguinhos.
 
 
 
 
 
 
Desafio

“Casa Tudo Azul” é também o título de um dos três discos que Fausto Nilo reapresenta ao público esta noite, em novo formato, em noite de autógrafos na loja Desafinado. Trata-se de uma caixa com os álbuns produzidos por um Fausto Nilo que se propôs o desafio e o prazer de interpretar a própria obra, depois de décadas de contato intenso com a fonografia, gravado ano a ano por parceiros e intérpretes do porte de Fagner, Geraldo Azevedo, Moraes Moreira, Dominguinhos, Gal Costa, Nara Leão, Maria Bethânia, Nana Caymmi, entre tantos outros. A tríade coincide com o retorno de Fausto ao Ceará e começa com “Esquinas do Deserto” (1997), uma releitura do artista para algumas de suas obras mais consagradas. Segue com o citado “Casa Tudo Azul” (2002), em que vieram a público jóias que por tempos ficaram no baú, “lados-B” e canções completadas depois de anos de espera. “Verso e Voz ao Vivo” (2004) fecha o pacote, com o registro do melhor de uma temporada de shows no
 
 
 
 
 
Teatro do Centro Dragão do Mar - empreendidos por Fausto ao lado de músicos cearenses integrantes de uma geração que, como ele mesmo já definiu, “inaugura a excelência instrumental” no Estado.

Em comum aos três trabalhos, quem sabe um particular “período azul” do próprio Fausto, ao melhor estilo cantautor, chorando e cantando seus versos sobre arranjos que primam pelo cuidado e pela sutileza. Essa seria, além da pessoalíssima verve poética de quem há tempos se acostumou a esculpir as palavras da melodia, uma característica comum aos três álbuns hoje relançados: músicos e intérprete em sintonia e com discernimento suficiente para realçar seus próprios méritos, mas sobretudo privilegiar a canção. Um trabalho para o qual, entre tanta maquiagem e superprodução cada vez mais em voga na música mundial, há um público ansioso, segundo confirma o autor.

“Esta caixa resulta de uma ação coletiva prazerosa, empreendida com respeito, amor e liberdade criativa, por um elenco de parceiros
 
 
 
 
 
geniais e músicos competentes”, resume o próprio Fausto, citando “a própria demanda do público, que esgotou o estoque de oito mil exemplares em várias edições dos três CDs” para justificar o novo lançamento, ilustrado com desenhos de sua própria lavra e com fotos de Gentil Barreira e Mário Luiz Thompson. O planejamento gráfico ficou a cargo de uma das duas filhas de Fausto, a designer gráfica Marina Parente, e de Rafael Barreira. As imagens incluem, por exemplo, cenas da atriz norte-americana Dorothy Lamour (1914-1996) e de paisagens do sertão central cearense, além de fotos dos shows da temporada de “Verso e Voz ao Vivo”.

Com uma unidade gráfica, os três discos chegam com embalagens no formato “folder” e com encartes individuais, com ficha técnica e letras de canções como “Amor nas Estrelas” (parceria com Roberto de Carvalho), “Astro Vagabundo” (Fagner), “Baião da Rua” (Nonato Luiz), “Chão da Praça”, “Meninas do Brasil” e “Pão e Poesia” (com Moraes Moreira) Ou ainda “Você se Lembra” e “Chorando e Cantando” (da safra a quatro mãos com Geraldo Azevedo), “Lua do Leblon” (com Lisieux Costa), “Pequenino Cão” (com Caio Silvio) e “Retrato Marrom” (com Rodger Rogério). Apenas alguns representantes do leque de parceiros de Fausto Nilo, que aos 62 anos segue descobrindo novos colegas de criação, vide as parcerias mais recentes com nomes tão distintos quanto Zeca Baleiro e Evaldo Gouveia. Enquanto não vêm novos frutos dessa vida feita canção, a caixa de Fausto está aí.

