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27/11/2000

O inventor da moderna MPB

   No início da década de 90, o baiano Tom Zé estava esquecido até dos seus ex-companheiros do tropicalismo. Contam que, entusiasmado com o álbum Estudando o Samba, o americano David Byrne ligou para Caetano Veloso querendo saber o paradeiro de Tom Zé. Como Tom Zé encontrava-se há anos fora da mídia, Caetano supôs que Byrne estivesse procurando o músico Tuzé Abreu. Começava aí o redescobrimento de um dos inventores da moderna música popular brasileira, veio o CD The Hips of Tradition, e o resto é público e notório.

   A culpa do desaparecimento de Tom Zé deveu-se a ele mesmo. Os discos que gravou depois do tropicalismo trafegaram na contramão das tendências que se seguiram ao tropicalismo. Se Caetano Veloso foi ousado em Araçá Azul, o que dizer de Tom Zé, com Todos os Olhos? Em 1973, em plena era plúmbea da ditadura, a capa do disco é nada mais nada menos do que um close de um ânus (sic) no centro do qual foi colocada uma bola de gude.

   A censura passou batida. O LP só foi recolhido depois que o pessoal da tesoura notou que havia algo subversivo “naquele olho verde, translúcido e sereno”.

   Graças a ter sido ressuscitado, Tom Zé tem sua discografia transposta, aos poucos, para a leitura à laser. A Warner Music, que herdou o catálogo da Continental, acaba de lançar Todos os Olhos, que chega com Se o Caso É Chorar (1972) ambos em um único CD (da série Dois Momentos), e mais Estudando o Samba (1976) e Correio da Estação do Braz (1978) (também em um só CD). Ao contrário de outros CDs de Tom Zé, estes foram remixados diretamente da fita master, pelo experiente Marcelo Fróes, e remasterizado por Ricardo Garcia e Charles Gavin (dos Titãs), responsável pela edição dos álbuns. O encarte traz informações, ficha técnica, e fotos raras. Enfim, um produto merecidamente bem cuidado.

   Se o Caso É Chorar é um dos álbuns menos conhecidos de Tom Zé (que usou alguns trechos de músicas deste disco no CD Com Defeito de Fabricação). Nele, sua veia satírica está solta, uma das melhores faixas é a surrealista A briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel. Tradição versus modernidade. O baiano de Irará vai de tudo, até de um melodioso frevo, que o pessoal da cena musical pernambucana bem poderia regravar.

   Mas o Tom Zé instigante está mesmo é em Todos os Olhos, que acabou sendo seu passaporte para o ostracismo. Também pudera. O disco termina com Complexo de épico, que deve ter incomodado a muitos, e tornado desafetos outros: “Todo compositor brasileiro é um complexado/Por que então essa mania danada/Essa preocupação de falar tão sério/De parecer tão sério/De se sorrir tão sério/De se chorar tão sério/De brincar tão sério/De amar tão sério?”. Um questionamento que ainda serve como carapuça para muitos compositores atuais. É um baiano cada vez mais paulista, mas paulista do Braz, um nordestino sempre admirado com a Paulicéia Desvairada. (JC)

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