Notícias

24/12/2001

'Abril Despedaçado' recebe elogios nos EUA

Cena de ‘Abril Despedaçado’ que recebeu elogios da crítica americana    Christian A. Cravo/Divulgação

Críticos americanos acolheram bem o longa de Walter Salles, que estreou em um novo multiplex de Nova York, na sexta-feira, com 17 exibições diárias, feito inédito para um filme estrangeiro

MARCELO BERNARDES
Especial para o Estado

   NOVA YORK - Menos de 24 horas depois de ter conquistado uma das cinco vagas para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, Abril Despedaçado enfrentou outro grande teste nos EUA: os críticos de Nova York. Na sexta, o novo longa de Walter Salles entrou em cartaz em três salas de cinema da cidade que possui os resenhistas mais importantes do país.

   A reação dos críticos a Abril foi positiva, com elogios ao estilo vigoroso e poético de Salles filmar um tema lúgubre e a fotografia de Walter Carvalho. No entanto, ao contrário da calorosa recepção a Central do Brasil três anos antes, Abril teve resposta mais reservada, sobretudo em relação aos atores protagonistas da história.

   Como sempre, a resenha mais aguardada é a do jornal New York Times. Com grande destaque, a crítica de A.O. Scott comparou Abril Despedaçado com outro atual hit independente da temporada, o longa In the Bedroom, de Todd Field. Ambos os filmes são sobre famílias lidando com a perda dos filhos e o sentimento de vingança.

   No caso do de Salles, a vendeta entre dois feudos no nordeste do começo do século passado é por posse de terras. No de Field, a história é contemporânea e a vingança é ação não planejada. Scott escreve que Abril é "um cauteloso olhar num mundo em que a violência é o princípio básico da ordem social, a regra em vez da exceção". Segundo o crítico, "a premissa do filme é lúgubre, mas Salles tem um jeito de infundir um romantismo honesto e de coração aberto nas mais terríveis histórias".

   Ao descrever o sentimentalismo da história, Scott salienta que o cineasta a subjuga no final. "Salles tem a confiança de um contador de histórias tão encantado por seu conto para se preocupar com a resistência do público, a qual ele vem a superar com desenvoltura".

   Sobre a fotografia de Carvalho, o Times diz que ela "encontra a beleza austera das vazias e monocromáticas paisagens de deserto e também das faces envelhecidas dos plantadores de cana". Duas cenas chamam a antenção do crítico: a seqüência na qual Rodrigo Santoro vinga a morte do irmão e a chegada de dois artistas de circo, "que se conectam com o filme da mesma forma que La Strada, de Federico Fellini, e Bye Bye Brasil, de Carlos Diegues".

   Garotos - A seqüência de perseguição também foi elogiada pelo jornal New York Post, que concedeu três estrelas a Abril. Já a crítica do Daily News, assinada por Jack Matthews, decano resenhista, leva o título de A Vida Não é Carnaval para os Garotos Brasileiros. Matthews diz que ambos os filmes de Salles lidam com o desafio de crescer "em um país hostil à sua população infantil".

   A revista Time Out alerta o público para levar uma bebida gelada ao cinema, pois "o intenso calor a radiar da tela é praticamente palpável". O crítico Jan Stuart, do matutino Newsday, escreveu que "faina e desespero raramente são capturados em um filme com tanta sensualidade quanto Abril".

   O único aspecto questionável de Abril que parece ter encontrado consenso por entre os críticos foi a autenticidade de Santoro para o papel principal. Em análise mais elegante, o New York Times diz que o ator parece "um astro de cinema despachado para os campos de cana de açúcar".

   O tablóide NY Post diz que Santoro "parece um modelo milagrosamente depositado no meio do nada". A crítica mais contundente ao elenco veio do Newsday: "um filho é muito bonito, o outro é um estrondoso maçante", diz o crítico, que ainda considerou o garoto Ravi Ramos Lacerda como um dos atores mirins menos cativantes do cinema desde Freddie Bartholomew (ator da década de 30)".

   O lançamento de Abril em Manhattan marca a abertura de um novo multiplex destinado a filmes de arte, o Sunshine Cinema, um dos mais antigos espaços cinematográficos de Nova York e que não era utilizado como tal há quase 50 anos.