SERVIÇO: Fausto Nilo. Lançamento da caixa retrospectiva com os discos “Esquinas do Deserto”, “Casa Tudo Azul” e “Verso e Voz ao Vivo”. Caixa completa: R$ 59,90. Cada CD avulso: R$ 22,90. Patrocínio: Casablanca Turismo e Francisco Cavalcante. Informações: 3224.3853.
 


 
"Canto porque sou poeta"

Fausto Nilo relança três CDs em uma caixa. Nos discos, o compositor e arquiteto interpreta suas próprias composições, muitas popularizadas na voz de parcerios. Os CDs Esquina do Deserto, Casa Tudo Azul e Verso e Voz Ao Vivo foram produzidos nos ultimos 10 anos

Pedro Rocha
Especial para O POVO

FAUSTO NILO já vendeu 8500 cópias de seus três CDs e agora os relança em caixa coleção/FOTO DIVULGAÇÃO
FAUSTO NILO já vendeu 8500 cópias de seus três CDs e agora os relança em caixa coleção

Suas palavras, em cerca de 400 canções, se tornaram som pela vibração das cordas vocais de outros, os chamados intérpretes, atuando os papéis de sua poesia. Trinta e quatro anos com o nome aparecendo ao lado dos títulos das músicas, assinado em algum encarte de CD ou LP. Estampado no disco, as vozes de Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Nana Caummi, Ney Matogrosso, Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Zé Ramalho... Outros tantos, foram seus parceiros nas composições: Raimundo Fagner, Chico Buarque, Geraldo Azevedo,  Petrúcio Maia, Moraes Moraeira ou, mais recentemente, Zeca Baleiro e Zé Renato.

Fausto Nilo tomou coragem há nove anos atrás e, aceitando convite da Fundação Demócrio Rocha para comemorar seus 50 anos, gravou com sua voz e direção de seu parceiro Manassés, o seu primeiro CD, Esquinas do Deserto, interpretado por aquela voz, que lhe causou vergonha quando a ouviu pela primeira vez, depois de uma gravação com a cantora Núbia Lafayette para o LP Soro, produzido pelo amigo Fagner, no iníco da década de 80. Sentimento não muito diferente quando, pela segunda vez, a ouviu ao lado da voz de Petrúcio Maia, parceiro que não pode negar a participação.

"Eu não tinha planos de gravar, eu sempre tive vontade de fazer letras, nunca tive expectativa com relação a minha voz gravada, eu tinha muita horas cantando na madrugada", disse. Deu que Fausto Nilo, depois de Esquinas de Deserto, em 1997, tomou gosto, ou se não, já que ele disse que "depois que termina eu nunca mais ouço", pelo menos seu público adorou ouvir o poeta. Vieram Casa Tudo Azul (2002) e Voz ao Vivo (2004). Mais de 8 mil cópias, juntanto os três, tanto que a tiragem esgotou. Agora, eles voltam juntos, organizados em uma caixa que será lançada hoje, às 18h30, em happy hour na loja Desafinado, onde em bate-papos de fim de tarde, as coisas foram se maturando.

Hoje, com 62 anos, um dos maiores compositores cearenses não pára, ao contrário, continua cantando e já prepara CD para o próximo ano, o primeiro "com letras que eu fiz para eu próprio cantar".

