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13/12/2001 Caymmi - Festa de família PEDRO ALEXANDRE SANCHES O velho artista nunca aprendeu a nadar, acha que ninguém (exceto João Gilberto) canta tão bem suas músicas quanto ele próprio, andou bebendo demais nos anos 60 e ficou sete anos sem falar com a filha, porque ela, também nos 60, resolveu abandonar o marido. O homem é Dorival Caymmi, autor de já míticas canções praieiras baianas, e essas histórias estão na gigantesca biografia "O Mar e o Tempo", que chega agora às livrarias. Vistas de repente, as afirmações acima até parecem tiradas de uma biografia não-autorizada, daquelas sedentas pelo lado oculto do personagem-alvo. Mas, não, a autora deste livro é Stella Caymmi, 39, neta apaixonada do alvo e filha da também cantora Nana, aquela com quem o pai ficou de mal por sete anos. Stella enfrentou lances menos alegres da vida de Dorival, embora não abdicasse da afetividade em nenhuma de suas passagens. Nos três anos de confecção do projeto, teve apoio amplo e irrestrito do avô, plenamente lúcido aos 87 anos (leia entrevista inédita com Caymmi ao lado). "O livro é uma parceria minha com vovô. Ele não escreveu, mas participou de tudo, reviu o texto, lendo as primeiras cem páginas e deixando eu ler outras partes para ele. Não corrigiu quase nada, está orgulhosíssimo", afirma a autora. Ela fala sobre a relação ambígua de ser a um tempo biógrafa e neta: "A proximidade intimida, mas também facilita. Facilita o acesso, até porque na família não há assuntos proibidos. Desde criança ouço vovó [Stella Maris, 79 anos" falar das "putas internacionais" que meu avô comia. Ela própria sempre foi muito desbocada". Mesmo se esteve intimidada por episódios delicados, Stella diz que nunca os evitou, e adota o estilo Caymmi ao brincar com eles: "Minha família se divide entre os que gostam de bebida destilada e os que gostam de fermentada. Minha mãe gosta das duas". Continua, explicando a sinceridade: "Em nossa família não há a hipocrisia do falso espanto, comum em famílias mais pudicas, que escondem as coisas debaixo do tapete. Me divirto com as histórias do vovô, o que não significa que eu concorde com todas. Optei por um tom bem-humorado. Não deixei de falar das coisas, mas não fiz delas um bolero". Sobre a preguiça artística que tem sido sempre superposta como rótulo sobre a produção do avô -ela listou 120 canções feitas ao longo de quase oito décadas, 62 das quais produzidas até 1947-, Stella ataca: "De preguiçoso ele não tem nada. Mas ele curte essa história, não sente como preconceito, não. Acho que aprendeu a usar a preguiça para se defender, para não ser pressionado". Outro dos veios explorados por seu livro é o caso, ímpar, de Caymmi haver passado sem traumas maiores pela bossa nova, que de resto devastou quase toda a dita canção antiga brasileira. "Acho que a bossa nova carregou vovô, porque reconheceu nele elementos de pré-bossa. João Gilberto percebeu isso, tanto que gravou músicas dele no início. Não falo em declínio nessa época, mas houve uma diminuição de trabalho para ele. Na bossa nova, ele passou o bastão." "Depois, os compositores foram se desenraizando, passaram a fazer música do mundo e perderam contato com a origem. Aí a música caiu, eu acho. Quer dizer, ele é quem acha isso, na verdade. Ele se queixava: "Os músicos estão muito intelectuais". Stella fala, por fim, da sugestão do amigo de família Jorge Amado, que ao saber que ela contaria a história de Caymmi solicitou uma "biografia erótica": "Pus uma pimenta, mas o livro não chega a ser sensual. Acho que falo o suficiente para que fique claro que ele dava trabalho. Mas Jorge, na verdade, estava só me sacaneando", ri. (© Folha de S. Paulo) FRASE "Não permitiria jamais que minha mulher, uma artista em plena ascensão, abandonasse a profissão. Ela é que gostou do lar. Tirar Stella Maris do rádio foi uma coisa que não gostei de fazer quando nos casamos." DORIVAL CAYMMI, sobre o encerramento da carreira musical da mulher após o casamento, em 1940 (© Folha de S. Paulo) "Sigo o tempo calmamente, eu gosto da vida" DO ENVIADO AO RIO Folha - Sua biógrafa ser sua neta ajudou ou atrapalhou o
trabalho? Folha - Há algo que você tenha pedido para ela não contar
no livro? Houve alguma censura? Folha - Sua neta trata de sua má reação à separação de
Nana. Dorival Caymmi era um machão? Folha - Antes, sua mulher abandonou a música ao se casar.
Não houve mesmo interferência sua? Folha - É verdade que você nunca aprendeu a nadar? Folha - Você concorda com o mito que há em torno de sua
preguiça? Folha - Segundo o livro, você declarou uma vez que os
intérpretes, exceto João Gilberto, não cantavam bem suas canções. Folha - Qual é sua música predileta, entre todas as que
fez? Folha - Você saberia dizer qual foi seu momento mais
glorioso? Folha - E como você está hoje? CRÍTICA Perigo do parentesco é evitado DO ENVIADO AO RIO Pode-se confiar numa biografia de um homem importantíssimo, vivo e bem velhinho, feita por sua neta? A resposta mais provável seria não, mas Stella Caymmi fugiu com mérito da armadilha em "O Mar e o Tempo". Trata-se de uma biografia saborosíssima, principalmente quando adota tom romanceado, lírico à moda dos versos amorosos do grande artista, oscilante entre o galhofeiro e o descontraído. Isso acontece principalmente no início do livro, e aí a escritora forja metodologia para bem equilibrar naturais afetividade e idolatria pelo avô com o sem-fim de seus feitos e aventuras. O pique se mantém pelas 400 primeiras páginas, que, embora quase nunca analíticas, organizam e clareiam o conhecimento sobre Caymmi. O enredo sobressai pelo nível de desabuso (em se tratando da biografia de um "inquestionável", por isso mesmo política demais), como quando insinua pendengas com Silvio Caldas, o desagrado de Caymmi com a gravação de Gal e Bethânia para "Oração de Mãe Menininha", barracos gerais no seio da musical família Caymmi... O livro só cai em rendimento na parte final, em que, talvez por descrever o segmento vivido de perto pela biógrafa, se torna irritantemente detalhista. É claro que então Caymmi estava só colhendo os frutos da longa e inteiriça história, mas talvez a diminuição de sua participação nos acontecimentos cotidianos da MPB justificasse uma passagem mais breve e menos relatorial pelo período. Mas não é algo que atrapalhe a fluência do
trabalho. A história da música brasileira entre o final dos anos 30 e o novo século
está recontada sob ângulo inédito e privilegiado, o do mais permanente e jovem dos
artistas "antigos". Autora: Stella Caymmi Editora: 34 Quanto: R$ 75 (632 págs.) (© Folha de S. Paulo) Com relação a este tema, veja também: |
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