28/11/2001
Gravadora lança 50 discos de repentistas
e emboladores
XICO SÁ
da Folha de S.Paulo
Na década de 20, uma prosódia veloz, que soava como se fosse uma conversa
árabe sob batida de pandeiro, deixava o modernista Mário de Andrade, em viagem
etnográfica, com cara de turista abestalhado.
Era o choque diante da embolada, ou coco de embolada, poesia cantada de
improviso que acaba de ganhar, juntamente com o repente de viola, o mais amplo registro
fonográfico de todos os tempos: um pacote de 50 CDs.
A primeira dúzia de discos foi lançada este mês em São Paulo, por
iniciativa do repentista Téo Azevedo, 59, caboclo do sertão mineiro que se firma, depois
de 3.000 produções musicais do gênero, como um dos maiores apanhadores dos ritmos
populares do país.
Os repentistas de viola (cantadores) e de pandeiro (emboladores) escaparam da
praga apocalíptica de muitos folcloristas.
Agora o gênero alcança até o mercado pirata, mesmo sem nunca ter sido
xodó da indústria cultural. É a tecnologia da cópia a serviço do folclore?
Longe da masturbação sociológica ensaiada pelo repórter, Azevedo ri da
história: "Mal lancei os discos e muitas faixas já faziam parte de coletâneas
piratas no Brás, no largo 13, na praça da Sé", afirma.
O sucesso é "Futebol no Inferno", de Pardal e Verde Lins, que
merecem um dos discos da coleção "Os Grandes Repentistas do Nordeste". O hit
pirateado narra um jogo de futebol entre o time de Lampião e o escrete do Satanás.
O tom é o surrealismo próprio da poesia popular nordestina -ao estilo de
Zé Limeira, um paraibano cuja existência é questionada, que costumava enlouquecer
platéias e desafiantes com versos capazes de corar um André
Breton e toda sua "écriture automatique".
Além da resistência nunca dantes imaginada por folcloristas -o próprio
Mário de Andrade temia pelo futuro da embolada, quando quem corria riscos de fato era o
futurismo da sua época-, os repentistas têm hoje uma liga afetiva consolidada com o rap,
o "rhythm and poetry" estrangeiro.
"Fui criado ouvindo emboladores e, quando passei a fazer rap, vi o
quanto os dois ritmos são do mesmo balaio", diz Zé Brown, rapper pernambucano do
Faces do Subúrbio, primeiro grupo a fazer a ligação direta do repente com o hip hop. Os
paulistanos Rappin" Hood e a dupla Thaide & DJ Hum, da classe A da rima, também
fizeram um "bem-bolado" dos gêneros.
É de novo o repente, no ritmo da danada da dialética e seus balaios de
contradição, resistindo, para abestalhamento dos puristas, em harmonia com o produto do
"invasor imperialista".
A dupla Caju & Castanha, lançados em São Paulo pela gravadora Trama e
que pôs a embolada no circuito jovem do dito sul-maravilha, é exaltada pelos mais
antigos nessa crônica da teimosia. "Devemos a eles esse estouro que a embolada
voltou a ter hoje", celebra Azevedo. (© Folha Online)
OS GRANDES REPENTISTAS DO NORDESTE - EMBOLADORES E CANTORIA DE
VIOLA
Artistas: Caximbinho & Geraldo Mouzinho, Valdir Teles & Fenelon Dantas, Zé
Cardoso & Geraldo Amâncio, Andorinha & Sebastião Marinho, Moacir Laurentino
& Sebastião da Silva, Terezinha & Lindalva, Pardal & Verde Lins, entre outros
Gravadora: MD Music Distribuidora (av. Ipiranga, 1.100, 10º andar, SP, tel. 0/xx/
11/229-2207)
Quanto: R$ 4 (venda na gravadora)
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