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27/12/2001

Somos todos severinos iguais em tudo na vida

   Publicado pela primeira vez no livro Duas Águas (1956), o poema Morte e Vida Severina: Um Auto de Natal Pernambucano completa agora 45 anos. O texto mais famoso do poeta João Cabral de Melo Neto foi escrito sob encomenda para a diretora teatral Maria Clara Machado, que havia pedido ao escritor uma peça de Natal. Depois de pronto, a teatróloga recusou-se a encenar o auto porque considerou-o forte demais para o período natalino. Ela estava certa. A poesia cabralina é, realmente, “forte demais”. A mesma força que impressionou Maria Clara Machado marca o poema ainda hoje, quase meio século depois, no primeiro ano de um novo século que testemunha a existência de novos severinos.

   É verdade que hoje eles não se chamam mais Severino. São Adeniltons, Rosaínas, Wellingtons, Edianas e Asllans, mas dividem a mesma sina. Se não se pode afirmar que o mundo descrito por João Cabral não mudou nada nas últimas décadas, é bom que se diga que as mudanças não vieram para todos. Os caminhos que ligam o Sertão ao Litoral pernambucano ainda guardam muitos severinos e severinas. São pessoas fadadas a perpetuar a saga do personagem central do livro, de morrer numa sina severina: “de velhice antes dos trinta/ de emboscada antes do vinte/ de fome um pouco por dia”.

   Mesmo nesse universo, o poeta não ignora que a grandiosidade da vida é capaz de surpreender a miséria, deter a tristeza, renovar a esperança. Por isso, as cenas finais do texto são pontuadas por uma “explosão vida”, que coroa o auto de Natal. Do nascimento de um menino, o autor faz crescer a beleza: “Belo porque tem do novo/ a surpresa e a alegria. (...) Belo porque corrompe/ com sangue novo a anemia./ Infecciona a miséria/ com vida nova e sadia./ Com oásis, o deserto,/ com ventos, a calmaria (...) Mesmo quando é a explosão/ de uma vida severina”.

   Depois de percorrer os caminhos trilhados pelo Severino do livro, o Jornal do Commercio apresenta edição especial de Natal sobre os severinos do século 21, pessoas que revivem o drama narrado por João Cabral, mas que não deixam nunca de celebrar a vida. (© Jornal do Commercio)


A vida que supera a morte: severina

   Morte e Vida Severina, o auto de Natal pernambucano escrito pelo poeta João Cabral de Melo Neto, começa nos primeiros hectares do Sertão, na zona rural do município de Pesqueira, trecho na divisa com a Paraíba. É desse cenário, “onde uma terra que não dá nem planta braba”, que parte o Severino para sua jornada em busca de terra, trabalho e pão. O ar seco, a falta de água, o solo duro tornam a vida mais áspera nas serras sertanejas. Poucas casas, todas pobres, erguem-se sobre as encostas. Numa delas vive Maria Sueli dos Santos, o marido, quatro filhos e as duas galinhas que criam. O casal não tem emprego. Ele, Adeildo, trabalha quando aparece em quê. Ela trabalha todos os dias, cuidando dos meninos. O menor nasceu há dois meses, o mais velho tem cinco anos.

   Sueli completou 24 anos, mas ninguém estranharia se ela dissesse que tem 30. Casou-se aos 18 e ganhou um filho logo depois. Desde então, seu marido é responsável pelo sustento da casa. “Este ano, a gente não lucrou nada, porque a chuva não deu. Adeildo trabalha longe, alugado, no sítio dos outros. A vida é muito difícil. Tem semana que ganha, tem semana que não ganha. Mas é assim mesmo”, conforma-se Sueli, espantando as moscas que passeiam nas mamadeiras de Edson, o caçula. Apesar da pobreza, ela diz que não pretende largar seu chão, como o Severino cabralino. Prefere viver entre as pedras que lhe roubam o suor sem dar nada em troca, porque “a pobreza na cidade é bem pior”.

   A poucos minutos de Sueli, vive a agricultora Maria das Graças do Nascimento, 49 anos, sete filhos e uma triste herança. Dona Graça, como é conhecida, perdeu uma filha, Silvana, há coisa de dois anos. A bala não era para ela, mas a levou assim mesmo. O criminoso não chegou a ser punido pela justiça dos homens. Faleceu três dias depois, numa troca de tiros com a polícia. Silvana deixou quatro meninas. A menor ainda mamava. Dona Graça cria as duas netas. As outras moram com o pai.

