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27/11/2000 Desnutrição é um mal de 4 mil anos A desnutrição acompanha a população do Nordeste brasileiro desde a Pré-História. Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) revela que a carência alimentar é uma realidade na região há mais de quatro mil anos. As marcas do mal estão presentes num crânio de um homem de cerca de 50 anos, exumado do sítio arqueológico da Pedra do Alexandre, no Sertão do Seridó (RN). No osso frontal, o cientista descobriu sinais da hiperostose porótica, doença provocada pela anemia. A hiperostose porótica, caracterizada por pequenos orifícios na superfície dos ossos do crânio, é apenas a comprovação do que vinha sendo indicado pelos restos de alimentos encontrados nas escavações dos sítios arqueológicos nordestinos. As análises dos achados mostraram que eles não tinham uma alimentação variada e rica em nutrientes, afirma Adelson Santos, médico com formação em Ortopedia, mestre em Filosofia da Ciência e doutor em Pré-História. Caçadores e coletores, os primeiros habitantes do Nordeste comiam predominantemente pequenos mamíferos, rãs e lagartos, além de frutos como o babaçu, umbu e coco de catolé. A agricultura ainda era incipiente e eles percorriam a região em função da oferta de alimento. A sazonalidade dos recursos naturais acarretava uma descontinuidade na alimentação, outro fator apontado pelo especialista como causa da desnutrição. Embora os crânios que apresentaram a hiperostose porótica sejam de homens (um no Seridó e outro num sítio arqueológico da Paraíba), o pesquisador acredita que as mulheres eram as que mais sofriam com a desnutrição, em função das sucessivas gestações. A demanda por ácido fólico, por exemplo, aumenta durante a gravidez, justifica. A esperança de vida das mulheres na Pré-História brasileira era de 35 anos, enquanto o homem geralmente morria aos 40. As verminoses, principalmente a ancilostomíase, são supostamente outro fator que contribuiu para a desnutrição dos nossos ancestrais indígenas. Na Serra da Capivara, no Piauí, o ancilóstomo foi encontrado em coprólitos (fezes fossilizadas) de humanos por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro. O quebra-cabeça que está sendo montado por Santos, que se dedica à paleopatologia desde a década de 80, é reforçado por uma criteriosa análise dos ossos em laboratório. Primeiro ele verifica as partes do esqueleto a olho nu, num exame chamado de macroscópico. Nessa fase, em que recorre à sua formação em Ortopedia, ele consegue diagnosticar ainda os acidentes anatômicos que indicam osteoartrose (desgaste nas articulações) e lesões por sobrecarga. Depois o paleopatologista utiliza a lupa e, por fim, estuda o material histologicamente. Nessa última etapa, quando são feitas lâminas com pequenas quantidades raspadas dos ossos, o pesquisador procura descobrir sinais de doenças nas células ósseas. Se a composição sangüínea tem alterações, o osso provavelmente também as terá, sentencia o paleopatologista. ESTATURA No estudo da desnutrição, o pesquisador também utiliza a radiografia. Por meio dos raios X, ele verifica as chamadas linhas de Harris, marcas transversais na tíbia que representam paradas no crescimento. Na Pré-História nordestina, há indícios de que a estatura média de um homem variava entre 1,55 e 1,65 metro, enquanto a mulher tinha de 1,50 a 1,55 metro. O trabalho é feito no Laboratório de Antropologia Biológica da UFPE, dirigido por Adelson Santos. O laboratório foi criado em 1997 e faz medições de esqueletos e exames de paleopatologia. A equipe conta ainda com dois estagiários da graduação em História da UFPE. Até agora foram analisados esqueletos e fragmentos ósseos de 30 a 40 indivíduos provenientes dos sítios da Pedra do Alexandre, no Sertão do Seridó (RN), Alcobaça (PE) e Serra da Capivara (PI). (VERÔNICA FALCÃO, JC)
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