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07/11/2000

Novo cordel é sucesso editorial

   Depois da entressafra, a mutação. Passado um período em que quase não se produziu literatura de cordel no Brasil, o gênero ainda mantém um pé na tradição mas já ensaia um passo à frente e ganha novo fôlego, dando à luz uma série de novos e talentosos poetas. O estereótipo do cordelista armado apenas com uma viola e um punhado de folhetos está com os dias contados. Os pequenos livros de poesia produzidos artesanalmente continuam pendurados com pregadores em feiras populares e ainda são lidos em voz alta por poetas-cantadores, como manda o figurino. Mas outra face desta literatura já se começa a aparecer. A nova geração do cordel, no Nordeste, conta com editoras especializadas, parque gráfico, internet, distribuição nacional e circulação cada vez maior no meio acadêmico. Títulos como O valentão Chico Tromba e O mototaxista que matou a mãe por um real mantêm o tradicional espírito jocoso, mas seus autores têm um perfil bem diferente dos que escreveram obras-primas do gênero como Romance do pavão misterioso e A chegada de Lampião no inferno.

   "É preciso entender que trata-se de um novo cordel, diferente do tradicional", explica Gilmar de Carvalho, estudioso cearense que guarda em casa uma coleção com mais de 2.500 folhetos. "Não tenho nostalgia, é a dinâmica natural do processo. A tradição está sendo atualizada e vejo isso com muita simpatia". Parte da coleção de Gilmar esteve exposta na Bienal do Livro de Fortaleza, há três semanas. Caçando livrinhos desde os anos 70, ele se apressa em confirmar a efervescência do gênero nos últimos tempos. "O cordel ganhou um ânimo muito grande recentemente. Temos várias academias, sociedades e organizações espalhadas pelo país".

   Escaldado no assunto, o poeta Vidal Santos, presidente da Academia Brasileira de Cordel (ABC) de Fortaleza, concorda com Gilmar. "Tem muita gente nova e, o que é melhor, muita gente boa", comemora. Vidal vê claramente as diferenças entre os cenários de hoje e de antigamente. "O cordel sempre aflorou mais no sertão, mas hoje temos outro público. O pessoal das universidades assimilou a produção do interior e está fazendo seu próprio trabalho, com nível muito bom", diz.

   Um deles é Antônio Klévisson Viana, 28 anos, cearense de Quixeramobim. Poeta, editor e um dos principais articuladores do novo cordel, ele trabalhava até pouco tempo como ilustrador no jornal O Povo do Ceará. Saiu de lá para criar a editora Tupynanquim, em Fortaleza, que hoje publica mais de 50 títulos do gênero, entre novos talentos e reedições de clássicos. Além da veia de cordelista, o trabalho à frente da editora deu a Klévisson uma visão administrativa pouco comum aos antigos autores. Sem abandonar o estilo despojado, ele discursa sobre estratégias de mercado com a mesma desenvoltura que mostra ao criar suas rimas. "Não temos capital de giro, então procuramos publicar textos de qualidade que possam se autofinanciar", explica. "Depois de ser desprezado por mais de 20 anos, o cordel está mostrando que é viável e tem seu espaço. Houve um período em que a produção ficou parada, mas agora estamos retomando", acrescenta.

   Em todo o Nordeste, as tiragens geralmente são de mil exemplares, sendo que em alguns casos podem chegar a 5 mil. Cada folheto custa R$ 1 e quase sempre o retorno é rápido. "É lógico que não dá para ficar rico com literatura popular, mas nós somos peitudos e temos investido muito, muitas vezes bancando do nosso próprio bolso ou tirando recursos de outras áreas", conta Klévisson. A Tupynanquim costuma repassar até 30% do preço de capa para os poetas, enquanto 40% ficam com os distribuidores. Quase todo o resto serve para cobrir os gastos de produção.

   Arievaldo Viana, irmão de Klévisson, é apontado como um dos melhores poetas da nova leva, ao lado de Rouxinol do Rinaré, Pedro Paulo Paulino, Manoel Monteiro, Gonzaga Vieira e outros. Ele sabe que, se não for traçado um mínimo planejamento mercadológico, não há movimento que resista. "São os clássicos que puxam a venda, e durante muito tempo o pessoal produziu isoladamente. Sem estar agregado a nenhuma editora, não há condições de reeditar dois ou três clássicos para aumentar a venda".

   Arievaldo teme que a estagnação possa decretar a morte do gênero. "Nesse renascimento que está havendo agora, há uma preocupação em usar uma linguagem que coloque o cordel numa linha evolutiva", diz ele, lembrando que grandes nomes como Leandro Gomes de Barros estavam sempre inovando em sua época. A face mais polêmica desta inovação passa pelo aspecto gráfico dos folhetos. A tradicional ilustração de capa com xilogravura já começa a perder espaço para a charge e para a fotografia. "Dizem que isso descaracteriza o cordel, mas é uma evolução natural. Se na época de Leandro Gomes de Barros já existisse o offset, ele não usaria tipografia", compara Arievaldo.

