|
|
18/12/2001 Djavan rebusca origens em "Milagreiro"
Cantor lança disco, dividido entre saudades e entusiasmo pelo novo PEDRO ALEXANDRE SANCHES O alagoano Djavan, 50, parece disposto a rebuscar
suas origens em "Milagreiro", seu 15º álbum, um dos últimos lançamentos da
MPB safra 2001. Continua: "Depois que vim para o Rio, aos 26, fiquei seis anos sem voltar a Alagoas, por falta de dinheiro. É difícil e triste ter que largar suas raízes, muitos não se submetem a isso. No meu caso, ou viria para o Rio ou morreria de desgosto ou falta do que fazer". "Mas há algum tempo tenho tentado estreitar a ligação com meu umbigo. Penso em comprar um terreninho lá e sei que há agora um movimento musical. Acho importante, vou tentar me informar ao máximo para ver em que posso ajudar", diz, confessando que até hoje não se inteirou da tal nova onda alagoana. Diz que o afastamento não tem a ver com a fama violenta de Alagoas (ressaltada com o episódio Fernando Collor), contra a qual se rebela: "A mídia, querendo seus furos, foi injusta com Alagoas. É um Estado gracinha, pacífico. Há a tradição coronelista, é verdade, mas isso acontece no Brasil todo, no Sudeste é o coronelismo com Mercedes". Outro traço de volta à origem alagoana se apresenta na canção-título, interpretada em duo com Cássia Eller, sobre a qual ele discorre: "Tem um arranjo meio espanhol, é a ligação do mouro que existe em mim com o nordestino que sou. Você encontra em todo canto do Nordeste a figura do milagreiro, do santeiro. É uma figura muito presente na minha vida. Em torno imaginei a história dele, abandonado pela mulher no dia em que se casariam por amor". Comenta, então, o fato de estar se aproximando de
canções narrativas, em contraponto com temas simbolistas de letras antigas. Se a impressão, até aqui, é de que "Milagreiro" seja CD regionalista, Djavan se apressa em desfazê-la: "O que mais me moveu na música, desde que sou pequeno, foi a diversificação. Sempre me movi com naturalidade por muitos gêneros. Filho de lavadeira, no segundo Estado mais pobre da federação, ouvia música clássica no rádio. Liszt me encantava sobremaneira, tanto quanto Luiz Gonzaga e, depois, os Beatles". Entra de gaiato na eterna rivalidade bossa nova versus rock'n" roll: "Harmonia foi sempre o que mais me atraiu em música, e a bossa nova veio impetrar um preconceito quanto à harmonia: ou os acordes eram dissonantes ou não prestavam. Os Beatles é que vieram ensinar todo mundo a usar acordes perfeitos. Foram minha salvação, deixei de lado um pouco a bossa". Ninguém diria isso ouvindo "Milagreiro", em que bossa e jazz em muitos momentos submetem pop e rock. "Há momentos que lembram bossa nova e jazz no disco, mas há Beatles também. "Ladeirinha" me pareceu Beatles quando compus. Eu não seria feliz se fosse só jazzista, ou regionalista, se tocasse só funk ou soul. Sou preto, faço música de preto, mas desde que possa fazer todas as outras também", defende-se. Apesar do cuidado exposto em composições, arranjos e material gráfico, "Milagreiro" foi produzido a toque de caixa. Conta Djavan: "Terminei em dois meses e 15 dias,
é o disco mais rápido que já fiz. O tempo para fazer não influi na qualidade. Entrei
em estúdio no dia 16 de setembro, e no dia 18 nasceu minha filha Sofia. Isso influenciou
muito também, você não sabe o quanto é entusiasmante. Compus "Milagreiro" de
madrugada, com Sofia no quarto, cantando em falsete para não acordá-la". Djavan diz que, a partir dos anos 90, modulou uma forma diferente de conceber seus discos, que encontra na rapidez de "Milagreiro" expressão completa. "Antes, eu terminava turnê e ficava cinco meses enfurnado em estúdio, isso é chatíssimo. Estava ficando cada vez mais dolorido, desconfortável", lembra, explicando que hoje entra em estúdio sem nada pré-produzido, nem mesmo as composições. Não é daqueles que guardam composições em baú para momentos de escassez criativa, então? "Até tenho baú, que não uso nem mostro. Peço a Deus todos os dias que me dê a clarividência de pelo menos ter a ilusão de que ainda consigo inventar", conclui. (© Folha de S. Paulo) FRASES "Minha relação com a farinha existe mesmo. Ela minimiza a fome e a miséria no Nordeste, não se tem noção de como a farinha é importante para um nordestino. Estou fazendo esse retorno onde posso. Sempre tive certa inveja dos autores baianos, cearenses e paraibanos, que sempre mantêm vivos os laços com suas origens." "A mídia, querendo seus furos, foi injusta com Alagoas. É um Estado gracinha, pacífico. Há a tradição coronelista, é verdade, mas isso acontece no Brasil todo, no Sudeste é o coronelismo com Mercedes." "Eu ia lançar só em março, mas a Sony pediu para agora, me convenceu, eu aceitei. A pressão me tem sido um estímulo forte." DJAVAN, cantor (© Folha de S. Paulo) CRÍTICA Nostalgia pelo Nordeste rende o melhor do CD DO ENVIADO AO RIO Há muitos Djavans dentro de "Milagreiro". Ele não é artista de fechar o foco num enfoque específico, e disso continuam ficando depositados, juntos, seus trunfos e cacoetes. Entre os trunfos do novo disco, o principal é provavelmente o desejo atávico de mergulhá-lo nas águas quentes e nas areias fofas de Alagoas. Esse naco de "Milagreiro" traz Djavan de volta aos odores de "Alegre Menina" (75), de "Flor de Lis" (76), de "Lambada de Serpente" (80). "Farinha" soa a princípio desarrumada, até pelo louvor trava-língua à "planta da família das euforbiáceas" -mas vence no arranjo bem nordestino, saudosista. A faixa-título, mais adiante, consuma esse momento do CD, não só pelo tema íntimo como pelo duelo vocal travado entre Djavan e Cássia Eller, com ápice no falsete do cantor muitas vezes esganiçado. A faixa exibe também o outro trunfo: o abandono de letras feitas de imagens soltas em prol de historietas, de pequenos comentários sobre a vida. A historieta mais pungente é a de "Milagreiro". No lado dos cacoetes, há, mais que nada, a diluição. Quando cada faixa aponta para uma direção diferente, as de diretrizes mais banais acabam arriscando ofuscar os achados. Climas entre jazzísticos e arrastados ("Om", "Meu", até "Além de Amar") podem diluir o lirismo de composições como "Ladeirinha", por exemplo, que demora várias audições para se fazer notar entre suas vizinhas. Do mesmo modo, brincadeiras com gírias e modismos se espelham entre "Meu" e "Lugar Comum", e cacoetes de uma beliscam trunfos de outra. Entre as duas, espreme-se "Infinitude", a única realmente moderna, seja no arranjo espevitado, seja na letra de sua filha Flávia Virgínia, quase um pedido para que se renovem os modos de pensar e fazer. No balanço, Djavan se exprime como artista que devagarinho vai ficando antigo, mas sem deixar de se entusiasmar pelos tais novos modos. A saudade de Alagoas, belo veio, deve estar rugindo de leve, atocaiada entre o velho e o novo. (PEDRO ALEXANDRE SANCHES) MilagreiroArtista: Djavan Lançamento: Sony Quanto: R$ 25, em média (© Folha de S. Paulo)
Com relação a este tema, veja também: |
|