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17/11/2001
Eternidade
Rachel de Queiroz
Articulista do Vida & Arte
Um viajante, especialista em desertos, dizia que, tal
qual o mar, o deserto era imutável, aparentemente eterno. E no entanto, isso eram apenas
aparências; tal como no mar, a mesma gota d'água que cavalga uma onda nunca se repete,
vai em frente, rola até a praia, e de lá recua por via submarina, indo agregar-se às
ondas novas que se formam. Assim, o sertão. Quem o vê uma vez tem a impressão de que
já o viu antes - na sua aparente imutabilidade. Mas em geral, aquela moita não é a
mesma do ano passado, perdeu folhas, sumiu, enroscou-se, ficou apenas, nos meses mais
secos, um crestado enrolado de garranchos. Mas bastou uma chuva noturna para que a moita
morta de garranchos se cubra toda de rebentos verdes; no dia seguinte já será uma moita
quase completa; e três dias depois você já a rodeia com cuidado, quem sabe dentro da
moita não se esconderá alguma cobra.
Há tantos anos, tantos, desde que nasci assisto ao espetáculo da morte e
ressurreição da paisagem sertaneja. Novembro, por exemplo: em toda a volta do horizonte
seus olhos só distinguem os galhos ásperos das árvores secas: o capim, o matapasto já
não lutam entre si por espaço, como que se recolhem às raízes, esperando a sua hora de
brotar e estender galhos e folhas para o céu. Quem chegar hoje ao sertão nordestino
corre os olhos em redor de si e tenta descobrir onde se esconde a vida. Talvez nos bodes?
São os únicos quadrúpedes que ainda se espalham pelos pátios das fazendas. O mais, o
gado, o que restou das ovelhas, se abrigando às poucas sombras, esperando a hora da
ração - se há ração.
O que estou tentando dizer é que o sertão tem a sua dignidade
própria; não se enfeita nem se alvoroça, não sai do seu ritmo em homenagem a ninguém
nem a nada. Você o tem que aceitar assim como ele é: não se baixa a agradar os humanos,
castiga quando acha que deve mas também festeja com alegria e um carinho que,
experimentados uma vez, nunca mais se esquece. Nós, sertanejos. Aprendemos com ele essa
dignidade orgulhosa. Quem não agüenta, foge. Mas pelo resto da vida guarda no coração
o remorso do abandono. Sente-se um traidor sem saber muito bem o que traiu.
Qualquer um de nós - eu digo nós com a maior naturalidade - porque
realmente, more onde more, viva com quem viva, continuamos a ser sertanejos. Cada um de
nós. Na cara, no tipo, na voz, na linguagem. Meus pensamentos nascem dos conceitos de
lá. Minhas alegrias e tristezas são reguladas pelo que lá acontece.
Na realidade, depois que envelheci, das perdas que sofri, o
sertão é o único que nunca me enganou. Nunca me prometeu o que não poderia dar. Ele,
aliás, não promete: é sempre imprevisível e variado. Sol ou chuva, fartura ou
miséria, esconde-se tudo nas mãos dele. E não adianta que a gente aprenda truques para
modificar o sertão, adaptá-lo às nossas aspirações. Ele é ele. Pode dar folhas
verdes ou apenas galhos secos. Dentro do seu tempo particular. Ele é o senhor, nós somos
os escravos. Do tempo, do céu, da fartura, da miséria, do gado gordo, das rezes magras
do verão. E também dos caboclos, que o entendem e o temem, que só saem de lá quando
obrigados, mas mesmo que morram de velhos na terra estranha, jamais se esquecerão dele. (© O
Povo)
Com relação a este tema, veja também:
Veja sites de escritores nordestinos, inclusive de Cordel, na
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