   O filme de Salles ocupa três das cinco salas do complexo. No fim de semana, Abril teve sessões ininterruptas, a cada 45 minutos, do meio-dia a uma da manhã. Foi um total de 17 exibições diárias, quantidade inédita para um filme estrangeiro. A poucos quarteirões de distância, o famoso multiplex Angelika, exibia sete sessões diárias do filme bósnio Terra de Ninguém e doze do francês O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, os dois mais fortes concorrentes de Abril no Globo de Ouro. (© O Estado de S. Paulo)


Abril Despedaçado revela Velho Oeste nordestino

   Seu irmão morreu baleado enquanto ele estava sentado em seus ombros. Essa é uma das experiências que o garoto se esforça para esquecer em Abril Despedaçado, de Walter Salles, indicado na quinta-feira ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

   Desta vez, o diretor de Central do Brasil mostra uma vendetta entre duas famílias na virada do século, num Nordeste que mais lembra o Velho Oeste americano.

   Walter Salles trata da antiga rivalidade entre duas famílias de latifundiários decadentes. Como Central do Brasil, Abril Despedaçado é uma narrativa emocionalmente forte, contada desde o ponto de vista de um garoto.

   Também como no filme indicado ao Oscar, o novo trabalho de Salles exala uma simplicidade humana que o torna facilmente compreensível pelo grande público, incluindo a platéia internacional.

   "É surpreendente como um filme de uma latitude tão diferente pode mexer com pessoas vindas de contextos culturais tão divergentes", disse Salles à Reuters, falando das reações que seu filme vem suscitando no exterior.

   Situado no início do século 20, Abril Despedaçado é a história de uma disputa secular entre duas famílias vizinhas, envolvendo posse da terra. Em consequência dessa briga, sucessivas gerações de jovens são obrigadas a assassinar umas às outras em nome da vingança, da honra e do respeito pela  tradição.

A POLÍTICA DA INOCÊNCIA

   Assim como em Central do Brasil, em Abril Despedaçado o espectador vê o mundo através dos olhos de uma criança, e ambos os filmes destacam a fragilidade das condições em que vivem os brasileiros fora dos grandes centros.

   "Um elemento importante para mim é que a história tenha um narrador cuja perspectiva se caracterize pela inocência", disse Salles.

   O diretor espera que o enorme alcance conquistado por Central do Brasil tenha contribuído para a conscientização social.

   "Acho que, sob muitos aspectos, ainda vivemos numa fase colonial, com o poder concentrado nas mãos de poucos", afirmou Salles. "Podemos ter conquistado a democracia política, mas precisamos ampliá-la em muito para chegar à democracia econômica."

UMA VISITA FATÍDICA

   O protagonista da história, a quem sua família chama simplesmente de "menino", passa os dias ajudando seus pais no corte e beneficiamento da cana-de-açúcar, sob sol escaldante. "Somos como os bois", ele pensa. "Ficamos dando voltas e mais voltas, sem nunca chegar em lugar nenhum."

   Um dia, dois estranhos passam por sua casa pedindo orientação. O homem mais velho acha graça quando descobre que a família do menino não se deu ao trabalho de lhe dar um nome. A moça bonita que o acompanha dá ao menino um presente, um livro sobre sereias.

   As ilustrações do livro despertam sua imaginação. Nelas, ele encontra uma escapatória da dura lida da fazenda e da repressão de seu pai. O menino teme pela vida de seu irmão mais velho, porque as regras tácitas da disputa entre as famílias exigem que Tonho vingue a morte do terceiro irmão, que morre no começo do filme.

   Os viajantes simpáticos estão a caminho da cidade mais próxima, onde vão montar acampamento por alguns dias e divertir as crianças locais com apresentações de seu circo.

   O encontro deles com o menino, a quem o homem dá o nome de Pacu, vai modificar para sempre o precário equilíbrio do ódio mútuo entre as duas famílias inimigas.

DEUSES DO CINEMA EXISTEM, SIM

   Quando a equipe de filmagem chegou à praia onde seria rodada a cena final, o céu estava limpo, não havia vento algum e o mar estava um espelho.

   "Que pena", pensou Salles. "Eu realmente queria ondas grandes. Queria que o personagem principal se misturasse com aquela qualidade etérea, branca, translúcida de um dia de tempo fechado", contou o diretor.

   "De repente, começou a soprar um vento frio. Em 20 minutos o céu estava coberto de nuvens, as ondas tinham triplicado de tamanho e todo o ambiente da cena mudou. Foi então que dissemos: os deuses do cinema existem, sim!" (© TERRA Cinema)


Com relação a este tema, veja também:

Sites de Cinema e Teatro nordestinos

Google
Web Nordesteweb