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26/12/2000 Saudades de Recife Minha amiga Elise me presenteou
com um CD de músicas do Carnaval de Recife e Olinda. Ela é uma professora que correu
mundo fugindo de más lembranças, foi parar na Finlândia, voltou para Olinda onde trata
de crianças autistas com aquarelas que pinta divinamente em "paintbrush". Uma
dessas aquarelas, enviada para minhas filhas, é o papel de parede de meu notebook. E confirmou o que se diz: é questão de tempo para que a música pernambucana se consolide como a mais importante do Brasil. Nem se fale dos gênios de Antônio Nóbrega e Túlio Madureira, no folclore, nem do brilho de Alceu Valença e Geraldo Azevedo, na MPB, e, no pop moderno, do pessoal do mangue beat. O CD da Elise é como os pais e os pais dos pais desse pessoal e permite uma análise do seu DNA e da riqueza que brota e sempre brotará dos canaviais pernambucanos e do casario antigo de Recife e Olinda, celebrados por Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, por Joaquim Cardoso, sacrificado pela tragédia da Gameleira, que ele não suportou, por Ariano Suassuna, que há 70 anos carrega a sua tragédia, e pelo poeta azul Carlos Penna Filho, cujos versos me comovem toda vez, e que morreu antes de se fazer. As cirandas, maracatus, o frevo, os ranchos mais bonitos do Brasil, as Lias e a Dora que passou pela Bahia de Caymmi, de onde fui buscar o nome de minha caçula, tudo isso compõe um todo -multifacetado, mas "todo imbatível". Cresci ouvindo os frevos e cirandas de Capiba e Nelson Ferreira, os frevos acariocados e saudosos de Antônio Maria e Fernando Lobo, pernambucanos exilados. Na música instrumental, conheci o som do maestro Duda, o bandolim de Rossini Ferreira e tornei-me devoto do santo maior, Canhoto da Paraíba. Na fase áurea da MPB dos festivais, Edu Lobo, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Caetano, todos passaram pelo frevo pulado ou frevo rancho. A multiplicidade de aspectos da música pernambucana não tem paralelo no Brasil. O frevo criou uma escola de arranjos sofisticados e, ao mesmo tempo, profundamente populares. A escola de ritmos supera a da nação negra da Bahia. No campo instrumental, seus chorões desenvolveram uma escola só superada pela do Rio. E foi Pernambuco quem moldou a parte mais característica da alma brasileira, a saudade. Ninguém cantou a saudade como o Recife. Ainda na infância, quando ouvia "Evocação Número
1", de Nelson Ferreira ("Felinto, Pedro Salgado, Guilherme Fenelon, cadê seus
blocos famosos"), sentia enorme saudades de episódios que não vivi, em terras que
só imaginei. Saudades dos velhos, de tempos nem sempre bons, mas sempre saudosos, depois que a memória do tempo filtra as boas lembranças como quem separa arroz com as mãos. E quando ouvi "A Dor de uma Saudade", de Edgard Moraes ("A dor de uma saudade/ Vive sempre em meu coração/ Ao relembrar alguém que partiu/ Deixando a recordação nunca mais/ Hão de voltar os tempos/ Felizes em que passei em outros carnavais"), de repente me deu uma baita saudade também de mim. Aí lembrei que frevo que é frevo não deixa a sombrinha cair. Assim, entrarei no próximo milênio com poucos momentos para pausas, mas amparado pelo refrão final da música: "Cantar, ó cantar/ É um bem que os céus nos deu/ Se alguma vez nos faz chorar/ Ante revezes nos faz rir também/ Cantar, ó cantar/ Com expressão de uma emoção/ Que nasce da vida em dizer ao coração / Que a vida é uma canção". (Luís Nassif, FSP) |
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