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13/12/2000 Naná vai levar vanguarda nordestina ao Percpan O trabalho com o Flor do Mangue tem sido uma iniciativa quase solitária de Naná Vasconcelos. Essa parece ser sua sina também na música. "Meu trabalho é muito solitário. Houve um tempo em que pensava que era uma mistura de solidão e individualismo. Sofro por fazer uma coisa sem descendentes, só eu toco berimbau dessa maneira." Por trás da confissão há, na verdade, uma preocupação constante em despertar em outros músicos a curiosidade de derrubar os estereótipos dos seus instrumentos, sem perder de vista a mensagem da música. "Desejaria que outros músicos pensassem dessa maneira sobre o instrumento: que não tem limitação. Assim como a cuíca não foi feita só para o samba, também o berimbau não foi feito só para a capoeira", diz Naná. "Muito da cultura que veio da África para o Brasil já não existe mais lá, muita coisa de lá se encontrou pela primeira vez no País, gerando outras. Vejo isso muito no Percpan. Temos essa variedade de instrumentos, que não têm necessariamente de estar ligados a um gênero." A música de Naná está fora dos clichês, e das rádios. Isso não o incomoda. "Meus discos foram lançados no exterior e nunca saem de catálogo porque são documentos, não fazem parte de um movimento ou uma moda." Naná credita parte de seu sucesso (ou reconhecimento) à curiosidade e simplicidade. "Uma pessoa no exterior, que nunca viu o instrumento, quando vai ao teatro e me vê tocando aquele pedaço de pau, uma cabaça e uma corda, impressiona-se. Ninguém sabe o que vai sair disso, mas tem o aspecto visual, conta uma história. Isso é gratificante porque mostro que a música pode dizer muito com coisas simples." Ele não esquece a experiência do disco Saudades, que gravou na ??Alemanha com a Orquestra Sinfônica de Sttutgart. "A gravação foi rápida, porque os músicos tinham a maior curiosidade em ver o resultado." Além disso, para Naná, a mensagem da música tem de ser clara: "O artista precisa dizer alguma coisa. E não explicar. O ouvinte não pergunta nada." Naná não vê a mistura de elementos orgânicos e tecnológicos como evolução musical, mas conceitual. Acredita também que há muita gente apertando o botão sem saber o por quê. "Se o computador pifar, a pessoa não vai saber fazer de novo, porque ele não gerou uma idéia", diz. Nesse sentido, diz que o músico tem de ser capaz de tocar exatamente o que fez no disco, entender música e saber por que a faz. Já teve de trabalhar de forma regrada, pois sua composição pautou muitas trilhas de balé e cinema. "Essa vivência vem da prática. Só levo para o palco o que eu posso te mostrar, onde está o início, o meio e o fim. Se posso contar uma história com ela. Não vou me perder, principalmente da coisa simples." Quando começou a tocar com jazzistas, procurou esse caminho. "Era a maneira de encontrar um espaço nisso, tocando simples. Fazendo o café com o pão, o arroz e feijão", recorda. "Muitos se perderam e tiveram de voltar para o real, tiveram de me perguntar." Naná não acredita no soul nacional. "Quando um cantor de soul daqui chega aos EUA, o pessoal pensa que está imitando James Brown. Ele está mexendo com coisas de outros, a não ser que coloque elementos nossos", analisa. Para ele, as músicas de Chico Science interessaram o mundo porque não comportavam comparações. "Mesmo que ele estivesse usando fórmulas americanas, como o hip-hop e o rap, a percussão e o ritmo eram daqui. Sua rítmica era a alma da coisa, era o chão, maracatu. Essa colagem foi uma contribuição riquíssima." E a música do Cordel do Fogo Encantado, grupo que ele produziu, também tem o que dizer. "É uma música verdadeira que o Brasil precisa ouvir com atenção. A pessoas vão sentir falta de instrumentos convencionais, mas a força do Cordel está na poesia e na formação percussiva, com ritmos fora dos clichês. Não tem nada a ver com o movimento mangue. Eles estão trazendo a cultura do sertão." Naná quer mostrar essa força da cultura percussiva brasileira no Percpan de 2001. "Quero esses jovens de agora, essa coisa do mangue beat e do interior. É importante mostrar o que está acontecendo. A cena nordestina não folclórica, mas vanguardista, do tipo que trabalha com DJ", antecipa. "É uma realidade da música alternativa brasileira. Eu quero umas máquinas no palco." Naná se diz um defensor dessa música nordestina. "Adoro estar perto
deles, é uma verdade que vem do Nordeste", afirma. No entanto, sempre exigente,
sugere que o movimento mangue beat explore novas harmonias e varie as percussões.
"Isso pode ser feito. Está tudo lá. De certa forma, é tudo muito novo, mas acho
que está em tempo de variar. Falo isso porque adoro esses malucos."(Janaina Rocha,
OESP) |
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