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28/11/2001

Arte Nordestina e do Mundo

Obra do artista plástico Efrain Almeida: o regionalismo reconstruído sob a ótica contemporânea

O crítico de arte Moacir dos Anjos reflete sobre a produção de arte contemporânea no Nordeste em meio ao processo de globalização, contemplando questões afins ao trabalho do artista plástico Efraim Almeida, que expõe no Centro Dragão do Mar

Moacir dos Anjos
Especial para o Vida & Arte

   O processo de globalização cultural tem despertado, no Nordeste do Brasil - como em tantas outras regiões ciosas do caráter original e íntegro de sua tradição cultural -, reações conservadoras e protecionistas, temerosas de que o grande influxo de bens culturais mine a idéia, largamente partilhada pelos nordestinos, de pertencimento a uma comunidade. Implícita neste receio está a identificação do processo de globalização com a homogeneização de culturas locais sob o manto unificador de um outro padrão cultural, supostamente dominante e internacionalizado. Esta interpretação termina, contudo, por escorar-se em uma concepção simplista e 'universalizante' do processo de globalização, obscurecendo seu caráter crítico e desmitificador.

   Apesar dos temores apregoados, o contato e a colisão entre discursos e imagens diversos sobre o mundo têm gerado respostas de afirmação ou reconstrução identitária e desenvolvido um generalizado fascínio pela diferença. O resultado mais paradoxal da intensificação dos fluxos mundiais de informação tem sido, de fato, o de frustrar expectativas de homogeneização de culturas e de fraturar a noção de hierarquia entre elas. Familiariza o mundo, ao contrário, com um ambiente cultural complexo e diversificado, instituidor de uma nova e ampliada cartografia da produção e circulação simbólicas.

   A permanente reconstrução da identidade nordestina se realiza, neste contexto, por meio de formas específicas de integração/reação ao processo de globalização cultural que são elaboradas pelos que produzem bens simbólicos no Nordeste do Brasil; é deles a responsabilidade de problematizar e recriar sistemas de representação que não mais conseguem traduzir modos de vida compartilhados pela comunidade da qual fazem parte. A partir de iconografias, memórias, materiais e procedimentos fincados nas suas experiências reais e imaginadas da Região, artistas plásticos nordestinos - residentes ou não no Nordeste - têm esboçado maneiras próprias de lidar com o sombreamento dos limites arbitrários dos sistemas de representação simbólica, criando obras que continuamente trafegam entre os vários espaços e tempos em que são instados a viver na contemporaneidade.

   Através de suas obras, a cultura regionalista se amolece e se redefine como o conjunto de modos individuais de enunciar embates e negociações entre lugares simbólicos diversos que se comunicam e se tocam. A região deixa gradualmente de ser um território 'fechado' sem que isso implique que seus artistas recusem o cotidiano habitado em favor de uma afiliação a códigos criados em outros espaços. Os trabalhos desses artistas não oferecem, evidentemente, uma representação simbólica perfeitamente delineada do que é hoje o Nordeste, o que equivaleria a propor uma alternativa identitária rígida para um espaço múltiplo e em construção permanente. Dão visibilidade, entretanto, a proposições estéticas que, embora marcadas pelo que é presente nos locais de onde se enunciam (por exemplo, o apego à figura, a religiosidade latente, a artesania, o uso de matérias cruas), terminam por destes desprender-se e, em trânsito constante, alcançar ainda outros lugares e momentos.

   São trabalhos que, cada qual a seu modo, fazem do Nordeste um território movente imerso numa temporalidade que se contrai e distende. São trabalhos críticos que desmontam a idéia de região como algo imutável e que reconstroem suas fronteiras como espaços de trocas. São trabalhos que, ao constantemente reinventar formas de expressão e de vida, parecem afirmar que não há somente um Nordeste, mas muitos.
(© O Povo)


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