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Pernambuco brilha na tela em 2006

11/06/2008

Cláudio Assis, cujo Baixio das bestas venceu a 39ª edição do Festival de Brasília


Cláudio Assis, Marcelo Gomes e Lírio Ferreira são exemplos de cineastas pernambucanos que se sobressaíram neste ano que termina

KLEBER MENDONÇA FILHO

O maior exemplo de cinema comercial brasileiro em 2006 chama-se Se eu fosse você, de Daniel Filho, lançado em janeiro e, desde então, o mais visto do cinema nacional no ano, com quase quatro milhões de espectadores (bateu Piratas do Caribe 2 nas bilheterias), ocupando o terceiro lugar no ranking do ano (ver Top 10). Esse arremedo bem-produzido de uma sessão da tarde ruim ilustra a atual sinuca na qual encontra-se o mercado de cinema no Brasil. A Globo massifica os seus TV-filmes no País com sua estrutura onipresente e ajuda de Hollywood (Se eu fosse você teve distribuição da Fox) num vale tudo promocional que inclui “vá ver” em novela, anúncios constantes e chamadas em telejornais. Isso não garante o sucesso sempre, pois filmes ainda piores não tiveram bilheterias fortes, como Muito gelo e dois dedos d’água (apenas 350 mil pagantes), também de Daniel Filho, ou A máquina (inacreditáveis 55 mil pagantes), de João Falcão.

Se o cinema da TV impera no geral – os que se submeteram a Trair e coçar é só começar ou Gatão de meia-idade têm pelo menos dois motivos para lembrar de 2006 com desconfiança –, os filmes que estão fora desse esquema precisam se benzer para serem vistos. O início do ano foi assustador para filmes autorais, com dois exemplos cruéis: Veneno da madrugada, de Ruy Guerra, e Bens confiscados, de Carlos Reichenbach, que juntos não somaram sete mil espectadores. No encerramento da décima edição do Cine PE, em abril, Lírio Ferreira externou preocupação pessimista com seu filme Árido movie (que ganhou o festival), perguntando “estamos fazendo filmes para quem?”. Árido movie foi visto por cerca de 20 mil espectadores.

No cinema pernambucano, janeiro começou bem com dois longas rodados simultanemente no Recife. Baixio das bestas, de Cláudio Assis, e Deserto feliz, de Paulo Caldas, são projetos de baixo orçamento feitos por dois cineastas da mesma geração. Ambos enfocam a realidade imediata de Pernambuco, com tratamentos distintos onde a prostituição é um tema em comum. Baixio das bestas estreou em novembro no Festival de Brasília, Deserto feliz encontra-se em finalização. Os dois serão destaques da safra 2008 de cinema brasileiro.

Em agosto, teve início uma safra desanimadora de filmes brasileiros que revisitaram o Brasil da ditadura, período histórico recente que só parece insinuar clichês. Zuzu Angel, de Sergio Rezende, O Sol, de Tetê Moraes, Sonhos e desejos, de Marcelo Santiago (que estreou no Festival de Gramado, no mesmo mês) e Batismo de sangue, de Helvécio Ratton, destaque do Festival de Brasília que ainda saiu com um prêmio de Diretor. Desta safra, o destaque seria O Ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburguer, relato sentimental e bem-realizado sobre uma criança no Brasil de 1970.

Saiu em outubro a escolha oficial do Brasil (via comissão montada no Ministério da Cultura – Secretaria do Audiovisual) para representar o país no Oscar de Filme de Língua Estrangeira: o pernambucano Cinema aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes. O filme viu breve relançamento nos cinemas na semana que seguiu a escolha. O filme bateu, entre outros, veteranos como Cacá Diegues, com O maior amor do mundo. Segundo informações colhidas, a decisão foi unânime.

Baixio das bestas, por outro lado, venceu a 39ª edição do Festival de Brasília causando um racha entre júri e público, mas não junto à crítica. No anúncio do prêmio de Melhor Longa Metragem do festival, Cláudio Assis e equipe enfrentaram de cabeça erguida vaias de metade do auditório, e agradeceram os aplausos da outra metade. “Quem não tem coragem, rasteja!”, disse Assis ao microfone. Pernambuco saiu de Brasília com dez prêmios, mais do que qualquer outro Estado. O longa de Assis levou seis, o curta 35mm Noite de sexta manhã de sábado, de Kleber Mendonça Filho, levou três e Uma vida e outra (curta 16mm), de Daniel Aragão, ganhou um.

Se em Brasília, Pernambuco trouxe dez prêmios, no Festival Internacional de Havana, em Cuba, o Brasil trouxe outros dez prêmios, inclusive Melhor Filme para O céu de Suely. O segundo longa do cearense Karim Ainouz (Madame Satã) estreou no Festival de Veneza, em setembro, mesmo mês que viu sua estréia brasileira no Festival do Rio, onde ganhou Melhor Filme e deu início também a uma série de prêmios que reconhecem o talento e a presença de tela da pernambucana Hermilla Guedes, melhor atriz também em Havana. Hermilla, 26 anos, tinha tido uma ponta marcante em Cinema, aspirinas e urubus e obteve o papel título apenas duas semanas antes do início da filmagem (ela faria personagem secundária). Viajou no segundo semestre para lugares como Veneza, Estocolmo e Cuba com o filme, e é um dos rostos de 2006 num papel que ela parece vestir bem, impressionando a todos os que a vêem no filme.

(© JC Online)


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