|
|
02/12/2001 A esperança e a vaidade em torno de Celso Furtado FREDERICO VASCONCELOS "A grande esperança em Celso Furtado", que reúne 14 ensaios em homenagem aos 80 anos do autor de "Formação Econômica do Brasil", é um livro oportuno. A coletânea organizada por Luiz Carlos Bresser Pereira e José Marcio Rego retoma esperanças perdidas nas últimas décadas e revolve algumas vaidades feridas. A obra surge no momento de revisão crítica da ortodoxia liberal abraçada pelo governo Fernando Henrique Cardoso, um modelo que inibe a intervenção do Estado como regulador das distorções sociais do mercado. "Foi preciso o desgaste do pensamento único de matriz neoliberal, nos últimos anos, para que voltassem à discussão os argumentos e a visão histórica de Furtado", diz Vera Alves Cepêda, cientista social, autora de dissertação sobre o pensamento político do economista paraibano. É instigante que essa homenagem tenha sido idealizada por Bresser, executor da reforma administrativa que ajudou a reduzir o Estado no governo tucano, cuja política econômica o homenageado considera equivocada. "Em nenhum momento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e o que esperávamos ser", diz Furtado. No livro, Bresser entende que essa crítica "não atinge apenas os governos, mas mais amplamente as elites brasileiras". Em seu ensaio, Bresser destaca a independência de pensamento, o método e a paixão na obra de Furtado, o cientista social brasileiro mais influente de todo o século, o primeiro a afirmar que desenvolvimento e subdesenvolvimento fazem parte do mesmo processo de expansão da economia capitalista internacional. Ignacy Sachs resume a obra teórica que Furtado defenderia como técnico, estadista e cidadão: "A construção de um projeto nacional que permita transformar por dentro o país por meio de estratégias nacionais de desenvolvimento, superando as desigualdades sociais e regionais". Bresser diz que não se preocupou em desfazer preconceitos contra Furtado, "autor controverso, oscilando de uma posição intelectual quase hegemônica a uma recusa formal de suas teses", na definição de Alves Cepêda. "Nem sempre estou de acordo com ele (...) mas jamais deixo de admirá-lo", diz Bresser. Em 1997, ao tratar de obra que reuniu conversas com 13 pesos pesados da economia brasileira, o economista Guido Mantega já dizia que as vaidades pessoais e as diferenças ideológicas dificultam a análise objetiva e distanciada. A vaidade dos economistas aflora com mais nitidez no ensaio de José Marcio Rego, quando trata da "angústia da influência" na obra de Furtado (cita a "origem dos conhecimentos históricos" de Furtado, segundo Tamás Szmreczányi, "tão parcialmente indicada pelas poucas fontes nacionais e portuguesas" em notas de rodapé no livro clássico "Formação Econômica do Brasil"). Rego também reproduz antigo choque de egos no comentário do sociólogo Francisco de Oliveira sobre a disputa entre Furtado e Ignácio Rangel, nos anos cinquenta, pela hegemonia do pensamento da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina): "Os nossos dois grandes pais da pátria eram dois poços de vaidade" (...). "Eles achavam que tinham inventado a roda". Divergências ideológicas entre economistas são comuns. A fogueira de vaidades não fica restrita aos livros ou à universidade (o "imortal" Celso Furtado fez oposição à eleição de Roberto Campos na Academia Brasileira de Letras, e ninguém imagina que as tertúlias da academia possam influir no debate sobre um projeto nacional de desenvolvimento). Um traço da personalidade do homenageado é resgatado pelo testemunho de Francisco de Oliveira, seu companheiro na Sudene, ao relatar como Furtado enfrentou o general Justino Alves Bastos, comandante do 4º Exército, em Recife, em 1964. "Eu sou um servidor federal, general. O Exército assuma a responsabilidade pelo que fez, destituindo um governo legitimamente eleito. Não me peça para coonestar nem cooperar com isto, pois repugna aos meus princípios republicanos", disse Furtado. O pernambucano Clóvis Cavalcanti rememora os tempos da Sudene -autarquia criada por Furtado e extinta por FHC- e registra como o homenageado "não se equivocou ao prognosticar a natureza persistente, renitente, do subdesenvolvimento". O contraste entre o país almejado por Furtado e o
atual quadro de exclusão social e desigualdades agravadas sugere que "a grande
esperança", que dá nome ao livro, seja apenas uma referência a título de
homenagem. A GRANDE ESPERANÇA EM CELSO FURTADO Com relação a este tema, veja também:
|
|