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19/11/2001

Nem todos estão ''assassinano'' o cordel

Um projeto que prevê a publicação de cordéis concomitante de xilogravuras, com a intenção principal de lançar novos autores, vem sendo o responsável pela retomada da produção da literatura cordelista em Juazeiro do Norte. O projeto SESCordel acaba de receber um prêmio de reconhecimento deste trabalho do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)

Ana Naddaf
da Redação

''Fazer xilogravura
pra figurar o cordé
emprensano no papé
junta a literatura
que fala da cultura
com sua forma singular
pro cordé representar
cada qual se expressano
pois estão assassinano
a cultura popular.


   O papel simplista encontra-se com a poesia rica em imagens férteis. Une-se ainda com a arte vinda do marcar intenso do xilógrafo sobre a madeira de fio, de topo. O poeta centraliza a responsabilidade de puxar pela memória e transformar em versos as histórias do passado, os causos dos arredores, o que é contado pra menino dormir.

   A então estudante de Letras, Francisca Pereira dos Santos, conhecida como Fanka, teve o primeiro contato (acadêmico, vamos dizer assim) com este universo da literatura de cordel, quando tomou como estudo a tensão religiosa do sertão cearense no século 19. ''Eu resolvi pegar o cordel como documento deste período'', lembra-se. De leitora à escritora. Fanka resolveu arriscar-se pelas linhas impressas em gráfica tosca. E se fez conta das possíveis dificuldades no processo de publicação dos pequenos livretos.

''E nos verso da poesia
grande poeta descreveu
e nela desobedeceu
derrotano a impocresia
ele sábio já nos dizia
pra gente poder ganhar
vamos ter que nos juntar
não ficar só esperano
pois estão assassinano
a cultura popular.


   Quando foi convidada para ser coordenadora sócio-cultural do Sesc de Juazeiro do Norte, o primeiro projeto apresentado por Fanka foi exatamente sobre literatura de cordel. Surgiu então, em maio de 1998, o SESCordel Novos Talentos com o objetivo de publicar folhetos concomitante de xilogravuras. A intenção principal era lançar novos autores, mas também de retomar clássicos dos cordelistas locais.

   ''O projeto foi responsável pela retomada da produção de cordel no Juazeiro, de estimular a revitalização desta expressão popular. E bem na época em que pessimistas falavam da morte do cordel'', comenta o professor e publicitário Gilmar de Carvalho, que vem acompanhando o projeto desde os seus primeiros passos, suas primeiras impressões.

   Um destes pontos de revitalização da tradição popular, ressaltada por Gilmar de Carvalho, está, por exemplo, na retomada de produção da antiga gráfica de José Bernardo, hoje Lira Nordestina, única gráfica de cordel do Ceará e uma das mais importantes do Nordeste, mas que passava por uma crise e teve até ameaça de ver suas portas fechadas.

   ''A opção pela Lira Nordestina refletia exatamente o que pensávamos: unir a tradição do passado do cordel no Juazeiro e a modernidade dos novos escritores. Além de ver os meninos do gráfica tristes por estarem prestes a fechar a gráfica. O próprio Zé Lourenço (um dos responsáveis pela coordenação da gráfica Lira Nordestina) declarou na revista (mineira) Palavra que a gráfica só voltou a se movimentar em função do trabalho do SESCordel'', explica Fanka.

''Nas eras de antigamente
o povo se encontrava
e usava de sua palavra
mode fazer repente
home vira serpente
nas horas de improvisar
e nem deixa terminar
cum o povo aclamano
pois estão assassinano
a cultura popular.

   De dois em dois meses, três cordéis são publicados. Ao todo, já foram publicados mais de 50 títulos. Um dos últimos foi o re-lançamento do cordel A pranteada morte de Padre Cícero, do próprio José Bernardo da Silva. Uma forma de homenagear o centenário do poeta-editor.

   A partir do próximo ano, dois títulos sairão da gráfica mensalmente. Dentro do projeto para 2002, já aprovado, está a cordelteca, que disponibilizará para comunidade, além de todo o acervo impresso pelo projeto, cordéis de outras regiões. O SESCordel está em negociação com a Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Só a Academia tem cerca de 20 mil títulos. ''A previsão é que ela seja aberta já em janeiro. Estamos no processo de encadernação dos cordéis. Descobrimos que, como ele é muito magrinho, o povo nem ligava muito. Agora, com capa dura e tudo organizado, a história será diferente'', acredita a coordenadora.

   Além da cordelteca, estão também previstos, para o ano que vem, um documentário sobre a literatura de cordel no Cariri, um concurso estadual de cordel, um encontro estadual de poetas de cordel e a primeira mostra nordestina de teatro em cordel.

''uma cultura tão rica
passada de pai pra fio
subrim recebe de tio
tudo aqui significa
inté o burro imburrica
isso não pode acabar
temos que recuperar
isso que estar faltando
pois estão assassinano
a cultura popular.

