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18/12/2001

O homem dos livros do sertão

Vingt-Un Rosado, aos 81 anos, é o responsável pela edição dos 3.500 títulos da Coleção Mossoroense, que vem publicado desde 1949 (Foto:Cláudio Lima)

Até agora, são mais de 3.500 títulos publicados. Obra de alguma casa editora com bala na agulha? Necas. Artes de um sertanejo potiguar, apaixonado por livros. Vingt-Un Rosado criou uma faculdade, a biblioteca pública, organizou o museu e toma conta com desvelo de sua menina dos olhos: a Coleção Mossoroense

Eleuda de Carvalho
da Redação

   Conheci um casal pra lá de interessante. Tudo por causa deste caderno sobre a caatinga. A parte que me coube neste sertão cruzaria os caminhos de Mossoró. Liguei para minha comadre Natércia Campos, a escritora, cuja teia de amizades ultrapassa fronteiras. Foi Natércia quem me falou de Vingt-Un Rosado e de sua Coleção Mossoroense, edição particular de livros, em especial títulos sobre o semi-árido. Chegando lá, encontrei o homem e suas grandes paixões.

   Jerônimo Vingt-Un Rosado Maia, 81 anos bem vividos, era um menino ainda quando ouviu uma palestra de Câmara Cascudo, o gênio potiguar. O doutor Cascudinho reforçou no garoto o bem-querer pelos livros, que ele não largaria jamais. Mas foi em meados dos anos 40, quando estudava agronomia em Lavras, Minas Gerais, que Vingt-Un conheceu o amor de sua vida, a mineira criada em São Paulo, a linda América Fernandes, que o marido apaixonado não cansa de gabar. Com justeza. Em casa deles, descobri outros amores de Vingt-Un.

   ''Esta parede tem fósseis do mesozóico, do período cretáceo, de cerca de 90 milhões de anos. Eles são exatamente a prova de que o mar já andou por aqui, ia até perto de Caraúbas. Estes aqui mais de cima são fósseis mais novos, do cenozóico, à época em que os grandes animais estavam desaparecendo e o homem estava chegando na face da Terra''. A parede é da varanda da casa deles, povoada de filhos, netos e bisnetos, e sede da Fundação Vingt-Un Rosado. A paleontologia é outro xodó deste sertanejo cujo pai, amante da língua francesa, resolveu batizar os 21 filhos com numerais do idioma de Baudelaire.

   Um de seus irmãos, Dix-Sept Rosado, foi prefeito de Mossoró e governador do Estado. Morto em acidente, seu nome batiza um lugarejo antes chamado São Sebastião. Foi lá, numa casinha de taipa, que Vingt-Un e América começaram a vida de casados, em 1947. De família ilustre, Vingt-Un poderia dar-se ao luxo da vaidade: fundou a Escola Superior de Agronomia de Mossoró, organizou o museu e a biblioteca pública do município, criou a Coleção Mossoroense. Nada disso leva seu nome, que ele declinou para homenagear o de amigos. Mas seis fósseis de moluscos marinhos ganharam seu sobrenome.

   Vingt-Un reuniu seus estudos e vivências com fósseis em Minhas Memórias da Paleontologia Mossoroense, seis volumes. É autor também dos livros Delmiro Gouveia e Mossoró e Minhas Memórias da Batalha da Cultura. Para saber mais sobre a sua produção editorial, aí vai o endereço da Fundação Vingt-Un Rosado: av. Jorge Coelho de Andrade, 25, bairro Presidente Costa e Silva, Mossoró (RN). CEP: 59.625-400, caixa postal 1033.

O POVO - O senhor fundou a Escola Superior de Agronomia de Mossoró (Esam)...

Vingt-Un Rosado - Primeiro, nada de senhor! Eu estudei em Lavras, Minas Gerais. De lá, eu trouxe esta jóia para Mossoró (América ri). Em 1941, assistindo aula, começava a sonhar: será que um dia serei capaz de fazer uma escola parecida com essa?, e fiquei com aquela mania na cabeça. Fiz algumas tentativas infrutíferas, até que Dix-Huit, presidente do Inda (Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrícola, atual Incra), a primeira vez que veio a Mossoró, eu digo, meu amigo, não está no tempo da gente fazer aquela doidice, uma escola de agronomia aqui? Ele ficou calado. Depois mandou me chamar. - Peça ao prefeito para fazer um decreto criando uma escola de agronomia. Dou todo o dinheiro necessário para o começo. Então, a escola foi criada pelo prefeito com recursos do Inda: 18 de abril de 1967. Depois de dois anos, Dix-Huit prestou o maior serviço à escola, que foi federalizá-la. As escolas de agronomia mais antigas do país, a de Viçosa, Lavras, levaram 30, 40 anos para serem federais. Está aí a Esam, com 800 alunos e dois cursos, de agronomia e veterinária, e um mestrado.