   “A pior dificuldade é a das crianças, que sofrem sem alimentação. Falta comida, falta dormida para todos, falta muita coisa.” A essas “coisas de não: fome, sede e privação” – como dizia Cabral –, nada parece ajudar. Nem os benefícios oficiais. “A bolsa-renda, uns recebem, outros não. Tem gente com muita precisão, com mais de seis filhos, que não ganha nada. Na escola daqui tem 50 alunos, mas só duas famílias tiveram direito à bolsa-escola. Aqui todos são muito pobres, não sabemos porque só alguns têm direito”, lamenta a agricultora.

Muito bom dia, senhora/ que nessa janela está;
sabe dizer se é possível/ algum trabalho encontrar?

   O drama do desemprego, que se expandiu de forma violenta pelas áreas metropolitanas nos último anos, sempre assolou as zonas rurais. Seja pela escassez de terra ou de água, os agricultores enfrentam muito mais problemas para trabalhar. Principalmente quando não possuem a terra. Não por acaso, nos últimos 50 anos, vem crescendo de forma significativa o número de posseiros que ocupam lotes agricultáveis. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de estabelecimentos rurais cujos responsáveis não são proprietários nem arrendatários aumentou cinco vezes entre 1950 e 1995.

   Foi a dificuldade de encontrar terra, e também trabalho, que conduziu a agricultora Maria Oliveira da Silva, 46 anos, para o Movimento dos Sem-Terra (MST). Alheia ao discurso político dos líderes do movimento, Maria abre um sorriso cativante para explicar porque está num acampamento: “Ah, eu já trabalhei desde pequena na terra dos outros. Agora, quero um pedacinho para mim”, anima-se. O dia-a-dia junto aos sem-terra não é fácil. Mas nunca houvera sido. “Uma pessoa que não teve dificuldade na vida, não ia agüentar, não. Tem hora que penso em largar tudo e voltar. Mas como a gente não tem nada, se fia em qualquer esperança”, conta Valdemar José da Silva, 56, marido da agricultora.

   Conflitos que brotam por causa da terra são uma constante – dentro e fora do MST. Em Morte e Vida Severina, João Cabral narra vários deles. Nesses 45 anos desde a publicação do poema, muitos outros ganharam vida e causaram mortes. Valdemar e Maria têm medo que a polícia apareça para retirá-los dos assentamentos. Mas nenhum temor consegue abrandar o sonho de ter um canto só seu. “Vou botar lavoura de verdura, que dá renda. Verdura dá muita renda, não é pouca não. Tudo vai melhorar. A gente só está esperando o Incra vistoriar as terras. Aí, a pessoa vai plantando, vai criando e tudo fica bom, porque está cuidando do que é seu, não é?”.

– Por onde andará a gente/ que tanta cana cultiva?

   Mas nem todo mundo que sonha o mesmo sonho segue pela mesma estrada. Muitos trabalhadores sem terra nunca aderiram ao MST. Eles compartilham da miséria, das ausências, das doenças e até da fome, mas têm sinas diferentes. No poema, João Cabral contava que a instalação das usinas na Zona da Mata roubava emprego do canavieiro. Agora, é a decadência dessas mesmas usinas que leva o sustento embora. Segundo os dados do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Carpina, a cidade já teve 18 engenhos. Hoje, possui apenas sete. E todos estão à meio-fogo. Um deles, no passado, consumia as energias de Josias Alexandre Silva, 44 anos, 36 dedicados ao corte da cana, que vive na área rural do município, no Sítio do Veiga.

   Desde 1998, Josias não consegue uma ocupação fixa. Faz três anos e meio, o engenho que o empregava vendeu 660 hectares para uma fazenda de gado. Na mesma terra, agora só duas famílias trabalham. Quase uma centena de pessoas foi dispensada. Josias está incluído nesse número e passou a sobreviver dos biscates que aparecem ora sim, ora não. A mulher e os sete filhos vão no mesmo barco. “Tem semana que trabalho inteira, noutras que só me chamam um dia. Quando as coisas vão mal, não tenho vergonha de dizer, não, a gente só tem macaxeira podre para comer. Não sei o que fazer, porque força para trabalhar eu tenho muita. Sou homem para qualquer serviço. Mas nada aparece”, lastima o canavieiro, que encontra dificuldade até para beber água. “Aqui perto tem um açude, mas o dono não deixa a gente pegar água nem os meninos tomar banho. É uma agonia.”

