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08/12/2001

Gonzaguinha: agitador do conformismo nacional

   Gonzaguinha volta em coletânea do tempo dos festivais e em disco de Emílio Santiago com sambas da fase mais madura

TÁRIK DE SOUZA

Crítica DISCO

   Magro, de malares encovados, a barbicha em riste, Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha (1945-1991), foi uma das assombrações da ditadura militar. Chegou a ter dezenas de músicas censuradas. Algumas conseguiu fazer passar mudando os títulos ou promovendo pequenas alterações que não violentassem o espírito original. Outras dormiram nas gavetas até a abertura lenta, segura e gradual. Mas só quando ele fez explodir o lado romântico de seu repertório alcançou sucesso de massa, quase sempre nas vozes das divas. Seu denso e obscuro início de carreira, que não prenunciava a ascensão posterior, pode ser reavaliado agora com a reunião no CD Luiz Gonzaga Jr. - Gonzaguinha (Universal) dos primeiros compactos de sua trajetória iniciada nos festivais universitários, em 1967.

   Reagrupados pelo pesquisador Marcelo Fróes, eles formam um painel contrastante com o recém-lançado Um sorriso nos lábios, releitura do cantor Emílio Santiago de 16 composições do mesmo autor já de caligrafia pessoal consolidada. Com a autoridade de quem grava Gonzaguinha desde 1976 (No balanço do trem), Emílio esbanja seu amplo estojo de recursos vocais na exploração das diversas faces do enfocado, incluindo o lado do protesto e das farpas que lhe valeram o apelido de cantor rancor. Criador temático, obcecado por alguns assuntos, ele também permite a Emílio puxar pelo lado do sambista nascido no morro de São Carlos, apesar de filho (adotivo, segundo as biografias) do rei do baião Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989).

   Lirismo - A maior parte das faixas é de sambas que não se envergonham do gênero, mas nunca foram contabilizados para incluir o autor numa galeria de bambas, nem mesmo entre os bissextos. Isso apesar dos arrasta-povo E vamos à luta, O que é, o que é, Com a perna no mundo e mais Deixa disso e vamos Nelson e O homem falou, um tipo de intervenção no formato do samba-enredo que notabilizaria a dupla João Bosco e Aldir Blanc. Há ainda sambas mais lentos, como o climático Palavras (''você só fala, promete e nada faz'') que serve tanto para o embate amoroso quanto para a rusga política. Ou Comportamento geral (''você deve lutar pela xepa da feira/ e dizer que está recompensado'') e Um sorriso nos lábios (''mas sonha que passa/ ou toma cachaça/ agüenta firme, irmão''), ambos protestos de ironia abrasiva, fustigando o conformismo nacional.

   Dosando com maestria o timbre maduro sem afetações, Emílio também atravessa para o lado do lirismo de Gonzaguinha. Nos arrebatamentos de Não dá mais pra segurar (explode coração), Sangrando, Grito de alerta, no erotismo de Avassaladora (''e o macho desmonta/ no grito do gozo''), no feminismo de Ser, fazer e acontecer e modulações da rara toada Espere por mim morena, com direito a sanfona na única incursão do lado nordestino de seu sotaque autoral.

   A emissão gutural algo enrouquecida e tortuosa de Gonzaguinha e o estilo denso que evoca o Milton Nascimento dos cantochões do início da carreira entram na coletânea de compactos. Ela inclui uma única faixa com outro intérprete, Jorge Nery, que registrou em disco a anti-retirante Pobreza por pobreza (''sou pobre em qualquer lugar''), incursão inaugural do estudante de economia da Universidade Candido Mendes no I Festival Universitário da Música Brasileira, da extinta TV-Tupi.

   Letras dialéticas - Gonzaguinha ainda integraria outro núcleo do setor, o MAU (Movimento Artístico Universitário) acantonado num bunker da Tijuca de onde sairiam Ivan Lins, Aldir Blanc e Cesar Costa Filho, entre outros. Estrearia em disco no registro ao vivo (entrecortado de palmas nas passagens mais escarpadas) nos serpenteios de O trem, de setembro de 1969, que trazia no subtítulo vagões em penca: ''Você se lembra daquela nega maluca que desfilou nua pelas ruas de Madureira?''.

   Outra composição em espirais, Moleque, acabaria como um título de nobreza marginal ostentado com certo orgulho. Letras dialéticas recobertas por tinturas tropicalistas (Africasiamérica, Um abraço terno em você, viu mãe), algum eco da então vigente toada moderna (Por um segundo), instrumental dissonante (Plano sensacional) e zoeira vanguardista (Eu quero), Gonzaguinha parecia mais um candidato a maldito no caldeirão fervente da MPB de passagem dos 60 para os 70. Trilhou outros trilhos mas não abdicou do estranhamento nem da dissidência. (© Jornal do Brasil)


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