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15/12/2000

O retrato de Dora Andrade

O retrato de Dora Andrade Tudo é uma questão de Dora. Se mestre Pablo Picasso tem a sua musa Dora Maar, o Ceará também tem a sua: a bailarina Dora Andrade. Nascida em Fortaleza, Dora Isabel do Araújo Andrade, de 41 anos, sempre foi uma mulher à frente do seu tempo. Há nove anos, quando criou a ONG Edisca, projeto social que forma bailarinas mas cujo objetivo principal é formar cidadãs, ela não foi muito bem compreendida. Nessa época Fortaleza batia o recorde de prostituição infantil e Dora via (e sentia), de perto, o sofrimento de uma faixa excluída da população.

   - Hoje se fala muito na arte como processo para formar cidadãos, mas há nove anos ninguém entendia como a dança poderia servir para criar um alicerce que apontasse para um futuro mais feliz. Foi muito complicado a implantação da Edisca - lembra Dora. - A sociedade não compreendia como a dança, que durante muitos anos era acessível só para meninas das classes média e alta, pudesse fortalecer as pessoas.

   O estilista Lino Villaventura era um dos que acreditavam em Dora e seu projeto:

   - A Edisca é uma das coisas mais importantes dos últimos tempos aqui no Ceará - diz o estilista. - É um trabalho lindo e Dora é uma mulher maravilhosa, positiva, culta, que canaliza tudo para um trabalho que é motivo de orgulho para todos os cearenses.

   Foi por conta desta admiração por Dora e sua empreitada que Lino aceitou conceber o figurino do balé "Duas Estações" que se apresenta, segunda e terça-feira, no Teatro Carlos Gomes, às 20 horas.

   - Adorei o resultado do trabalho, principalmente as saias armadas com trançado de palha e a indumentária que criei para os caranguejos, tão presentes na realidade do Ceará. Fiz um trabalho articulado que dá a impressão de metal mas na verdade usei um tecido metálico coberto com tule e todo armado com barbatanas de silicone - conta Lino, entusiasmado, lembrando que figurino de dança é muito complexo, quase um desafio.

   Casada com Gilberto Holanda, dono de lojas de comida chinesa, mãe de Raquel, de 16 anos, e Ana Isabel, de dois, Dora conta que a Edisca, que hoje atende a 380 crianças de 7 a 19 anos de baixíssima renda, foi uma coisa intuitiva que acabou dando certo:

   - Aos poucos o programa foi se ampliando. Começamos a trabalhar com dança e depois fomos agregando outros programas como nutrição, psicopedagogia, saúde - explica Dora. - Temos a Escola de Dança e o Corpo de Baile da entidade, com 50 crianças. Mas a idéia não é formar bailarinos, mas gerar uma educação de qualidade e acho que esta educação de qualidade, essa possibilidade de vivenciar a estética e o belo dá um diferencial para a vida futura dessas meninas.

   Um trabalho impecável que já ganhou vários prêmios, como o Unesco na categoria juventude e cidadania. Por meio da linguagem da dança-teatro, a Edisca continua vê nos dramas sociais oportunidades para discutir essas questões. "Duas Estações", que foi integralmente patrocinado pelo Instituto Ayrton Senna, mostra um Nordeste luminoso e um povo forte que resiste às adversidades e acredita em dias melhores.

   - Dizer qual desses prêmios foi mais importante é dificílimo, todos são honrosos, geram uma credibilidade extremamente importante.

   Diretora social do BNDES, Beatriz Azeredo diz que a entidade doou cerca de R$ 1 milhão para a construção da sede da entidade, que funcionava em lugar precário - a nova foi inaugurada ano passado.

   - Trata-se de um balé da maior qualidade, que poderia estar em qualquer lugar do mundo. A Edisca oferece para essas crianças exatamente o que a gente gostaria de oferecer para nossos próprios filhos - diz Beatriz, lembrando que o banco está ajudando a ida do grupo a Washington e Nova York em maio do ano que vem. (Elisabeth Orsini, OG)

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