OP - Sendo uma escola de agronomia no Nordeste, sempre houve esta preocupação em trabalhar o ecossistema local, a caatinga?

VUR - Poderia ter mais. A grande figura que passou na escola, nessa área, foi Benedito Vasconcelos Mendes. Benedito começou a criar animais da caatinga para depois repovoar. Depois, ele criou uma coisa maravilhosa, o projeto Terra Seca. O governador da época, apesar de mossoroense, demitiu o Benedito e fechou a Terra Seca, que era uma esperança para o Nordeste. Se você vir o currículo dele, vai ficar assombrada. Para você ter uma idéia da repercussão do seu trabalho, Benedito foi fazer conferência em duas universidades argentinas e foi aplaudido de pé. Isso pra um menino de Sobral, criado em Mossoró... A Esam, como toda universidade pública, atravessa uma crise, mas já está ressuscitando.

OP - Mudando de assunto, fiquei curiosa quanto ao seu nome.

VUR - Vim saber disso depois de velho. Quando meu pai morreu, eu tinha 10 anos, nunca me lembrei de perguntar porque tínhamos estes nomes. Nós fundamos aqui na Esam a Academia Norte-Riograndense de Ciências. E escolhemos como um dos acadêmicos o professor Aleixo Prattes, que é uma sumidade sul-americana em farmácia, professor eminente da Universidade do Rio Grande do Norte, ex-professor da USP. Chamamos esse menino pra ser um dos acadêmicos, e ele é que me ensinou o porquê. Me disse, seu Rosado estudava em livros franceses. De tanto estudar em livro francês, quando ele resolveu povoar o Nordeste, se lembrou dos nomes que estavam nos livros. Quando cheguei de noite em casa, fui ver os livros velhos de seu Rosado e lá encontrei: chapitre un, chapitre deux (capítulo um, capítulo dois)... Agora só tem vivo este velho aqui.

OP - Sua família é potiguar?

VUR - Meu pai era de Pombal, na Paraíba, minha mãe, de Catolé do Rocha, na Paraíba também. Meu avô era português, um homem de certos recursos, mas na seca de 1877 a família ficou na fossa. E meu pai foi trabalhar como caixeiro em Catolé do Rocha, na loja do português Amorim. Um dia chegou uma meninazinha para comprar uma fita pra sua boneca, era minha tia. Começaram um namorinho, depois meu pai foi pro Rio de Janeiro, se formou. Quando voltou, casou com ela. Foram três filhos do primeiro casamento, no segundo 18. Minha tia, já doente, pediu pra meu pai casar com minha mãe, minha mãe não simpatizou muito. Mas se casaram e foram extremamente felizes.

OP - Você foi estudar em Minas, conheceu América, casou e volta ao Mossoró. É um apego à sua terra?

VUR - É um apelo irresistível, está no sangue dos Rosado. Aqui em Mossoró, a tradição é o camarada ficar rico e ir embora. Bom, nós nunca ficamos ricos mas nunca saímos daqui. Quando me casei com América, fomos morar numa casa de taipa em São Sebastião, atual Governador Dix-Sept Rosado. Eu era chefe dos cassacos (trabalhadores braçais) da pedreira de gesso. De manhã, ela geralmente pegava um cavalo, ia dar uma volta, e os cassacos diziam, lá vai a galega do dotô! Fomos felizes lá, e não sabíamos.
América Rosado - Eu sabia!

OP - A prosa muda de novo. Chegando aqui em Mossoró, fomos ao cemitério, conferir se era verdade a devoção que o povo tem ao cangaceiro Jararaca. O que você lembra desse episódio de 1927?

VUR - Eu tinha sete anos, estava fugido com a família, a meia légua daqui. Me lembro ainda quando começou o combate, os tiros. A resistência de Mossoró foi uma coisa muito bonita, o prefeito era um matuto inteligente, de coragem, e organizou a resistência civil. Havia uns gatos-pingados de soldado, a maioria eram civis. Calcule que, na véspera do ataque, estavam dançando, ninguém acreditava que Lampião viesse e ele já estava bem pertim. Eles mataram Colchete no dia do combate, Jararaca e outros foram feridos, mas Jararaca a polícia pegou, dizem que enterraram vivo. O povo não aceita este tipo de coisa. Jararaca era um cangaceiro perverso, tarado, mas matar como mataram o povo não aceita. Jararaca hoje é santo. No dia 2 de novembro, você pode ir lá verificar qual o túmulo mais visitado, é o dele. Eu pergunto, por que não há este culto também a Colchete? Colchete morreu em condições normais, combatendo. O outro foi cruelmente assassinado, sem consulta ao prefeito, à cidade, nada. A polícia pegou, levou pro cemitério de noite, matou. O prefeito só soube depois do fato, a cidade não participou dessa crueldade.