Recife, onde o rio some/ e minha viagem se finda.

   Sem saber do destino reservado para os migrantes nas grandes cidades, o Severino “aperta o passo para chegar ao Recife”. A capital guarda para ele a água pela qual esperou a estrada inteira. Está na lama dos cais e mangues, onde se equilibram as palafitas. Numa delas vive Luciana Maria Barbosa, 19 anos, mãe de dois filhos: Rafael, de um ano, e Ângelo, de três meses. Neta de retirantes, Luciana já faz parte de uma terceira geração de ‘severinos’. A miséria que se alastra pelo seu barraco, na Ilha do Maruim, não é diferente da que persegue a sina de tantos outros. Mas ela tira dos filhos ânimo para viver. “Faço tudo por eles, faço o que posso para não ver eles com fome”, garante.

   Em palafitas de outras águas, no Pina, mora a dona-de-casa Martilene Bezerra do Nascimento, 39 anos. Em comum com Luciana, ela tem pobreza e força para lutar pelas crianças. Martilene tem seis filhos, mas é o neto Asllan, de quatro meses, que lhe renova as esperanças de um futuro melhor. “Meu marido brigava com minha filha até o menino nascer. Quando ele chegou, deu mais união a gente. Tudo com criança é melhor.” Se fosse traduzida por João Cabral para o seu poema, a frase da dona-de-casa seria: “De sua formosura/, deixai-me que diga:/ é tão belo quanto um sim/ numa sala negativa.

   As palavras dela podem não ser tão exatas quanto às do poeta, mas carregam o mesmo sentido. Cada um trazendo sua própria versão do Natal. Ambos celebram a chegada de uma criança capaz de renascer a vida. Que pode ser Asllan, que pode ser severino, que pode ser Jesus Cristo, mas que merecem ser festejados, “como qualquer coisa nova/ inaugurando o seu dia./ (...) Belo como a última onda/ que o fim do mar sempre adia.(© Jornal do Commercio)


Números da Fetape eliminam a ficção do poema e lhe oferecem tristes doses de pura realidade

– Não é cova grande/ é cova medida.

É a terra que querias/ ver dividida

   Não é por acaso que as estrofes que narram o funeral de um lavrador são as mais conhecidas do poema Morte e Vida Severina. Os conflitos motivados por terra estão presentes ao longo de todo o poema e são uma constante, também, na vida real. Números colhidos pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape) denunciam a morte de 13 trabalhadores, assassinados em brigas por terra ou questões trabalhistas, só na década de 90.

   Entre as vítimas, está Severino Manuel dos Santos (Biu de Glória), que era diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Glória do Goitá. Ele coordenava uma ocupação no Engenho Briosa quando foi atingindo por um dos 19 tiros de espingarda calibre 12 disparados contra ele. Severino morreu 45 minutos depois, sem socorro, sobre a terra: ‘a parte que lhe coube naquele latifúndio’.

   Quase dois anos depois do seu assassinato, os suspeitos só foram ouvidos pela justiça uma vez. A família do agricultor não tem idéia de quando ocorrerá o julgamento dos criminosos. A viúva, Maria da Luz, não consegue tocar no assunto sem chorar. Apesar de toda essa indefinição, duas filhas de Severino levam sua luta adiante.

   “A gente sabe que morre um Biu e nascem mil. Quem está nesse movimento, entra para morrer ou vencer. O Incra acabou desapropriando as terras e distribuindo lotes para os posseiros. É uma pena que, para isso, meu pai tenha que ter morrido. Ele era uma pessoa muito humana”, lembra Maria José dos Santos, 21 anos. Sem condições emocionais de ocupar a terra pela qual Severino deu a vida, a família recusou um lote no assentamento de Briosa. Eles aguardam a desapropriação de outro engenho para conseguir, enfim, terra. (© Jornal do Commercio)


Canto das carpideiras traz consolo aos cortejos fúnebres do interior

– mas diga-me, retirante,/ sabe benditos rezar?/ sabe cantar excelências,/ defuntos encomendar?

   Tanta é a morte que passa no caminho do Severino, que as carpideiras são personagens de destaque no poema. Elas são mulheres que rezam defuntos, encomendam almas e choram piedade a Deus durante os cortejos fúnebres. Ainda hoje, estão presentes no interior.

