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17/11/2001 O verso e o reverso de Sílvio Romero
Projeto lança em 21 volumes toda a obra do escritor em comemoração aos 150 anos de seu nascimento
Em projeto de grande fôlego, a editora da Universidade Federal do Sergipe (UFS) e a Imago estão colocando no mercado as obras completas desse precursor dos estudos brasileiros de áreas distintas como a antropologia e a história da literatura nacional. Não é um redemoinho fácil de amarrar. Romero foi juiz, deputado federal e estadual, professor por três décadas e fundador da Academia Brasileira de Letras; casou três vezes, enviuvou duas e teve 19 filhos. Escreveu também 63 livros, um para cada ano vivido. Essa enxurrada de textos, que volta às prateleiras sob a forma de 21 volumes, foi marcada pela sua amplitude e intensidade. "A obra de Sílvio Romero dá uma
certa idéia de turbilhão, no sentido próprio e no figurado. Um movimento forte e
agitado, que arrasta idéias e paixões, destruindo pelo caminho; um movimento circular
que gira incessantemente sobre si mesmo e progride, parecendo permanecer", escreveu
Antonio Candido, em introdução a antologia de textos de Romero publicada em 1978. Ele se refere ao estudo "Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero", escrito por Candido em 1945 para o concurso de livre-docência da USP. Na tese, mostrava como Romero havia sido o primeiro a apontar que a literatura brasileira podia e devia ser estudada do ângulo da sociedade e da história. Também apresentava os outros lados da moeda, como a fragilidade do pensador sergipano como crítico literário. "Como sugestão teórica e crítica para o presente, Sílvio Romero não tem muito mais o que falar", diz Candido à Folha. A obra romeriana teria hoje interesses históricos. "Precisamos não esquecer que Romero foi o homem que introduziu a teoria da mestiçagem. Ele foi o primeiro a dizer que todo brasileiro é mestiço, se não fisicamente, culturalmente. Essa contribuição dele é fundamental." O crítico também aponta o valor dos estudos de cultura popular do autor de livros como "Contos Populares do Brasil", um dos poucos títulos romerianos que estava disponível nas livrarias antes do relançamento que vem sendo operado pela parceria da Imago com a UFS. "Romero foi o primeiro grande estudioso do folclore brasileiro", opina Candido. Além do estudo das manifestações
populares brasileiras, o outro trabalho com maior projeção, e também a obra mais
elogiada dele, é sua "História da Literatura Brasileira", de 1888, que foi
republicado nas "Obras Completas". São famosos os seus ataques constantes à obra de Machado de Assis. "O livro de Romero sobre Machado chega até a ser engraçado. É pavoroso de tão ruim", brinca João Alexandre Barbosa. O crítico diz que se interessa até mesmo pelos tropeços do polemista sergipano. "Os erros dele às vezes conduzem a acertos", opina. A explicação disso estaria também na
característica do autor de produzir contradições. No seu texto mais recente sobre
Romero, Candido explica que suas idéias "não se propunham como desenvolvimento
linear, mas como vaivém, tensão de opostos, visão simultânea do verso e do
reverso". "Essa dualidade indissolúvel dá certo cunho revolucionário ao seu pensamento, mesmo quando surgem pela frente as antinomias conservadoras, que também compunham o movimento de ir-e-vir do seu turbilhão." "Sílvio foi um polemista, brigou à vontade. Brigou tanto que escreveu um livro chamado "Minhas Contradições". Não tinha mais com quem brigar, brigou com ele mesmo", se diverte Barbosa. Mas, diferentemente do que aponta o título desse livro, Romero não assumia ser contraditório. Dizia que "contradição supõe o choque de dois pensamentos contraditórios num mesmo tempo". Os conflitos vistos em seu pensamento não seriam simultâneos. Sua obra deveria ser lida em ordem cronológica. Agora será possível dar essa chance a Romero. (© Folha de S. Paulo) Jornalista organiza obras completas DA REPORTAGEM LOCAL Foram tantos jornais carcomidos que Barreto teve a percepção de que, se não transferisse os textos para papéis mais resistentes, as contribuições culturais do Sergipe ao país iriam sumir. Desde então, o sociólogo já organizou para a editora Record o trabalho de Tobias Barreto. Dez volumes. Depois, começou a compilar o trabalho do escritor Jackson Figueiredo para a editora GRD. Mais sete volumes. De Romero, trabalho que começou há dois anos, já chegaram três tomos (dois de "História da Literatura Brasileira" e um de "Compêndio de História da Literatura Brasileira"). Este mês, serão lançados "Parnaso Sergipano", "Estudos da Literatura Contemporânea" e "Autores Brasileiros (Machado de Assis e Outros)". Mais 15 volumes devem chegar até novembro de 2002. (CEM) (© Folha de S. Paulo) Com relação a este tema, veja também:
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