OP - Voltemos a suas paixões. Como você criou a biblioteca pública de Mossoró?

VUR - Em 1948, Dix-Sept estava fazendo seu programa de governo (para a prefeitura). Perguntei, Dix-Sept, por que você não faz uma biblioteca pública? É um troço importante, se eu fosse você, criava. Ele foi eleito, no dia seguinte eu estava na prefeitura, cobrando. Com quatro dias, ele criou a biblioteca pública, que ainda existe, tem o nome de Ney Pontes Duarte, um sargento da Aeronáutica, reformado. Todo dinheirim que pegava, comprava um livro. Você sabe quantos livros ele deu à biblioteca? Quatro mil! Por isso, quando falaram em botar o meu nome, disse, não, tem um nome muito mais importante. No dia 30 de setembro de 1948, Dix-Sept inaugurou a biblioteca. Daí pra cá teve altos e baixos, mas não fechou. E vai melhorar.

OP - E o museu local, também nasceu por sua insistência...

VUR - Logo depois da biblioteca, comecei a organizar o museu, que está no prédio que era da cadeia pública, construída na seca de 1877, onde esteve preso Jararaca, onde foi abolida a escravidão, em 1883. Mossoró sofreu muita influência dos abolicionistas do Ceará. Este museu já tem algumas seções de certa importância, por exemplo, a parte de pré-história. Nós tínhamos reunido cerca de 300 peças, uma doação de um camarada chamado Jonas de Oliveira Leite, e mais uma compra simbólica de Oswaldo Lamartine de Faria. Ele nos vendeu por três reais, em moeda atual, uma coleção riquíssima de fósseis do Seridó. Nossa coleção era uma das mais importantes do Nordeste.

OP - Como começou sua ligação com a paleontologia?

VUR - Eu tinha 21 anos, estava fazendo o primeiro ano de agronomia em Lavras (MG), e nunca tinha ouvido falar que Mossoró tivesse fóssil. Em Lavras havia uma mania, os estudantes escreviam para os ministérios, para as secretarias, pedindo publicações. Um dia, o Departamento Nacional da Produção Mineral me mandou um livro desse tamanho. Comecei a folhear, morri de vergonha. Como é que é, eu com 21 anos não conheço um fóssil de Mossoró? E aqui neste livro estão bem uns 20 nomes! Fiquei com vergonha de mim mesmo. Quando voltei, comecei a procurar e vi que tinha mesmo. Naquela parede que lhe mostrei, tem alguns milhares de fósseis. No pórtico monumental da Esam tem equinodermos, um molusco um tanto raro aqui no Nordeste. Muitos desses fósseis têm importância para a economia porque indicam existência de jazidas minerais. No museu, eu comecei a juntar uns fosseizinhos. E começamos a convidar cientistas, aqui, acolá vinha um, levava para estudar. Um desses fósseis era um quelônio, que tem uma história curiosa. Vinha um vendedor de macambira, da serra ao Mossoró. Certa hora, ele notou que a carga estava desequilibrada, pegou uma pedra e botou. Eu estava organizando o museu, chegou o camarada disse, tem uma pedra meio esquisita lá em casa, o senhor quer que eu traga? Era somente o segundo quelônio mais velho do mundo! Lá na pedreira de gesso, eu já tinha descoberto que Mossoró tinha fósseis e os cassacos sabiam que eu gostava de pedra diferente. Então, Manelzinho do Outro Mundo me disse, dotô, o que é isso aqui? Não sei, parece um fóssil. Realmente foi Manelzinho do Outro Mundo que descobriu este fóssil que ganhou meu nome. (No total, são seis fósseis de moluscos que se chamam ''rosadoi'', boa parte escavada quando Vingt-Un comandava a retirada de gesso em São Sebastião, então distrito de Mossoró).

OP - Vingt-Un, me conte sobre a Coleção Mossoroense (por conta dela, ele foi uma das 500 personalidades entrevistadas por um jornal de São Paulo, durante as comemorações da descoberta do Brasil, ano passado).

VUR - Comecei uma série de publicações em 1949, chamada Coleção Mossoroense, que já chegou a 3.500 títulos. O tema principal é Mossoró, Rio Grande do Norte, Nordeste, mas publicamos alguns livros sobre estudos nacionais também. Mas o tema principal é a bibliografia da seca, são mais de 700 títulos sobre o assunto. Isto foi dito por Asiz Ab'Saber, o maior geomorfólogo do Brasil, um dos sábios do nosso país, nosso amigo velho: quem quiser estudar seca, vá a Mossoró, que a bibliografia mais rica está lá.
(© O Povo)


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