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12/11/2001

O querubim revolucionário da Bahia

LUÍS NASSIF

   Quando Caetano Veloso surgiu nos antigos festivais da TV Record, lá por meados dos anos 60, os telespectadores pensavam estar frente a um querubim baiano. Tinha cabelos em cachos, modos macios, um sorriso zen, músicas de um lirismo exemplar, como "Clarice" e "No dia em que eu vim embora", e uma inteligência viva. Seu primeiro sucesso foi em um programa de auditório no qual o apresentador dizia uma palavra e o primeiro competidor que apertasse o botão de alarme ganhava o direito de cantar uma música que contivesse a palavra em questão.

   Sintomaticamente os maiores vencedores eram Chico Buarque e Caetano -o primeiro desfilando amplo conhecimento de sambas antigos, o segundo passando por todos os ritmos.

   Por isso mesmo, lá em São João da Boa Vista, onde eu fazia o clássico, foi um choque quando Caetano apresentou "Alegria Alegria", acompanhado por um conjunto de rock argentino. Confesso que a música não me impressionou tanto quanto "Domingo no Parque", um épico, mas que utilizava elementos nordestinos, embora em uma estrutura absolutamente original.

   "Alegria Alegria" era de uma simplicidade irritante, e aí residia o gênio de Caetano. A politização do meio universitário era completa, com passeatas, guerrilha, conflitos. E a música era uma apologia do hedonismo. Os festivais consagravam a estética do "arrepio" -toda música tinha que terminar com um grande final, que arrancasse arrepios. Não foi por outro motivo que Gil terminava "Domingo no Parque" com um "ê ê" que arrepiava, mas não tinha o menor sentido. Ou que Chico e o MPB4 terminavam "Roda Viva" com uma polifonia linda, mas com a missão precípua de arrancar o arrepio final da platéia. E vinha Caetano, com cabelo enrolado, celebrando alienação, e com um final de música mais apropriado a uma manhã de praia do que à arena bélica dos festivais.

   Hoje é fácil falar e difícil de imaginar o que significava o atrevimento naqueles tempos de pensamento único na música e com a juventude revolucionária descontando nos artistas "alienados" aquilo que não conseguíamos descontar no regime.

   Começava ali a revolução final da MPB, o fim de um processo iniciado com a bossa nova, pelo qual a música era compartimentalizada em linhas estéticas, em movimentos fechados, embora variados, de linhas estéticas.

   Pouco depois, à provocação light de Caetano seguiu-se "Tropicália", com toda a revolução estética sugerida e, logo depois, a declaração de guerra do "É Proibido Proibir". Foi o mais relevante momento cultural que já tive condição de testemunhar. Lá em Poços de Caldas e em São João imediatamente mergulhamos na nova onda. Os muros das limitações estéticas tinham sido completamente demolidos. Passamos a compor bricabraques, colagens de diversos ritmos, juntando a polifonia tipo Oscar Castro Neves ao dixieland, marchas-rancho a rock, baião ao charleston.

   Com o tempo, Caetano foi crescendo como músico e intelectual. Substituiu João Gilberto como orientador estético da MPB. A musicalidade intuitiva amadurecia. As letras continuaram sendo das melhores que a MPB já produziu, e os achados musicais cada vez mais brilhantes.

   A petulância cresceu na mesma proporção e está perfeitamente desculpado, sendo quem é. Lembro-me da disputa ridícula em torno de um show no Rio, na qual mulheres possessivas expuseram seus ilustres maridos Caetano, Gil e Paulinho da Viola. A mídia resolveu estimular a disputa e, assim que Paulinho soltou seu novo CD, a crítica tratou imediatamente de elegê-lo como o CD da época. Caetano reagiu. Com o devido respeito ao talento imensurável de Paulinho, disse, acertadamente, que não era nem o melhor CD do compositor.

   O que Caetano não confessou, nem sob vara, é que sua indignação se prendia ao fato de não terem considerado o "Tropicália 2", dele e Gil, como o disco da década. E tinha toda a razão. Não foi o começo de um novo momento. Foi o fecho de ouro de uma trajetória brilhantemente inovadora. Assim como "Tropicália" foi o grande disco dos anos 70, "Tropicália 2" foi a síntese mais perfeita dos 30 anos de cultura, desde a revolução tropicalista. Folha de S. Paulo)


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