   A iniciativa de retomada da cultura do cordel, a descoberta de novos autores e os futuros passos já renderam frutos. O projeto SESCordel acabou de receber um dos prêmios que é concedido, anualmente e nacionalmente, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). ''Eu vejo este prêmio como uma forma de comprovar que o cordel não está em uma fase terminal, como muitos gostam de colocar. Ele pode até ter passado por crises, mas não morreu'', finaliza Gilmar de Carvalho, que foi o porta-voz da boa notícia da premiação. Quem sabe esta história não renderia um bom cordel para mostrar que nem todos estão ''assassinano'' a cultura popular?

* os trechos em itálico são de autoria de Cícero José, que pertencem ao cordel ''Pois estão assassinano a cultura popular''. Os versos foram reproduzidos exatamente como estão impressos no cordel.
(© O Povo)


Os ''mauditos'' e a produção feminina

   Eles não saíram dos versos de nenhum cordel, mas se utilizam dele para promover uma espécie de revolução no campo da poesia popular. A forma característica dos folhetos continua a mesma: de uma xilogravura se origina a capa, o papel simples, o tamanho pequeno e a impressão feita pelo processo manual. O que muda na mão dos poetas da Sociedade dos Cordelistas Mauditos (com ''u'' mesmo) é a forma da linguagem, de muitas linguagens.

   No manifesto escrito pelo grupo (formado por poetas, xilógrafos, estudantes, músicos e professores), está a definição da sociedade: ''não somos nem eruditos nem populares, somos linguagem''. Segundo a poeta Francisca Pereira dos Santos, a Fanka, que está à frente do grupo, a Sociedade, criada em abril do ano passado, surgiu em um momento em que o cordel saiu das feiras exatamente para as universidades.

   Por falar no espaço acadêmico, um outro grupo será base para um estudo universitário: as cordelistas. Para a sua dissertação de mestrado em sociologia, Fanka está explorando como tema a produção feminina no Cariri. ''O projeto SESCordel é um dos responsáveis pela vasta produção de cordéis feitos por mulheres. Para a minha dissertação, eu cataloguei 22 mulheres e a maioria lançou seu primeiro trabalho através do projeto'', analisa.
(AN) (© O Povo)


Um século de cordéis

   Em abril e maio deste ano, o Sesc-Pompéia, em São Paulo, resolveu reunir a nata dos poetas, xilógrafos, repentistas e intelectuais em torno da literatura de cordel. Um show de emboladores, na rua principal do bairro paulistano que dá o nome ao Sesc, deu início ao evento 100 anos de Cordel.

   O artista cearense José Lourenço, responsável pela gráfica Lira Nordestina e um dos principais xilógrafos do projeto SESCordel, foi um dos convidados para dar uma oficina de xilogravura e para falar como é a produção de cordéis ainda pelo processo manual de impressão. O próprio projeto SESCordel recebeu convite do evento para levar sua nova geração de cordelistas.

   O projeto também foi parar em Aracaju para o evento A literatura de cordel no Nordeste. A Sociedade dos Cordelistas Mauditos, que se originou a partir do projeto SESCordel e pretende revolucionar o conteúdo da poesia popular, foi convidada para abrir o encontro juntamente com o Grupo Imbuaça de Teatro, de Sergipe, que trabalha com o tema da literatura de cordel. ''Foi um espaço para mostrar as releituras do cordel que estão sendo feitas na atualidade'', explica a coordenadora socio-cultural do SESC, Francisca Pereira dos Santos, que é a responsável pelo SESCordel. (AN) (© O Povo)


E tudo acaba na oficina

   O trato é este: o poeta manda o material, o projeto SESCordel publica o cordel. Dos mil exemplares impressos, metade fica com o autor e os outros 500 serão distribuídos para bibliotecas, colégios, pesquisadores, outras unidades do SESC ou ficam para o acervo do projeto. ''O cordelista também fica encarregado de dar uma oficina em escolas'', explica a coordenadora socio-cultural do SESC, Francisca Pereira dos Santos, responsável pelo projeto.

   Muitos dos novos autores saem exatamente da promoção destas oficinas. ''A difusão do cordel dentro das salas de aula está como rastilho de pólvora. Criando novos autores ou, o que é muito importante, novos leitores'', comenta a coordenadora.

   O próximo passo é um projeto voltado para a xilogravura, o outro elemento necessário para a feitura do cordel. Hoje, um xilógrafo é contratado apenas para fazer a capa. Nomes conhecidos como José Lourenço, Orivaldo Batista, Antonio Celestino, Hélio Ferraz... As bases originais das xilos de todas as capas estão sendo guardadas. Além de uma possível exposição, a intenção é que o projeto se torne misto incluindo oficinas de xilogravura e impressão pelo processo manual.
(© O Povo)


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