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04/12/2001

Arrasta-pé na contramão da moda

Moraes Moreira

João Pimentel

   Quando der início ao show que faz neste sábado na Feira de São Cristóvão, em cima de um trio elétrico, Moraes Moreira estará realizando dois grandes sonhos. O primeiro, tocar para a multidão de nordestinos que se espalha em torno do pavilhão matando um pouco da saudade da terra natal. O outro, animar este pedaço do Nordeste no Rio que passou a ser reduto também de jovens sedentos por um bom arrasta-pé embalado por um sanfoneiro arretado.
Moraes, que desde os Novos Baianos usa elementos de raiz do forró, do xote, do samba e do maracatu em suas músicas, diz que o interesse pelo forró jamais será um modismo por ser legítimo.

   — Este interesse se estabeleceu pelo prazer da dança, pela própria riqueza cultural e, principalmente, em função de uma música rica, com letras fortes, brasileira. O mais importante é que esta relação da juventude com a música nordestina se impôs pela essência e não por uma lavagem cerebral de rádios e gravadoras. Assim é mais forte — comemora Moraes.

   Para o cantor, aconteceu com o forró um processo inverso ao mercado. Ou seja, surgiu um interesse pela dança e pela música do forró e, a partir daí, tentaram criar um modismo com subprodutos que jamais poderiam ser considerados seguidores ou sequer admiradores da fina linhagem de Luiz Gonzaga, Marinês e Jackson do Pandeiro. Mas Moraes já vê bons frutos na nova geração do forró:

   — Confundiram tudo. Os jovens querem um bom pé-de-serra e abominam estes grupos tipo não-se-o-quê-com-leite, que na realidade considero subprodutos do axé. Mas grupos como o Forróçacana me lembram os Novos Baianos, buscando ir a fundo, ser músico. Isso é um bom sinal.

   No show de sábado, Moraes vai cantar músicas do seu último disco, “Bahião com H”, e relembrar grandes sucessos como “Pombo correio”, “Preta pretinha”, “Festa do interior”, “Bloco do prazer” e “Sintonia”, além de prestar uma homenagem a Gonzagão, a Jackson e a todos os nordestinos que vieram tentar a vida no Rio de Janeiro com a bela “Último pau-de-arara”.

   — Vai ser um show parecido com o que eu fiz no Rock in Rio 3. Mas tem algumas surpresas, como uma participação do Sivuca. No lugar do Davi (filho de Moraes e guitarrista de Caetano Veloso) , que não poderá ir, tocará o Armandinho — explica Moraes, que entre as novidades vai apresentar um versão para “Último desejo”, de Noel Rosa, em ritmo de xote.

   Moraes Moreira, que tem uma relação afetiva com a feira — gravou lá o clipe da música “Nordeste cosmopolita” — vai repetir a dose do Rock in Rio, quando chegou à Cidade do Rock em cima de um trio elétrico.

   — Considero o trio uma manifestação cultural tipicamente nordestina. Tenho muita intimidade com este espaço criado por Dodô e Osmar. É lá que me sinto à vontade para cantar — diz Moraes.

   O trio, no entanto, não vai poder circular pela área, como planejava a produção, já que um grande número de pessoas freqüenta a feira e as pistas que circundam o Campo de São Cristóvão não são largas o suficiente.

   — Mas o clima vai ser o de um grande carnaval. Tem tudo para ser uma festa inesquecível — acredita o cantor.

   O show, que começa às 21h, será aberto por um trio nordestino típico e por repentistas que entoarão um cordel em homenagem a Moraes. (© O
Globo)


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