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26/12/2000 Forró para levantar poeira Como ocorreu ao samba de raiz, a música nordestina - em boa parte impulsionada pelo rótulo forró - fecha um ano de reabilitação de seus fundamentos. Seis discos novos atestam, de modos diferentes, a vitalidade do setor. Dois grupos do chamado forró universitário, o carioca Forroçacana (no CD de estréia, Vamo que vamo, Atração) e o paulista/paraibano Rastapé (no segundo título, Fale comigo, Abril Music) atualizam o ramo, peneirado no pau de sebo Forró mineiro (Pequizeiro) onde nomes como o ator Jackson Antunes (Coco martelo e Gurutubano), Dedé Paraizo (Calango da lacraia) e o pesquisador e compositor Téo Azevedo (Forrozeiro) pontificam numa fronteira híbrida entre o sertão caipira e a caatinga repentista. O onipresente patriarca do coco Jackson do Pandeiro revive no seguidor Jacinto Silva (Só não dança quem não quer, Manguenitude), que enveredou pela escola quebra-língua da embolada, e na homenagem do cultor Jarbas Mariz nas regravações de Forró do gogó ao mocotó (Atração). Capítulo à parte é o raro Cantigas de Lampeão (InterCD). Gravado em 1957 pelo ex-cangaceiro Volta Seca, este disco pula direto do 10 polegadas (LPs menores com apenas oito faixas que reinaram na fase de transição do single de 78 rotações) para a era digital conservando a atmosfera da música nordestina colhida na fonte agreste. E põe mandacaru nisso. Com locuções introdutórias do radialista Paulo Roberto (no estilo empostado que se usava na época), Antonio dos Santos, o Volta Seca, que amargou 20 anos de cana na Bahia após o fim do cangaço, desfia composições do bando, embora todas as faixas venham assinadas por ele, inclusive as megaclássicas Mulher rendeira (''tu me ensina a fazê renda/ que eu te ensino a namorá'') e Acorda Maria Bonita (''levanta e vem fazê o café/ que o dia já vem raiando e a polícia já está de pé''). Como era de se esperar, ele não é propriamente um cantor - e o maestro especialista Guio de Moraes (autor de No Ceará não tem disso não) compensou a voz quebrada do intérprete emoldurando cada faixa com orquestração e coro, mas sem grandiloqüência. O exíguo repertório de oito músicas entre xotes, toadas, baiões e xaxados (o ritmo que teria nascido da dança marcada pelas alpercatas dos integrantes do bando) traz pérolas como A laranjeira onde o amor desprezado é comparado ao bacutinho, a flor que fenece e morre sem dar flores. Ou Ia pra missa, a gíria cangaceira para a convocação à batalha, além das líricas Se eu soubesse e Escuta donzela. Perito no fraseado rítmico, Jacinto Silva (alvo de um disco homenagem de Silvério Pessoa, ex-Cascabulho) leva adiante com assinatura própria o estilo suingado de Jackson do Pandeiro. Tanto no duplo sentido em Fumando mais Tonha (''vou fumar mais Tonha'', no refrão) quanto no revirado percussivo de Coco trocado. E Jacinto não fica na seara do coco. Adapta um refrão de ciranda (já utilizado por Edu Lobo em Cirandeiro, em meados dos 60) em Chora bananeira e estiliza um Aboio de vaqueiro. Com participações especiais dos mudernos Chico César, Vange Milliet, Mestre Ambrósio, Marcos Suzano, Toninho Ferraguti e Bocato, o compositor Jarbas Mariz revisa alguns petardos do repertório de Jackson como Chiclete com banana, Forró em Caruarú, Sebastiana, A mulher do Aníbal e Como tem Zé na Paraíba. Não são releituras literais. Ele adiciona sopros reforçando o balanço original e ainda se dá ao luxo de transformar em cantoria/desafio a responsória Cantiga do sapo, gravada entre outros por Gilberto Gil. Situados na maioria no norte de Minas os artistas agrupados no Forró mineiro interpretando composições diversificadas de Téo Azevedo não escondem a miscigenação. ''Segura forró, avexe o lundu, castiga batuque, calango e tiú'', costura, sanfonado, Dedé Paraízo em Ritmos do Brasil. Ainda se nota marcas de intérpretes mais conhecidos como Daniela Mercury em Leila Brito (No compasso do forró) e Amelinha em Fatel (Amor de forró), mas causa estranhamento o forró em terças da dupla Raimundo e Edmundo (Abelha tubi) e o delicioso instrumental Forró de rabeca pelo grupo Marimbondo Chapéu. Formado em junho de 1999 por Jorge do Acordeon e os filhos Tico (guitarra, violão, cavaquinho) e Jorge Filho (percussão) , todos paraibanos, e os paulistas Marquinhos (zabumba) e Jair (triângulo, pandeiro, percussão), o Rastapé singra material inédito (várias faixas são assinadas por Jorge Filho) oscilando entre o balanceio que turbina o nome do grupo (Embalo do forró, O chineleiro, Vamo xamegá, mais o instrumental Redemoinho/Ventania) e o predomínio de dolentes xotes como Colo de menina, Namoro e Fale comigo. São letras simples, músicas funcionais todas dentro dos cânones, incluindo achados como o de Beijo roubado: ''beijo bom é o roubado/ sem a cobertura da razão''. Na mesma trilha autoral de revalorização do básico (ouçam Suor de pele fina, que abre o CD), o sexteto Forroçacana, fundado no Rio em 1997, vai além em matéria de combinação de timbres. Uma rabeca orientaliza o xote Encaixe perfeito e o Forró horizontal e um bandolim reborda Telepatia no salão. Formado por Duani (zabumbatera), Mará (sanfona), Chris (triângulo, percussões), Marquinhos Moletta (rabeca, bandolim, percussões), Cachaça (guitarra, cavaquinho) e Claudio Ribeiro (baixo), o grupo injeta dissonância no contra-ritmo (no ótimo coco O cabra) e relê como xote Menina mulher da pele preta do onisciente Jorge Benjor, faixa bônus do CD. O forró (e suas adjacências nordestinas) revitalizam-se nessas (in)fusões. (Tárik de Souza, JB) |
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