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07/12/2000

O simples impregna "Hai Kai Baião"

   Estreou na segunda-feira, no Teatro Vila Velha, em Salvador, Hai Kai Baião, a nova coreografia de Cristina Castro para a companhia que fundou lá em maio de 1988 e co-dirige com Antrifo Sanches, o Vila Dança. Destacando-se pela sua proposta de se dedicar à formação de platéia para a dança na sua cidade, o Vila Dança tem se apresentado também nos mais expressivos eventos do País.

   Hai Kai Baião, a quarta produção desse elenco, comandada por Antrifo Sanches, conta com assistência de direção de Roberto Montenegro, surgiu de forma diferente, pois a ela não foi possível dedicar o mesmo tempo de pesquisa das três que a antecederam, daí ter sido encarada como um novo desafio. "O lado romântico de que coreografar é algo que vem somente da inspiração de um momento, sem data, nem dia certo, se dilui quando se tem a responsabilidade de levar uma companhia profissional para frente, mas talvez seja a mesma coisa para os que se dedicam a escrever, pintar, clinicar, fotografar, construir...", diz Cristina Castro, que assina a direção, o figurino, os adereços e a trilha sonora, além da coreografia.

   "Hai Kai Baião caminhou por outras estradas, nada aéreo, nada colorido, nada espetacular, e nele o simples impregnou as cenas, estruturadas em torno do número 3 da estrutura dos poemas haicais", explica a coreógrafa. Empregando como personagens o menino (e o cachorro), a mulher (e a chuva), o homem ( e o sal), o espetáculo se passa na paisagem seca e quente do sertão.

   Cristina Castro escolheu trabalhar com haicais brasileiros de Pedro Xisto, Oldegar Vieira, Paulo Leminski, Edson Kenji Iura, Fanny Dupré, Paulo Franchetti e Millôr Fernandes, entre vários outros. "Os do Oldegar Vieira, por exemplo, um dos maiores haicaístas brasileiros e que gostaríamos muito que estivesse na estréia, foram retirados de um livro maravilhoso chamado Folhas de Chá, que completa 60 anos e merece ser reeditado."

   Em Sagração da Vida Toda (98), eram as cordas e as pernas-de-pau. Em CO2-Cinco Sentidos e um pouco de Miragem (00), Moacyr Gramacho instalou uma rede para investigar a gravidade. Agora, Cristina optou por um cenário contendo um torno, uma folha de zinco, um pedaço de tecido e oito banquinhos e nele o branco predomina. "Fugi da tentação de fazer haicais visuais e me concentrei na essência desses poemas, ou seja, no reconhecimento da transitoriedade, no louvor à natureza, na percepção do nascer e do morrer do homem e nos sentimentos."

   A trilha sonora reúne compositores como Luís Gonzaga, Gilberto Gil, Mestre Salustiano, Caito Marcondes, Nana Vasconcelos, Livio Tragtenberg, Pandemonium e Dominguinhos, entre outros. A programação visual é de Marcio Meirelles e a iluminação de Valmyr Ferreira. Dançada por Clênio Magalhães, Eduardo Pinheiro, Ísis Carla, Izabel Ferreira, Jairson Bispo, Liria Morais, Maitê Soares e Sílvia Costa, o trabalho fica em cartaz até quarta-feira.

   A intenção é montar um painel nordestino composto pela feira, pela janela, pela criança, com o êxodo rural, a condição feminina, a água. "O espetáculo trabalha o tempo inteiro com o construir e o desconstruir, até mesmo nele as imagens entram com bastante força."

   Cristina Castro tem a sua carreira de bailarina ligada ao Balé do Teatro Castro Alves e ao Teatro Vila Velha, além de dirigir o Vila Dança, realiza projetos como oVila Convida, no qual o elenco se relaciona com outras companhias, e o Improvilação, destinado a desenvolver a técnica da improvisação com outros profissionais. A companhia usa como treinamento diário aulas de dança moderna, clássica, popular, capoeira, canto, técnicas circenses e percussão.

   A importância de companhias como o Vila Dança cresce no nosso país. Graças a elas, muitos começam a compreender e a colaborar para a preservação da diversidade como um dos mais importantes traços da nossa cultura. Abrir mercados com características locais se afigura como uma das saídas para a crise que assola a dança brasileira. (Helena Katz, OESP)

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