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04/11/2001

Literatura popular ameaçada com abandono de editora

   O Dia de Finados assinalou também o primeiro centenário de nascimento de José Bernardo da Silva (1901-1972), o poeta e, principalmente, editor que, de Juazeiro do Norte, contribuiu para que as literaturas de cordel e popular fossem publicadas e preservadas. Pode-se dizer que se o Cego Aderaldo foi o Homero do Nordeste; Patativa do Assaré é o Virgílio do Sertão; Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde, o Dante e o Petrarca do Interior; José Bernardo da Silva se tornou então o Gutenberg do Agreste.

   O legado de Bernardo da Silva está registrado na matéria especial para o caderno Vida & Arte, ''A trajetória de um sonho'', de Rosilene Alves de Melo, publicada na edição de ontem do O POVO. A autora é professora do Curso de História da Universidade Regional do Cariri (Urca), tendo mestrado em História na Universidade Federal do Ceará (UFC), com monografia sobre a Tipografia Lira Nordestina.

   Lira Nordestina é a atual denominação da Tipografia São Francisco, fundada em 1938 por José Bernardo, ainda como Tipografia Silva. O fundador era um imigrante alagoano, que quando chegou a Juazeiro do Norte, pediu pessoalmente ao padre Cícero para viver e trabalhar na cidade, no que foi atendido. O que Rosilene denuncia no O POVO é que, lamentavelmente, depois de estatizada, pertencente ao patrimônio da Urca, a tipografia se encontra semi-abandonada e quando funciona, é para fins diferentes dos originais. Os que trabalham nas impressoras atendem encomendas tipo ''raspadinhas'' e outras. É como se a literatura de cordel mais autêntica, aquela herdeira possivelmente da canção de gesta medieval, depois de perder os principais autores e editores, fosse relegada ao esquecimento.

   Deve-se levar em conta que graças a José Bernardo, repentistas, violeiros e cordelistas deixaram de ser artistas meramente vocais para também se tornarem gutenberguianos. Esse trabalho favoreceu ainda os xilogravuristas regionais, imortalizados nas capas dos folhetos de cordéis. O declínio da Lira Nordestina, para Rosilene, é atribuído a fatores envolvendo a influência das rádio e telenovelas, atropelando os romances populares, assim como a censura estabelecida pelo regime militar iniciado em 1964, ''silenciando sutilmente as vozes de poetas que falavam dos problemas sociais''.

   Mas essa explicação pode ser relativa. Nesse período, o Brasil perdeu um grande defensor dessa cultura, como foi o folclorista do Rio Grande do Norte, Câmara Cascudo (1898-1986). Mas, por outro lado, a poesia popular de Patativa do Assaré e a de cordel passaram a interessar inclusive a pesquisadores franceses, desde o professor da Universidade de Sorbonne, em Paris, Raymond Cantel, e o jornalista Gilles Lapouge, ambos da terra da canção de gesta. Além disso, na condição de meca do Cariri, Juazeiro do Norte atrai multidão de romeiros bastante identificados com a cultura nordestina.

   Essa cultura que José Bernardo ajudou tanto a preservar está tão presente que pode ser uma das explicações para o sucesso nas bilheterias da terceira versão em longa-metragem para o cinema do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, no ano passado, dirigida por Guel Arraes. Apesar de ter sido assistida anteriormente em formato de minissérie de televisão, produzida e transmitida pela Rede Globo de Televisão.

   Esse semi-abandono da Lira Nordestina coincide com o surgimento de novos autores da literatura de cordel. É imprescindível reconhecer que a poesia e a prosa sobrevivem com a renovação de talentos e gerações. Contudo, deve-se alertar se esses novos autores, alguns de origem urbana, representam mesmo um prolongamento daqueles poetas populares que enfrentaram tantas dificuldades para se sustentar e só foram imortalizados graças a José Bernardo. Se não, a literatura de cordel pode correr o risco de ser praticada por estranhos no ninho.
(© O Povo)


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