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23/12/2000

Ministério da Cultura quer transformar o maracatu na imagem do Brasil no exterior

   Em visita a Pernambuco no último fim de semana, o Secretário de Música e Artes Cênicas do Ministério da Cultura (MinC), Joatan Vilela Berbel, presenciou o primeiro encontro de maracatus em Nazaré da Mata. Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, ele revela que o Governo Federal pretende fazer do maracatu a imagem do Brasil para o exterior; aponta distorções em eventos ditos regionais; dá detalhes sobre o projeto Toca Pernambuco e adianta informações sobre uma parceria com o Instituto Itaú Cultural.

Jornal do Commercio – Em que medida a sedimentação do encontro de maracatus em Nazaré da Mata é importante para a região?

Joatan Vilela Berbel – O evento saiu de uma parceria entre a prefeitura do município e o governo do Estado. A idéia é transformar a cidade de Nazaré num pólo cultural através deste encontro; fazendo dele um projeto auto-sustentável. Incrementar a atividade hoteleira e atrair o turismo. O trabalho do MinC é apenas uma parte de um trabalho conjunto. Queremos atrair outros parceiros. Já abrimos inclusive uma frente com a Secretaria de Educação para começar a colocar o maracatu como uma forma de vender a imagem do Brasil para o Exterior. Tirar do estrangeiro a imagem que predomina em sua cabeça. A da prostituição infantil nas capitais litorâneas.

JC – Como isso pode ser feito?

JVB – Primeiro estimulando a gravação de CDs e criando um pólo de desenvolvimento comercial e industrial na própria região. Na realidade o MinC não pode ir mais além porque, assim como existe Nazaré da Mata, existem milhares de outros municípios com suas manifestações populares que também merecem atenção.

JC – Alguns eventos e festas no Nordeste já têm essa preocupação de trabalhar apenas com grupo locais.

JVB – Mas também existem muitas distorções. Algumas dessas festas direcionam a maior parte dos recursos que coseguiram para os artistas de outras regiões. Festas de São João, por exemplo, poderiam ser a celebração de quadrilhas e bacamarteiros, mas não é bem assim. Esses eventos recebem sustentabilidade mas, na realidade, eles estão virando um verdadeira fonte de cachê de artistas cariocas e baianos. Às vezes a própria festa é organizada por empresas de outras regiões. Num caso desse, não há sentido para o MinC ficar bancando porque, no dia seguinte ao fim do evento, o artista popular volta para casa do mesmo jeito que chegou.

JC – Dá para ser competitivo apenas com a cultura local?

JVB – É preciso tirar proveito da tão falada globalização. É aí que entra o Governo, apoiando iniciativas, a exemplo de o Pernambuco em Concerto, concebido pela África Produções. Uma vez que consegue-se gravar um CD, colocar na internet, divulgar no exterior, automaticamente a procura começa a chegar pelo simples fato de que ninguém no mundo produz maracatu no mundo, (risos); e ninguém mais vai ser capaz de produzir maracatu legítimo além de Pernambuco.

JC – A globalização não pode funcionar de maneira inversa, influência de forma degeneradora para a cultura popular?

JVB – Sim, mas até nisso existe um lado positivo. Se não houvesse esse perigo iminente, esse alerta, talvez não estivéssemos tão preocupados em fincar uma auto-valorização na cultura regional, como acontece nesse momento.

JC – Existe um projeto para as rádios contribuírem com esse processo?

JVB – Existe. Apesar de a música brasileira ocupar 75 % do mercado nacional, mesmo sem nenhuma lei protecionista ou algum subsídio de negócio, as rádios veiculam mesmo é o pacote das gravadoras majors. E nem sempre a música brasileira de qualidade é veiculada nas rádios. Isso porque a média dos programadores que trabalham em rádios são pessoas que sequer tiveram um curso de formação sobre a história da música popular brasileira. Se fizer um enquete, 90% não sabe nem quem foi Noel Rosa. Na verdade, ele nem tem tanta alternativa. Recebe o pacote das gravadores e repassa para o ouvinte.

JC – O que está sendo feito para mudar isso?

JVB – A gente fica sem saber o que nasceu primeiro: se a programação, a partir do gosto do ouvinte; ou o gosto do ouvinte, a partir da programação. Por isso, fizemos um programa piloto em Minas Gerais, no ano passado, derivado de um seminário de programadores de rádio debatendo esse assunto. O Toca Pernambuco, que pretendemos promover em parceria com agentes locais, vai seguir a mesma linha. A idéia é dar a programadores, diretores de rádios, produtores e empresários de grupos musicais a oportunidade de conhecer, aqui no Recife, historiadores e críticos da música popular. Ao mesmo tempo, vamos convidar artistas, locais e de outras regiões, para promover uma espécie de feira de seus produtos. Eles vão poder falar diretamente aos programadores sobre suas obras. É um trabalho de sensibilização.

JC – Quando isso vai acontecer?

JVB – Em janeiro avaliamos o projeto. Se o orçamento não atrasar, o projeto acontece logo após o carnaval. Inclusive já estamos negociando uma parceria com o Instituto Itaú Cultural para produzir uma série sobre a história da música popular brasileira que vai ter o formato de um programa de rádio. Essa série não é cronológica e sim por temas. A partir de temas históricos e nacionais, o locutor vai amarrando a história com músicas. A série vai ter 10 CDs. Estamos hoje nas negociações finais, como pagamento de direitos autorias e outros detalhes. A rádio não vai ter ônus porque a série vai ser doada para as rádios. Dessa forma, o programador não pode dizer que não tem alternativa de programação e que não conhece a verdadeira música brasileira.

JC – E se ele não veicular por, digamos, forças maiores?

JVB – Aí entramos no campo da legislação. Mas é um erro achar que consertamos as coisas pela lei. O que é preciso é uma adesão natural, uma simpatia, uma mobilização de quem opera rádio. Caso isso não aconteça, não há lei que o faça. Tudo isso é uma gota num oceano, mas se você não acredita nessa gota, não tem oceano. (Luiz Joaquim, JC)

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