Biografia escrita por Regina Echeverria conta como
foi difícil para Gonzaguinha conseguir o amor e o respeito de pai de
Gonzagão
JOSÉ TELES
Autora do polêmico Furacão Elis (1985),
a jornalista Regina Echeverria debruça-se desta vez sobre as vidas
de Luiz Gonzaga e Luiz Gonzaga Júnior, em Gonzaguinha e Gonzagão,
uma história brasileira (Editouro, 382 páginas, R$44,90).
Procura rastrear a trajetória dos dois, do povoado do Araripe, em
Exu (PE), onde Gonzagão nasceu em 13 de dezembro de 1912, até 28 de
abril de 1991, no quilômetro 181, da BR-280, entre Pato Branco e
Marmeleiro, no Paraná, onde um motorista imprudente bateu seu furgão
F-400 no Monza dirigido por Gonzaguinha, que faleceria no mesmo dia.
O cantor faria 46 anos em setembro.
A autora optou por começar sua história pela
controversa paternidade de Luiz Gonzaga Júnior, e conclui que
Gonzaguinha era filho legítimo de Gonzagão: “Luizinho, feito moleque
nas ruas do Morro de São Carlos, bairro do Estácio no Rio de
Janeiro, nasceu da paixão entre Luiz Gonzaga do Nascimento e Odaléia
Guedes dos Santos”, afirma. Odaléia era uma jovem carioca aspirante
a cantora e compositora. Ela sentiu no início da gravidez os
primeiros sintomas da tuberculose que a mataria. O menino seria
criado pelos padrinhos Leopoldina Xavier do Nascimento, Dina, e
Henrique Xavier do Nascimento, o Baiano do Violão. Somente aos 15
anos iria morar com a família de Luiz Gonzaga, na Ilha do
Governador.
Regina Echeverria reúne alguns argumentos para
provar que Gonzaguinha trazia o sangue de Gonzagão nas veias. Alega
que o cantor não assumira Odaléia por vir de uma família
supercareta, com padrões arcaicos que jamais aceitaria que Luiz
Gonzaga tivesse ido para o Rio de Janeiro e arranjado uma cantora da
noite para viver. Um argumento que não se sustenta, até porque, há
15 anos fora de casa, Luiz Gonzaga não precisava mais dar
explicações à família. A tese sustenta-se menos ainda, porque o
próprio Gonzagão confidenciou a muitos amigos que Gonzaguinha não
era filho dele. Mulherengo incorrigível, Luiz Gonzaga, no entanto,
nunca teve problemas com paternidade reinvidicada pelas dezenas de
mulheres que teve ao longo de sua longeva carreira. Ele e dona
Helena nunca tiveram filhos. Rosinha, sua outra filha, também foi
adotada. Ele também não escondia que era estéril.
O certo é que Luiz Gonzaga deu ao filho de Odaléia
o seu nome, pagou bons colégios para o garoto rebelde do morro de
São Carlos, só não lhe deu o carinho de pai. A convivência entre os
dois se já não era boa, sob o mesmo teto tornou-se mais difícil. O
irascível Gonzagão queria o filho doutor, o primeiro da família, e
não músico. Como se não bastasse os desentendimentos familiares, um
ano antes Gonzaguinha contraiu a mesma doença que matou a mãe. Porém
bem alimentado e medicado, ele não demorou a se curar. Na casa de
Gonzagão passava o tempo inteiro no quarto, lendo, tocando violão,
falava o mínimo possível.
Enquanto se ocupa da vida do Rei do baião,
Regina Echeverria não vai muito além de repetir o que já se leu em
outras biografias, a melhor delas, Vida de viajante, da
francesa Dominique Dreyfus (aliás, a única de fôlego e, embora não
definitiva, a que mais se aproxima de desvendar a personalidade
complexa de Gonzagão). Regina atira mais luz na trajetória de
Gonzaguinha, e seria mais acertado se tivesse centrado sua narrativa
sobre ele, o mais conturbado dos astros da MPB dos anos 70, e o mais
improvável a alcançar o sucesso que conseguiu nos últimos anos de
carreira. Desleixado com a aparência, inseguro, introvertido, ele
começou a mudar quando conheceu, em 1965, na Ilha do Governador,
Ângela Leal, que ainda não era atriz, de quem se tornou grande
amigo.
Gonzaguinha nem podia se vangloriar do pai
artista. Naquela época o baião havia sido enxotado para o lugar de
onde viera: o Nordeste. Era no “Norte” que Luiz Gonzaga ganhava o
sustento. Passava meses fora de casa, viajando. Gonzaguinha passou a
ganhar uns trocados dando aulas de violão, bebia muito, o que
irritava ainda mais o pai, que, depois de mais uma discussão,
quebrou o violão do filho. Em 1964, no entanto, Luiz Gonzaga gravou
a primeira composição de Gonzaguinha, então com 19 anos,
Lembranças da primavera, no LP Triste partida. A carreira
dos dois, porém, correu paralela até o final dos anos 70.