   Maria Isabel dos Santos, 73 anos, conhecida como dona Bela, é uma das carpideiras mais requisitadas de Pesqueira. Esse é um trabalho que ela faz desde pequena, repassado pela mãe. Apesar de lidar com morte todo dia, dona Bela apressa-se para afirmar que “não gosta dela, não. Já levou muita gente que eu gostava”.

   “É um trabalho bonito, eu me emociono muito. Às vezes, as pessoas estão todas caladas. Quando eu começo a cantar, todo mundo chora”, descreve. Atualmente, ela diz que trocou as excelências por hinos religiosos. “As excelências davam mais tristeza. Aquilo era muito lamurioso. Os hinos consolam os que ficam.” (© Jornal do Commercio)


Música para o poeta antimusical

JOSÉ TELES

   O poeta que não gostava de música deixou seu auto de Natal receber melodia de um músico que gostava de poesia. Assim como vários outros poemas musicados, Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto deve grande parte de sua popularidade às melodias apostas aos seus versos por Chico Buarque de Hollanda, então com 21 anos, e saudado como o novo Noel Rosa, rótulo de que se desvencilharia em pouco tempo.

   Na época, 1965, ele começava a ficar famoso como autor de Pedro Pedreiro, o convite para musicar Morte e Vida Severina partiu do jornalista e teatrólogo Roberto Freire (que depois ganharia notoriedade com guru da somaterapia). Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, do Rio, em 1966, Chico Buarque de Hollanda comentou o processo de criação das músicas em cima do texto do poeta pernambucano: “É um trabalho muito menos intuitivo, muito mais racional. É bom, é disciplina”.

   Em outra entrevista (para o Som do Pasquim, 1975), o compositor revela algumas curiosidades da adaptação do auto de João Cabral: “E outras coisas que fomos cortando porque não cabia na letra. Uma delas fiquei chateado depois porque cortei sem pensar. Não tinha pensado mesmo. Era uma brincadeira, uma crítica, ao Gilberto Freyre. E eu não tava sabendo. Depois o João Cabral me perguntou porque eu tinha tirado. Realmente era porque não cabia na música. ‘...um mocambo modelar / como dizem os sociólogos do lugar.’ Mas eu não tinha ligado sociólogos a Gilberto Freyre. E ‘so-ció-lo-gos’... não dá”.

   O LP com a música de Chico Buarque de Hollanda (o “Hollanda” sairia do nome artístico nos anos 70), cantada pelos atores que a interpretavam foi lançado em 1966. No seu álbum daquele ano, Chico Buarque Volume 3, ele incluiu Funeral do lavrador (que acabou sendo a canção mais conhecida da parceria com Cabral), e Tema para Morte e Vida Severina (com Orquestra e Coro RGE). Na abertura do texto da contracapa Chico escreveria? “Devo este disco novo a João Cabral e Morte e Vida Severina, pra começo de conversa...”

   A música feita para Morte e Vida Severina, no entanto, não figura no topo da obra de Chico Buarque. Em sua grande maioria, limita-se a ser funcional e, com exceção de Funeral do lavrador, perde o interesse fora do contexto para a qual foi concebida. (© Jornal do Commercio)


Encenação teatral e adaptação para a TV são um marco

   O livro Morte e Vida Severina foi adaptado pela primeira vez em 1960, quando o Teatro Experimental Cacilda Becker, de São Paulo, montou o texto de João Cabral de Melo Neto. A direção era de Clemente Portela e a peça trazia os atores Walmor Chagas, Benjamim Cattan, Kleber Macedo. Mas a saga do êxodo rural nordestino, representado na obra pelo personagem Severino, foi somente filmada no começo dos anos 80 por um dos diretores de televisão mais premiados do Brasil: Walter Avancini, que morreu este ano.

   A adaptação de Morte e Vida Severina foi um marco nos Casos Especiais da Rede Globo e da TV brasileira e seu trabalho de maior repercussão internacional. Pelo programa, Avancini ganhou o Emmy, o Oscar da televisão, em 1982. No elenco estavam os atores José Dumont (como o próprio Severino), Elba Ramalho (que começou sua carreira artística no teatro) e Tânia Alves (cuja atuação de um novo impulso à sua carreira de cantora). A trilha sonora do especial é de Chico Buarque. (© Jornal do Commercio)


Com relação a este tema, veja também:

Sites de Cinema e Teatro nordestinos

Sites de Literatura nordestina

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