O POVO - Foi a primeira vez que você interpretou?
Fausto Nilo - Eu gravei duas vezes na minha vida antes destes discos. Eu gravei uma coletânea chamada Soro, produzida pelo Fagner, com Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Patativa do Assaré, um disco de composição super variada..Nesse disco eu participei cantando uma música com a cantora popular Núbia Lafayette. Foi a primeira vez que eu gravei minha voz em disco, isso em 80, 81. E foi terrível, porque eu nunca tinha ouvido minha voz gravada e eu me arrenpendi, de noite eu queria tirar minha voz, o Fagner insistiu, acabei deixando, mas quando eu ouvi, me deu uma depressão brutal. Eu até hoje não gosto de me ouvir, eu faço esses discos, tenho prazer de cantar, na hora que eu tô cantando tenho bastante prazer, fazer o disco também é divertido, da mesma maneira que eu me divertia com os discos dos meu parceiros, ajudei inúmeros discos, muitas horas de estúdio, às vezes até graciosamente, não tinha contrato nem nada. Eu gosto muito de estúdio mas, depois que termina, eu nunca mais ouço, porque realmente eu tenho uma dificuldade, uma espécie de rigor, não é com afinação, que eu acho que não tem uma coisa que me envergonhe do ponto de vista técnico, mas o timbre da minha voz gravada... Acho que tem pessoas que tem um timbre mais universal, mas não sou só eu não, o (Chico) Buarque mesmo já disse isso. Se quiser lascar mesmo meu contragimento é quando eu chego na casa de uma pessoa e ela, pra me agradar, põe meu disco pra tocar, se for muito íntimo eu discretamente: “Rapaz, muda ai e tal”. Tá melhor agora, mas o primeiro foi uma tragédia. Depois eu gravei com o Petrúcio Maia também, que foi parecido com a primeira experiência, também não me convenceu, mas eu tinha que deixar minha voz ali com ele. Eu achei que não devia cantar, “não é pra mim”, até que veio essa historia da Fundação Demócrito Rocha, pelo caráter do disco, um registro, uma celebração. Só que criei um público que, somando esses três discos, hoje em dia eu já vendi 8 mil e 500 discos, no Ceará e em alguns shows fora. Eu nunca imaginei isso.

OP - E como você avalia sua voz hoje?
Fausto - Eu sou muito autocrítico e eu não fiz ainda um disco que eu me sinta convicto de expôr ao Brasil todo, porque eu acompenhei muitos amigos meus, eu sei que quando você tem uma voz de timbre própiro, não muito convencional... Eu sei que minha voz não tem um padrão de ser aceito facilmente, uma voz maviosa, eu sou ainda do período lá dos trovadores e dos rapisodos, porque antes da ópera, não havia essa coisa de intérprete, havia um poeta cantando sua poesia, só tem 250 anos que uma pessoa se especializa em pegar uma obra do outro pra cantar. Eu, no fundo, sou hoje, como muitos outras caras são, um rapisodo, tô cantando porque sou poeta.

OP - E daqui pra frente?
Fausto - O que que eu tô fazendo agora. A tecnologia, o computador, mexeu muito com minha maneira de trabalhar. Porque eu trabalhava em uns cadernos, eu fazia uns mapas, eu começava aqui, estruturava o fim, uma idéia, riscava, botava um parêntese, uma sete, ficava muitos dias contemplando aquele mapa, uma maneira de eu ter tudo junto gestalticamente, eu fazia isso na geografia da página. Então o computador pode fazer isso de outra maneira, ai eu gradativamente fui me adaptando, depois com esses programas de ordenar repertório, eu peguei todas as minhas fitas, quase 600, tinha fita com 29 anos, tocando perfeitamente, eu peguei esse material, transformei isso tudo em arquivo no computador, então hoje em dia meu trabalho é favorecido pelas possiblidades comparativas. Agora tá dominado um processo que é bem mais eficiente do que o caderno e, ao fazer isso, eu descobri que eu tinha uma quantidade gigantesca de melodias que tavam guardadas, que eu ouvi na época, mas minha sensibilidade não tava naquele dia pra aquilo. Eram fitas que iam me dando e eu fui guardando. Ao reouvir, eu comecei a reconstruir várias canções com esse baú. Hoje eu tô com isso praticamente dominado, 20 músicas que tô namorando e, próximo ano, a partir de janeiro, vou começar a entrar no estúdio pra fazer pela primeira vez um disco com letras que eu fiz para eu próprio cantar.


SERVIÇO
Caixa Fausto Nilo - Lançamento de caixa de CDs do cantor e compositor Fausto Nilo, contendo os albúns Esquina do Deserto, Casa Tudo Azul e Verso e Voz ao vivo. Preço da caixa completa: R$ 59,90. CD avulso: R$ 22,00. Informações: 3224.3853.

(© O Povo)

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