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08/12/2001

Um pandeiro que mudou a música brasileira

Jackson e Almira Castilho: parceiros de cama, mesa e palco

MAURO DIAS

   Ninguém "dividia" como Jackson do Pandeiro. "Dividir" é balançar, suingar, quebrar para fazer requebrar, criar síncopes, inverter tempos fortes, mexer na estrutura da frase musical para fazer com que o ouvinte se mexa; dividir é chamar o ritmo, dominá-lo, desdobrá-lo, redescobri-lo, reconduzi-lo, recriá-lo.

   Porque ninguém dividia como Jackson do Pandeiro, ele era chamado de rei da divisão, ou rei do ritmo. Esta última expressão foi a escolhida por Fernando Moura e Antônio Vicente para dar título à biografia do cantor, compositor, pandeirista, ator eventual paraibano nascido João Gomes Filho, depois Zé Jack, Jack do Pandeiro, por fim Jackson do Pandeiro.

   Jackson do Pandeiro: O Rei do Ritmo não é a primeira biografia de Jackson. Existe outra, publicada pela Funarte, nos anos 70, menos detalhada. Esta nova é um estudo exaustivo, que tomou oito anos de trabalho dos autores. É mais um título da Coleção Todos os Cantos, da Editora 34 (412 páginas, R$ 32,00). O co-autor Fernando Moura orientou a pesquisa sobre Jackson para o documentário sobre o músico que Marcus Vilar começa a rodar no início do ano que vem (leia abaixo).

   Jackson brilhou dos anos 40 aos 60. Foi atropelado pelos movimentos musicais dessa década - a intimista bossa nova, a eletrificada jovem guarda. Entrou em decadência. Mas é, para a música oriunda do Nordeste, figura de importância equivalente à de Luís Gonzaga. Foi influência definitiva na música pós-tropicalista de Gilberto Gil, a partir do final dos anos 60; é fundamental para Alceu Valença, que surgiu nos anos 70, para Lenine, que despontou no fim dos anos 80.

   É referência imediata para o mangue beat de Chico Science e para a segunda geração do movimento que floresceu em Pernambuco em meados da década passada. O grupo Mestre Ambrósio cita Jackson em toda a obra. O conjunto Cascabulho dedicou seu até agora único CD a Jackson do Pandeiro; do Cascabulho, para carreira-solo, saiu o cantor Silvério Pessoa, que acaba de lançar o dico O Povo dos Canaviais, em que homenageia Jacinto Silva, seguidor de Jackson.

   Assim, de forma direta, Jackson do Pandeiro está presente na música brasileira contemporânea. Alguns de seus sucessos - músicas compostas por ele, ou por ele transformadas em sucesso - fazem parte da memória coletiva da MPB: Forró em Limoeiro, Sebastiana, O Canto da Ema, Chiclete com Banana.

   José Gomes Filho nasceu numa casa descrita como paupérrima construída nos limites do Engenho Terra, em Alagoa Grande, brejo da Paraíba, no dia 31 de agosto de 1919. Sua mãe era a coqueira - cantadora de coco - Flora Maria da Conceição, que usava como nome artístico Flora Mourão, muito requisitada nos arredores. O pai era o oleiro José Gomes.

   A infância foi passada entre Alagoa Grande e Campina Grande, para onde mãe e filho pequeno se mudaram, com a morte do oleiro. O menino herdou a aptidão musical da mãe. Ela foi o seu grande ídolo. Os biógrafos contam que Jackson carregava no funda da mala, sempre que teve de viajar, até o último show que fez, o vestido branco surrado de Flora Mourão.

   Era um vestido cheio de babados, que ela usava nas apresentações (o pai não participava com ela, mas não a impedia de cantar - afinal, aquilo ajudava no orçamento). Jackson acompanhava a mãe. Antes de fazer 7 anos, começou a tocar zabumba. O zabumbeiro, João Feitosa, desaparecia, vez por outra. O menino o substituía.

   Quando tinha 10 anos, já era integrante fixo da banda. Ganhava um dinheirinho, ia ao cinema. Gostava especialmente do ator canastrão de bangue-bangues Jack Perrin. Adotaria o Jack como nome artístico, depois modificado para Jackson.

   Durante o dia, era ajudante de padeiro. À noite, tocava nos cabarés. Na metade dos anos 30, já era pandeirista respeitado. Era também mulherengo, adorava a noite e as mulheres - e assim durante toda a vida. Em Campina Grande, começou vida profissional no Cassino Eldorado. De lá foi para a capital, João Pessoa, em 1945. Conseguiu emprego na Rádio Tabajara; de lá foi para o Recife - para a rádio Jornal do Commercio, rota de migração cumprida por outros músicos nordestinos nascidos no interior, como Sivuca ou Hermeto Paschoal.

   Virou Jackson do Pandeiro na rádio pernambucana e, com o novo nome, começaria a ganhar o Brasil. Mas só em disco. Havia formado, em 1953, uma dupla, com o compositor Rosil Cavalcanti. Lançaram, naquele ano, o 78 rotações que trazia Sebastiana, de Rosil. A música fez sucesso não só no Recife. Os grandes animadores do rádio, no Rio, disputavam aquele artista sem cara - Jackson tinha medo de avião e não queria ir para o Rio de jeito nenhum. Sebastiana foi uma das músicas de maior sucesso dos anos 60 - mas quem era o tal do Jackson do Pandeiro? Um dia ele foi.

