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18/12/2001 O homem dos livros do sertão
da Redação Conheci um casal pra lá de interessante. Tudo por
causa deste caderno sobre a caatinga. A parte que me coube neste sertão cruzaria os
caminhos de Mossoró. Liguei para minha comadre Natércia Campos, a escritora, cuja teia
de amizades ultrapassa fronteiras. Foi Natércia quem me falou de Vingt-Un Rosado e de sua
Coleção Mossoroense, edição particular de livros, em especial títulos
sobre o semi-árido. Chegando lá, encontrei o homem e suas grandes paixões. Vingt-Un Rosado - Primeiro, nada de senhor! Eu
estudei em Lavras, Minas Gerais. De lá, eu trouxe esta jóia para Mossoró (América ri).
Em 1941, assistindo aula, começava a sonhar: será que um dia serei capaz de fazer uma
escola parecida com essa?, e fiquei com aquela mania na cabeça. Fiz algumas tentativas
infrutíferas, até que Dix-Huit, presidente do Inda (Instituto Nacional de
Desenvolvimento Agrícola, atual Incra), a primeira vez que veio a Mossoró, eu digo, meu
amigo, não está no tempo da gente fazer aquela doidice, uma escola de agronomia aqui?
Ele ficou calado. Depois mandou me chamar. - Peça ao prefeito para fazer um decreto
criando uma escola de agronomia. Dou todo o dinheiro necessário para o começo. Então, a
escola foi criada pelo prefeito com recursos do Inda: 18 de abril de 1967. Depois de dois
anos, Dix-Huit prestou o maior serviço à escola, que foi federalizá-la. As escolas de
agronomia mais antigas do país, a de Viçosa, Lavras, levaram 30, 40 anos para serem
federais. Está aí a Esam, com 800 alunos e dois cursos, de agronomia e veterinária, e
um mestrado. VUR - Poderia ter mais. A grande figura que passou
na escola, nessa área, foi Benedito Vasconcelos Mendes. Benedito começou a criar animais
da caatinga para depois repovoar. Depois, ele criou uma coisa maravilhosa, o projeto Terra
Seca. O governador da época, apesar de mossoroense, demitiu o Benedito e fechou a
Terra Seca, que era uma esperança para o Nordeste. Se você vir o
currículo dele, vai ficar assombrada. Para você ter uma idéia da repercussão do seu
trabalho, Benedito foi fazer conferência em duas universidades argentinas e foi aplaudido
de pé. Isso pra um menino de Sobral, criado em Mossoró... A Esam, como toda universidade
pública, atravessa uma crise, mas já está ressuscitando. VUR - Vim saber disso depois de velho. Quando meu
pai morreu, eu tinha 10 anos, nunca me lembrei de perguntar porque tínhamos estes nomes.
Nós fundamos aqui na Esam a Academia Norte-Riograndense de Ciências. E escolhemos como
um dos acadêmicos o professor Aleixo Prattes, que é uma sumidade sul-americana em
farmácia, professor eminente da Universidade do Rio Grande do Norte, ex-professor da USP.
Chamamos esse menino pra ser um dos acadêmicos, e ele é que me ensinou o porquê. Me
disse, seu Rosado estudava em livros franceses. De tanto estudar em livro francês, quando
ele resolveu povoar o Nordeste, se lembrou dos nomes que estavam nos livros. Quando
cheguei de noite em casa, fui ver os livros velhos de seu Rosado e lá encontrei: chapitre
un, chapitre deux (capítulo um, capítulo dois)... Agora só tem vivo este
velho aqui. VUR - Meu pai era de Pombal, na Paraíba, minha
mãe, de Catolé do Rocha, na Paraíba também. Meu avô era português, um homem de
certos recursos, mas na seca de 1877 a família ficou na fossa. E meu pai foi trabalhar
como caixeiro em Catolé do Rocha, na loja do português Amorim. Um dia chegou uma
meninazinha para comprar uma fita pra sua boneca, era minha tia. Começaram um namorinho,
depois meu pai foi pro Rio de Janeiro, se formou. Quando voltou, casou com ela. Foram
três filhos do primeiro casamento, no segundo 18. Minha tia, já doente, pediu pra meu
pai casar com minha mãe, minha mãe não simpatizou muito. Mas se casaram e foram
extremamente felizes. VUR - É um apelo irresistível, está no sangue dos
Rosado. Aqui em Mossoró, a tradição é o camarada ficar rico e ir embora. Bom, nós
nunca ficamos ricos mas nunca saímos daqui. Quando me casei com América, fomos morar
numa casa de taipa em São Sebastião, atual Governador Dix-Sept Rosado. Eu era chefe dos
cassacos (trabalhadores braçais) da pedreira de gesso. De manhã, ela geralmente pegava
um cavalo, ia dar uma volta, e os cassacos diziam, lá vai a galega do dotô! Fomos
felizes lá, e não sabíamos. VUR - Eu tinha sete anos, estava fugido com a
família, a meia légua daqui. Me lembro ainda quando começou o combate, os tiros. A
resistência de Mossoró foi uma coisa muito bonita, o prefeito era um matuto inteligente,
de coragem, e organizou a resistência civil. Havia uns gatos-pingados de soldado, a