   Boa parte da produção de qualidade deve-se ao parque gráfico Tipografia Lira Nordestina, em Juazeiro do Norte. Apesar das condições não serem as ideais, o parque imprime cerca de 90% das obras-primas do cordel que pertencem à ABC. "O valor histórico da Lira Nordestina é muito grande", opina Vidal Santos. "Nós amamos o cordel nos moldes tradicionais, mas o offset nos dá uma impressão perfeita", reconhece Gonçalo Ferreira, poeta e presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), que fica em Santa Teresa, no Rio de Janeiro.

   "A revolução gráfica é paralela às mudanças na qualidade do texto", analisa. Com 13 mil títulos no acervo, a ABLC tem até endereço na internet <abldecordel.homestead.com/cordel.html> e prova que o cordel cruzou as fronteiras do Nordeste. No Rio, o principal celeiro é a Feira de São Cristóvão. Na capital paulista, o cordel está mais disseminado pela enorme população de nordestinos.

   A presença por lá é tão forte que o jornalista holandês radicado no Brasil Joseph Luyten, especialista em cultura popular, escreveu o livro A literatura de cordel em São Paulo (Edições Loyola). "Existem dois lados. O saudosista, da família nordestina que teve de deixar seu lugar de origem; e o agressivo, do retirante que encontra uma nova realidade na qual ele não é aceito. Tudo isso se reflete no cordel", explica.

   O pesquisador acha que o desprezo pela literatura popular no Brasil deve-se a uma ponta de inveja dos intelectuais. "Com raríssimas exceções, os autores considerados intelectuais brasileiros não vendem bem. Já o poeta popular dá seu jeito, vai para a feira e sobrevive. Isso causa uma inveja na classe intelectual, que fica jogando confete nela mesma e não presta atenção em outras coisas", ataca Luyten, que organizou a coleção Biblioteca do cordel, da editora paulista Hedra. (Rodrigo Alves, JB)

Clássicos de volta

   A disposição e o talento dos jovens poetas não fizeram com que a literatura popular esquecesse seus grandes nomes do passado. Desde as reedições de folhetos clássicos da Tupynanquim, de Fortaleza, até as antologias bem trabalhadas da editora Hedra, de São Paulo, o cordel tradicional também está de volta à ordem do dia. E não há dúvida quando se trata de apontar o maior nome do cordel brasileiro em todos os tempos. Leandro Gomes de Barros, um pernambucano que morreu em 1918, aos 53 anos, foi pioneiro na edição de folhetos no Nordeste. Entre inúmeros títulos, deixou clássicos como História de Juvenal e o dragão, O cachorro dos mortos e Cancão de fogo e seu testamento.

   Com a morte de Leandro, seus direitos autorais foram vendidos a outro grande poeta, João Martins de Athayde, morto em 1959. Além de escrever folhetos importantes como A morte de Lampião, Athayde foi o responsável pela divulgação da obra de Leandro e de outros autores em todo o país.

   José Camelo de Melo Rezende, que morreu em 1964, escreveu Romance do pavão misterioso, um dos mais famosos folhetos de cordel, que acaba de ser reeditado pela Tupynanquim. O mesmo aconteceu com Proezas de João Grilo, de João Ferreira de Lima, morto em 1973, criador do personagem imortalizado por Ariano Suassuna no Auto da Compadecida.

   As obras de outros autores importantes, como Expedito Sebastião da Silva, José Pacheco, Manoel Caboclo, José Costa Leite e Patativa do Assaré, continuam disponíveis para o público até hoje graças às reedições.

   Com coordenação de Joseph Luyten, a editora Hedra começou a publicar este ano a Biblioteca do cordel, uma série de 50 pequenas antologias com nomes expressivos do gênero. Cada livro traz poemas de um autor e um texto biográfico sobre ele, escrito por um especialista em sua obra. Os oito primeiros volumes, que já estão nas livrarias, retratam Patativa, Expedito, Athayde, Caboclo, Zé Vicente, Cuíca de Santo Amaro, Rodolfo Cavalcante e Minelvino Francisco Silva.

   "Quisemos prestigiar o cordel, mas isso não significa que ele precise das editoras do Sul. É uma literatura que sobrevive à margem do grande mercado editorial", ressalta o editor da Hedra, Iuri Pereira. "Não estamos nos posicionando de modo paternalista. É o cordel que nos favorece e não o contrário". Iuri optou pelo choque entre o moderno e o tradicional na concepção gráfica da coleção, misturando xilogravuras a cores chamativas. "Nossa intenção é levar o cordel a um leitor que ainda torce o nariz para a literatura popular, e o resultado tem sido absolutamente satisfatório. As universidades equivocadamente ainda excluem esse tipo de manifestação", lamenta o editor. (R.A., JB)

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