Gonzaguinha fez-se cantor e compositor sem ajuda do pai. Isto é o
que mais prende o leitor à narrativa.
A amizade com Ângela Leal o levou a conhecer o
doutor Aluízio Augusto Porto Carreiro de Miranda, cuja casa, na Rua
Jaceguai, 27, na Tijuca, Zona Norte carioca, teve a mesma
importância para a MPB dos anos 70, quanto, para a bossa nova, o
famoso apartamento dos pais de Nara Leão na Av. Atlântica, em
Copacabana, Zona Sul do Rio. A casa do doutor Porto Carreiro era
freqüentada por César Costa Filho, Ivan Lins, Lucinha Lins, Aldir
Blanc, Paulo Emílio, Dominguinhos, não raro Cartola, João do Vale,
Jerry Adriani, Ney Matogrosso, João Bosco, Clementina de Jesus.
“O Gonzaguinha fisicamente era muito feio, muito
estranho, uma pessoa corcunda, com uma pele ruim e bastante
simplório na maneira de vestir. Era calado, tinha uma coisa
tímida... Falava-se que ele era filho de Luiz Gonzaga, mas era uma
coisa um pouco velada, não era um assunto para ser falado, já que se
ficou sabendo quase que imediatamente que não ele não havia sido
criado pelos pais, que Luiz Gonzaga era uma pessoa grosseira...”,
estas são as recordações que Lucinha Lins tem de Gonzaguinha, quando
ele começou a freqüentar a casa do doutor Carreiro, e ganhou logo o
apelido de Boca Negra, pela barba cerrada.
(©
JC Online)
Divergência entre pai e filho se refletiu também
na música
Conviver
com aquela turma deu a Gonzaguinha a auto-estima suficiente para
ele se destacar e mais que isso, virar um dos líderes do
Movimento Artístico Universitário (ele estudou Economia), que
saiu da casa dos Porto Carreiro para os festivais de música
popular e para um programa na TV Globo, Som Livre Exportação.
Em 1969, Gonzaguinha arrebatou um primeiro lugar no II Festival
Universitário de Música Popular da TV Tupi, com O trem.
Gonzagão não aprovou o estilo musical do filho (letras longas,
melodias complexas), e muito menos o convívio com a família
Porto Carreiro, por quem Gonzaguinha foi novamente adotado. Em
1971, ele casaria com Ângela Maria Porto Carreiro. Luiz Gonzaga
foi o padrinho do casamento.
As divergências entre pai e filho continuariam de outra
forma, à medida que a carreira de ambos desenvolviam-se cada
qual de seu jeito. Gonzagão passou a ser cultuado pela juventude
universitária, continuava idolatrado pelos sertões do Nordeste,
e apoiava os militares que governavam o Brasil.Gonzaguinha por
sua vez passou a ser o compositor mais visado pela censura do
regime. De 28 canções enviadas à censura, para o primeiro álbum,
ele só teve nove liberadas. Mesmo assim o disco foi lançado e
logo depois proibido.
Mesmo casado, relativamente bem situado profissionalmente,
Gonzaguinha não continuava uma pessoa fácil. Era célebre sua
aversão a conceder autógrafos. Recusava-se, grosseiramente, a
assinar discos, cadernetas, qualquer coisa que lhe estendiam.
Milton Nascimento relembra o constrangimento estar com
Gonzaguinha num restaurante e este deu um tremendo esporro no
garçom que interrompeu a conversa dos dois.
Uma segunda tuberculose, adquirida em meados dos anos 70, e o
começo do sucesso popular, e o segundo casamento (mais uma
filha, Amora, fruto de uma “produção independente”, com a
cantora Sandra Pêra) foram suavizando o temperamento do cantor
(que trocou o Rio por Belo Horizonte). Em 1979, Maria Bethânia
estourou nacionalmente com Explode coração, de
Gonzaguinha, que se inspirou numa confidência que lhe foi
contada pelo cantor Aguinaldo Timotéo, que até hoje se queixa
por não ter tido prioridade para gravar a canção. Mas
Gonzaguinha não precisava do prestígio de Bethânia. Em 1980, ele
já era um dos artistas mais populares do País.
A reconciliação entre pai e filho sedimentou-se durante a
turnê Vida de viajante, que rodou o Brasil em 1980. Foram
mais de cem apresentações, e um álbum campeão de vendagens.
Gonzagão morreria em 1989, Gonzaguinha dois anos depois.
(©
JC Online)