   Essa é a história destrinchada em Jackson do Pandeiro: O Rei do Ritmo, que cuida detalhadamente da relação com a mulher e parceira de palco Almira Castilho, professora, atriz e rumbeira, e segue a carreira do músico até sua morte - quase no esquecimento - em Brasília, em setembro de 1982. O livro tem o mérito de examinar, em paralelo, o desenvolvimento do Nordeste, no século passado, e investigar a formação dos gêneros musicais surgidos lá, que Jackson ajudou a tornar nacionais. (© O Estado de S. Paulo)


Cinema homenageia o grande artista popular

O diretor paraibano Marcus Vilar pretende começar em janeiro as filmagens do documentário sobre Jackson do Pandeiro

LUIZ ZANIN ORICCHIO

   O último show de Jackson do Pandeiro aconteceu em Brasília. No aeroporto ele passou mal e foi internado num hospital da cidade. Entrou em coma e acordou dias depois. Perguntou à mulher se o Zico tinha marcado algum gol no jogo do Brasil. Horas depois morreu. E se foi depois de saber que o Brasil tinha sido desclassificado pela Itália naquela fatídica partida contra a Itália no estádio de Sarrià. Não, Zico não tinha marcado, mas Paolo Rossi fizera três. Deve começar desse jeito, pelo fim da vida do artista, o documentário que o diretor Marcus Vilar vai realizar sobre o cantor e compositor paraibano, que era flamenguista fanático e a tal ponto que se lembra de Zico na hora da morte.

   Vilar tem como consultor de pesquisa Fernando Moura, co-autor, com Antonio Vicente, da biografia Jackson do Pandeiro: O Rei do Ritmo. Faz questão de dizer que o filme não será uma versão da biografia na tela. Mas é claro, ter um dos seus autores, um especialista em Jackson na equipe, será um trunfo e tanto. O filme será dirigido por Marcus Vilar e Cacá Teixeira, e terá roteiro final assinado por Bráulio Tavares, parceiro do compositor Lenine. A idéia é captar as imagens em câmera mini-DV e transferi-las depois para película em 35 mm. A técnica tem sido adotada com freqüência crescente e dá grande liberdade ao realizador. Pode-se gravar à vontade, sem o remorso de estar gastando negativo fotográfico à toa. Depois, é editar o material e transferi-lo para o suporte final. A operação chama-se kinescopia. Detalhes técnicos.

   No caso, mais importante é o personagem. E este, segundo Vilar, andava esquecido, o que, em se tratando de Jackson do Pandeiro, não chega a ser novidade. Ele foi sucesso nos anos 50 e depois entrou em relativo declínio, até ser recuperado por Gilberto Gil, que gravou três de suas músicas no mitológico LP Expresso 2222. Livro e filme pretendem tirar esse importante artista popular de um segundo ostracismo - que poderia ser o definitivo.

   Para esse processo de recuperação, Vilar pretende trabalhar com muito material de arquivo, como cenas de filmes nos quais Jackson do Pandeiro trabalhou, como Cala a Boca, Etelvina e Minha Sogra É da Polícia. No total, Jackson participou de nove longas-metragens naquela época áurea em que esse tipo de cinema dialogava realmente com o público, valendo-se de tramas ingênuas e engraçadas, protagonizadas por artistas vindos do rádio. Além disso, há as imagens da TV. Entrevistas que Jackson concedeu à Globo e também um excelente programa Ensaio, da série dirigida na Cultura por Fernando Faro.

   Por que Jackson? Porque o diretor é de Campina Grande, na Paraíba, cresceu e virou adulto ouvindo músicas como Sebastiana, Forró em Limoeiro, Chiclete com Banana, 1 a 1, Mulher do Aníbal, O Canto da Ema, Casaca de Couro e tantas outras. "Só que hoje em dia ninguém mais sabe quem é Jackson do Pandeiro", diz Marcus Vilar. E ataca: "Promovem um tipo de forró descaracterizado, um forró de plástico, que nada tem a ver com o original, com o forró de raiz."

   O cineasta pretende acompanhar a sinuosa trajetória de Jackson, que como tantos outros do Nordeste foi um artista itinerante. Nasceu em Alagoa Grande, foi para Campina Grande com 13 anos, e em seguida para a capital, João Pessoa. Depois saiu da Paraíba rumo ao Recife, onde estourou com Sebastiana. Em seguida, o caminho obrigatório, o Rio. Esse road movie em tom de música poderá ser recuperado parcialmente com imagens e entrevistas, como as que Vilar pretende fazer com irmãos de Jackson e suas ex-mulheres. Mas não tem intenção de escalar nenhum ator para representar o artista morto. No máximo, pode sugerir sua presença em cenas de sua vida recriadas no presente.

   Marcus Vilar é diretor de curtas-metragens de sucesso como A Árvore da Miséria e A Canga, enraizados no Nordeste, atentos à dureza da região mas também à sua poética. "Não tinha como objetivo de vida fazer um longa-metragem, mas então surgiu a riqueza do material relacionado a Jackson e o formato longo se impôs", diz. Vilar esteve no Festival de Brasília e acompanhou com interesse o documentário Samba Riachão, de Jorge Alfredo, sobre o cantor e compositor baiano Riachão, e que acabou vencendo o certame.

   "Os dois chegaram a se apresentar juntos e Riachão pode me contar muita coisa de Jackson", diz.

   Ele pretende começar os trabalhos do filme no início do ano e quer tê-lo pronto até o fim de 2002. Afinal, não pode perder a efeméride que marca os 20 anos de desaparecimento desse grande artista popular. (© O Estado de S. Paulo)


Com relação a este tema, veja também:

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