Artista finaliza dois novos (e díspares)
espaços na sua Oficina: a Capela Nossa Senhora da Conceição e o
Templo do Sacrifício
OLÍVIA MINDÊLO
Visitar a Oficina Cerâmica Francisco Brennand, na
Várzea, é um passeio sagrado. Difícil entrar no santuário artístico
do ceramista e não sentir a força espiritual de suas obras –
profanas ou não. Se isso já era tangível aos sensíveis à arte, agora
passa a ser ainda mais evidente ao público em geral. Brennand acaba
de inaugurar um novo espaço em seu templo de produção, dessa vez
literalmente religioso: a Capela Nossa Senhora da Conceição,
projetada pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, um dos principais
nomes da geração da modernista de arquitetura do País e da Escola
Paulista.
“Esse é o mestre. A obra é dele, eu só colaboro
com algumas peças”, disse modestamente Brennand, enquanto guiava
visita à capela. De fato, o traço de Paulo Mendes da Rocha, se não
pode ser encaixado nos cânones da arte, jamais poderia ser ignorado
nesse caso. Mas as peças sacras do ceramista não são meras
coadjuvantes e, sim, a alma da capela, de forma que o esqueleto e
corpo são do arquiteto.
Entre as peças de Brennand confeccionadas para o
espaço, impossível sair imune à imagem da santa Nossa Senhora da
Conceição, que parece ter sido esculpida em pedra, mas foi
confeccionada em cerâmica, que, ao contrário das conhecidas
esculturas de Brennand, recebeu um tratamento opaco.
Com 400m² e capacidade para cem pessoas, a capela
tem mais do que um simbolismo religioso, uma importância familiar.
“É um resgate da promessa que meu pai fez à minha avó, Maria da
Conceição. Ela queria uma capela no Engenho São João, aí, então,
estamos fazendo esta aqui”, explicou o artista.
A construção aproveitando em parte as ruínas de
uma edificação do século 18, no terreno onde funcionou a antiga
fábrica de telhas e tijolos da família. O espaço já abrigou escola,
refeitório e até cinema para os operários. O arquiteto conferiu à
obra, claro, ares da arquitetura modernista, com paredes de concreto
e vidro, além de pintura branca, mas manteve partes da estrutura
original, em especial na área interna, de tijolos aparentes. Um
ossário da família, um púlpito, uma sacristia (no subterrâneo), além
de uma espécie de coreto, compõem ainda o espaço. Brennand assina
ainda outras peças, entre elas os 12 apóstolos, castiçais, a mesa do
altar, a cruz da entrada e um mural com evangelistas. O espaço é
aberto aos visitantes da oficina.
(©
JC Online)
Uma homenagem dura a culturas assassinadas
Além da Capela Nossa Senhora da Conceição, a
Oficina Cerâmica Francisco Brennand reserva mais duas novidades
neste fim de ano: o Relógio de sol e o Templo do
Sacrifício, prontos para visitação.
O primeiro, localizado num jardim próximo à capela, foi uma
encomenda do artista ao arquiteto pernambucano Fernando Almeida.
Com estrutura de granito e cobertura de mármore, o relógio
aponta as horas através da sombra produzida pelo sol sobre um
ponteiro de bronze. Já o Templo do Sacrifício está
situado do lado oposto, junto à oficina de trabalho do
ceramista.
“A capela é tudo o que representa o Ocidente. O Templo do
sacrifício é o contrário”, sintetizou Brennand. Nesse
sentido, pode-se dizer que a capela metaforiza um pouco a visão
do artista do “céu”, enquanto o templo, a do “inferno”. O
Templo do Sacrifício é uma denúncia dolorosa da mantança às
antigas civilizações latino-americanas por europeus. “Não foram
assassinatos a pessoas, mas a culturas”, disse.
Imponente como costumam ser suas criações, mas muito mais
dura, a construção de Brennand, entre outras coisas, é composta
por 36 esculturas de sacrificados anônimos, além de duas imagens
aprisionadas por grades: a do imperador asteca Montezuma II e a
de Atahualpa, monarca inca.
Atrás do templo, fica uma espécie de assopro ao visitante. A
Coluna sem fim, escultura mais recente do artista em
celebração à vida e à natureza, um veneno contra o pessimismo,
um passem, quem sabe, para o céu.
Oficina Cerâmica Francisco Brennand – Propriedade Santos
Cosme e Damião, s/nº, Várzea. De seg. a sex., das 8h às 17h.
Fone: 3271-2466