maioria eram civis. Calcule que, na véspera do ataque, estavam dançando, ninguém
acreditava que Lampião viesse e ele já estava bem pertim. Eles mataram Colchete no dia
do combate, Jararaca e outros foram feridos, mas Jararaca a polícia pegou, dizem que
enterraram vivo. O povo não aceita este tipo de coisa. Jararaca era um cangaceiro
perverso, tarado, mas matar como mataram o povo não aceita. Jararaca hoje é santo. No
dia 2 de novembro, você pode ir lá verificar qual o túmulo mais visitado,
é o dele. Eu pergunto, por que não há este culto também a Colchete? Colchete morreu em
condições normais, combatendo. O outro foi cruelmente assassinado, sem consulta ao
prefeito, à cidade, nada. A polícia pegou, levou pro cemitério de noite, matou. O
prefeito só soube depois do fato, a cidade não participou dessa crueldade. VUR - Em 1948, Dix-Sept estava fazendo seu programa
de governo (para a prefeitura). Perguntei, Dix-Sept, por que você não faz uma biblioteca
pública? É um troço importante, se eu fosse você, criava. Ele foi eleito, no dia
seguinte eu estava na prefeitura, cobrando. Com quatro dias, ele criou a biblioteca
pública, que ainda existe, tem o nome de Ney Pontes Duarte, um sargento da Aeronáutica,
reformado. Todo dinheirim que pegava, comprava um livro. Você sabe quantos livros ele deu
à biblioteca? Quatro mil! Por isso, quando falaram em botar o meu nome, disse, não, tem
um nome muito mais importante. No dia 30 de setembro de 1948, Dix-Sept inaugurou a
biblioteca. Daí pra cá teve altos e baixos, mas não fechou. E vai melhorar. VUR - Logo depois da biblioteca, comecei a organizar
o museu, que está no prédio que era da cadeia pública, construída na seca de 1877,
onde esteve preso Jararaca, onde foi abolida a escravidão, em 1883. Mossoró sofreu muita
influência dos abolicionistas do Ceará. Este museu já tem algumas seções de certa
importância, por exemplo, a parte de pré-história. Nós tínhamos reunido cerca de 300
peças, uma doação de um camarada chamado Jonas de Oliveira Leite, e mais uma compra
simbólica de Oswaldo Lamartine de Faria. Ele nos vendeu por três reais, em moeda atual,
uma coleção riquíssima de fósseis do Seridó. Nossa coleção era uma das mais
importantes do Nordeste. VUR - Eu tinha 21 anos, estava fazendo o primeiro
ano de agronomia em Lavras (MG), e nunca tinha ouvido falar que Mossoró tivesse fóssil.
Em Lavras havia uma mania, os estudantes escreviam para os ministérios, para as
secretarias, pedindo publicações. Um dia, o Departamento Nacional da Produção Mineral
me mandou um livro desse tamanho. Comecei a folhear, morri de vergonha. Como é que é, eu
com 21 anos não conheço um fóssil de Mossoró? E aqui neste livro estão bem uns 20
nomes! Fiquei com vergonha de mim mesmo. Quando voltei, comecei a procurar e vi que tinha
mesmo. Naquela parede que lhe mostrei, tem alguns milhares de fósseis. No pórtico
monumental da Esam tem equinodermos, um molusco um tanto raro aqui no Nordeste. Muitos
desses fósseis têm importância para a economia porque indicam existência de jazidas
minerais. No museu, eu comecei a juntar uns fosseizinhos. E começamos a convidar
cientistas, aqui, acolá vinha um, levava para estudar. Um desses fósseis era um
quelônio, que tem uma história curiosa. Vinha um vendedor de macambira, da serra ao
Mossoró. Certa hora, ele notou que a carga estava desequilibrada, pegou uma pedra e
botou. Eu estava organizando o museu, chegou o camarada disse, tem uma pedra meio
esquisita lá em casa, o senhor quer que eu traga? Era somente o segundo quelônio mais
velho do mundo! Lá na pedreira de gesso, eu já tinha descoberto que Mossoró tinha
fósseis e os cassacos sabiam que eu gostava de pedra diferente. Então, Manelzinho do
Outro Mundo me disse, dotô, o que é isso aqui? Não sei, parece um fóssil. Realmente
foi Manelzinho do Outro Mundo que descobriu este fóssil que ganhou meu nome. (No total,
são seis fósseis de moluscos que se chamam ''rosadoi'', boa parte escavada quando
Vingt-Un comandava a retirada de gesso em São Sebastião, então distrito de Mossoró). VUR - Comecei uma série de publicações em 1949,
chamada Coleção Mossoroense, que já chegou a 3.500 títulos. O tema
principal é Mossoró, Rio Grande do Norte, Nordeste, mas publicamos alguns livros sobre
estudos nacionais também. Mas o tema principal é a bibliografia da seca, são mais de
700 títulos sobre o assunto. Isto foi dito por Asiz Ab'Saber, o maior geomorfólogo do
Brasil, um dos sábios do nosso país, nosso amigo velho: quem quiser estudar seca, vá a
Mossoró, que a bibliografia mais rica está lá. Com relação a este tema, veja também: |
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