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12/11/2001

Longa "Milagre em Juazeiro" revisita culto ao padre Cícero

SILVANA ARANTES
da Folha de S.Paulo

   Interpretado pelo ator José Dumont, Cícero Romão Batista (1844-1934), padre por formação, prefeito de Juazeiro do Norte (CE), "coronel" de uma força armada oficiosa e candidato a santo brasileiro, é um protagonista às avessas em "Milagre em Juazeiro", longa de Wolney Oliveira, 41.

   Não é dele, o "padim pade Ciço", o milagre do título. Mas da beata Maria de Araújo (1863-1914), cujo "fenômeno" motivou a formação de duas comissões de inquérito da Igreja Católica e resultou na excomunhão do padre.

   Na boca de Maria, uma jovem negra, pobre e analfabeta, segundo a descrição dos documentos de época, a hóstia da comunhão transformava-se em sangue.

   Com o endosso do padre Cícero, beata e fiéis de Juazeiro passaram a identificar no líquido o sangue de Cristo, o que configuraria o milagre de um segundo "derramamento" do Filho de Deus, algo antiteológico, na interpretação das autoridades eclesiais.

   Por esse episódio lateral, hoje praticamente esquecido -a Igreja cuidou de não incentivar o culto ao túmulo da beata-, o cineasta buscou aproximar-se da figura do padre e compreender sua influência no Nordeste. Formado pela escola de cinema de Cuba, Oliveira optou pelo formato do docudrama. Registrou nove romarias, percorreu 10 mil quilômetros e entrevistou fiéis nos "lugares sagrados" de Juazeiro.

   Tendo José Dumont, Marta Aurélia (a beata Maria) e atores como Roberto Bonfim no elenco da parte ficcional do filme, o diretor e roteirista reconstitui a polêmica do milagre, permitindo-se algumas "licenças poéticas".

   Ainda que de raspão, estão citados no filme aspectos contraditórios (e criticados) da personalidade do padre. Entre eles, o apoio ao bando de Lampião e o acordo feito com um funcionário do correio para receber cópia das correspondências enviadas ao seu rebanho.

   Em "off", Oliveira ouviu reprimendas muito mais enfáticas ao caráter do padre. Mas nenhum de seus críticos concordava em repetir o discurso na frente da câmera.

   A exceção que garantiu o contraponto do filme ficou por conta do bispo Nilton Holanda, único representante da igreja a opinar sobre os estratagemas que conduziram o padre à proa do cenário político e religioso da região.

   Teísta com passagem "pela umbanda, o espiritismo e até a TFP (Tradição, Família e Propriedade)", Oliveira diz que não é católico, mas dá "graças a Deus e ao padre Cícero" pelo depoimento do bispo. Particularmente, o cineasta está convicto de que o fato identificado como milagre nunca poderia ter sido um embuste e, depois do filme, reforçou seu respeito ao espírito empreendedor do padim.

   "Milagre em Juazeiro" custou R$ 1,1 milhão e consumiu cinco anos e dois meses entre as etapas de filmagem e finalização. "Isso não é um filme, é uma promessa", ironiza o diretor. Tem estréia prevista para dezembro no Rio, em Brasília e Porto Alegre. Em cada uma das cidades, o cineasta promoverá uma exibição ao ar livre, a exemplo do que fez em 99 em Juazeiro, para 90 mil romeiros. (© Folha Online)


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