O maior exemplo de cinema comercial brasileiro em 2006 chama-se Se
eu fosse você, de Daniel Filho, lançado em janeiro e, desde então, o
mais visto do cinema nacional no ano, com quase quatro milhões de
espectadores (bateu Piratas do Caribe 2 nas bilheterias),
ocupando o terceiro lugar no ranking do ano (ver Top 10). Esse arremedo
bem-produzido de uma sessão da tarde ruim ilustra a atual sinuca na qual
encontra-se o mercado de cinema no Brasil. A Globo massifica os seus
TV-filmes no País com sua estrutura onipresente e ajuda de Hollywood (Se
eu fosse você teve distribuição da Fox) num vale tudo promocional
que inclui “vá ver” em novela, anúncios constantes e chamadas em
telejornais. Isso não garante o sucesso sempre, pois filmes ainda piores
não tiveram bilheterias fortes, como Muito gelo e dois dedos d’água
(apenas 350 mil pagantes), também de Daniel Filho, ou A máquina
(inacreditáveis 55 mil pagantes), de João Falcão.
Se o cinema da TV impera no geral – os que se submeteram a Trair e
coçar é só começar ou Gatão de meia-idade têm pelo menos dois
motivos para lembrar de 2006 com desconfiança –, os filmes que estão
fora desse esquema precisam se benzer para serem vistos. O início do ano
foi assustador para filmes autorais, com dois exemplos cruéis: Veneno
da madrugada, de Ruy Guerra, e Bens confiscados, de Carlos
Reichenbach, que juntos não somaram sete mil espectadores. No
encerramento da décima edição do Cine PE, em abril, Lírio Ferreira
externou preocupação pessimista com seu filme Árido movie (que
ganhou o festival), perguntando “estamos fazendo filmes para quem?”.
Árido movie foi visto por cerca de 20 mil espectadores.
No cinema pernambucano, janeiro começou bem com dois longas rodados
simultanemente no Recife. Baixio das bestas, de Cláudio Assis, e
Deserto feliz, de Paulo Caldas, são projetos de baixo orçamento
feitos por dois cineastas da mesma geração. Ambos enfocam a realidade
imediata de Pernambuco, com tratamentos distintos onde a prostituição é
um tema em comum. Baixio das bestas estreou em novembro no
Festival de Brasília, Deserto feliz encontra-se em finalização.
Os dois serão destaques da safra 2008 de cinema brasileiro.
Em agosto, teve início uma safra desanimadora de filmes brasileiros
que revisitaram o Brasil da ditadura, período histórico recente que só
parece insinuar clichês. Zuzu Angel, de Sergio Rezende, O Sol,
de Tetê Moraes, Sonhos e desejos, de Marcelo Santiago (que
estreou no Festival de Gramado, no mesmo mês) e Batismo de sangue,
de Helvécio Ratton, destaque do Festival de Brasília que ainda saiu com
um prêmio de Diretor. Desta safra, o destaque seria O Ano em que meus
pais saíram de férias, de Cao Hamburguer, relato sentimental e
bem-realizado sobre uma criança no Brasil de 1970.
Saiu em outubro a escolha oficial do Brasil (via comissão montada no
Ministério da Cultura – Secretaria do Audiovisual) para representar o
país no Oscar de Filme de Língua Estrangeira: o pernambucano Cinema
aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes. O filme viu breve relançamento
nos cinemas na semana que seguiu a escolha. O filme bateu, entre outros,
veteranos como Cacá Diegues, com O maior amor do mundo. Segundo
informações colhidas, a decisão foi unânime.
Baixio das bestas, por outro lado, venceu a 39ª edição do
Festival de Brasília causando um racha entre júri e público, mas não
junto à crítica. No anúncio do prêmio de Melhor Longa Metragem do
festival, Cláudio Assis e equipe enfrentaram de cabeça erguida vaias de
metade do auditório, e agradeceram os aplausos da outra metade. “Quem
não tem coragem, rasteja!”, disse Assis ao microfone. Pernambuco saiu de
Brasília com dez prêmios, mais do que qualquer outro Estado. O longa de
Assis levou seis, o curta 35mm Noite de sexta manhã de sábado, de
Kleber Mendonça Filho, levou três e Uma vida e outra (curta
16mm), de Daniel Aragão, ganhou um.
Se em Brasília, Pernambuco trouxe dez prêmios, no Festival
Internacional de Havana, em Cuba, o Brasil trouxe outros dez prêmios,
inclusive Melhor Filme para O céu de Suely. O segundo longa do
cearense Karim Ainouz (Madame Satã) estreou no Festival de
Veneza, em setembro, mesmo mês que viu sua estréia brasileira no
Festival do Rio, onde ganhou Melhor Filme e deu início também a uma
série de prêmios que reconhecem o talento e a presença de tela da
pernambucana Hermilla Guedes, melhor atriz também em Havana. Hermilla,
26 anos, tinha tido uma ponta marcante em Cinema, aspirinas e urubus
e obteve o papel título apenas duas semanas antes do início da filmagem
(ela faria personagem secundária). Viajou no segundo semestre para
lugares como Veneza, Estocolmo e Cuba com o filme, e é um dos rostos de
2006 num papel que ela parece vestir bem, impressionando a todos os que
a vêem no filme.