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Um Gonzaguinha virtualmente inédito

03/01/2002

Gonzaguinha ouve com atenção a orientação do pai Gonzagão, a quem dedicou ''Sanfona de Prata'', incluída no disco


Os primeiros registros de Gonzaguinha são finalmente compilados no CD Luiz Gonzaga Jr. Gonzaguinha, graças ao pesquisador Marcelo Fróes.

Luciano Sá
Especial para Vida & Arte

   Para homenagear o cantor e compositor Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha, nos dez anos de sua morte, o jornalista e pesquisador musical carioca Marcelo Fróes compilou e relança no CD Luiz Gonzaga Jr. Gonzaguinha (Universal Music), as 11 primeiras canções gravadas por esse cantor e compositor. Nascido no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1945, Gonzaguinha faleceu precocemente aos 45 anos em 30 de abril de 1991, num acidente automobilístico em Pato Branco (PR).

   Lançadas há mais de 30 anos em compactos e discos de festivais cujas tiragens raramente ultrapassavam as primeiras mil cópias, as canções agora reunidas neste CD foram gravadas pelo jovem Gonzaguinha entre os 23 e 26 anos de idade (de 1968 a 1971) - época em que praticamente só era conhecido no eixo Rio/São Paulo. O artista só viria a gravar o primeiro LP aos 28 anos, em 1973, e a fazer sucesso no país inteiro aos 34, em 1979 (com ''Explode Coração'').

   Ouvir este CD ''virtualmente inédito'' (no dizer de Marcelo Fróes) é - para fãs novos e antigos - uma oportunidade imperdível de reconhecer a visionária sensibilidade política, a vivacidade e sagacidade intelectuais, a famosa ironia cortante e, principalmente, a entrega à flor da pele desse ''cantautor'' que, desde sempre, ''transbordava toda raça e emoção'' (''Sangrando'', 1980), quando soltava a sua voz cantando as lutas dessa nossa vida. É bonita, é bonita e é bonita.


O disco, música por música


   Moleque - Gonzaguinha relembra sua infância de moleque de rua, no morro de São Carlos, bairro do Estácio, Rio de Janeiro. É um maracatu pernambucano. O arranjo da canção começa ponteado por viola sertaneja, a qual logo se junta orquestra eloqüente. O refrão (''ah! moleque, se um dia eu te pego/(...)/ de ripa, marmelo, te esfrego'') evidencia mensagem subliminar referente à tortura da repressão militar, a partir da instituição do AI-5, em 13 de dezembro de 1968. A gravação é de 1969. Ele regravaria essa canção no seu primeiro LP (Luiz Gonzaga Jr.), em 1973.

   Um abraço terno em você, viu, mãe? - Essa música revela Gonzaguinha, apenas 25 anos, já como um mestre no manuseio de trechos de obras de outros compositores em suas canções. Aqui ele cita os versos iniciais de ''Asa Branca'', do pai Gonzagão (com Humberto Teixeira), e ''Tropicália'', do amigo Caetano Veloso (então exilado em Londres). O tema da canção, gravada em 1971, é o nordestino que deixa sua terra em busca de melhor qualidade de vida no mundo cosmopolita - situação muito comum no falso milagre econômico brasileiro dos anos 70. Mesmo tendo acesso ao progresso e à civilização da cidade grande, o nordestino mantém a sua cultura agrária, e morre de saudades da chuva no sertão, da devoção ao padre Cícero, do cavalo alazão, do aboio, da sanfona e do gibão.

   Por um segundo - Canção de amor, de 1971. Na letra da canção, Gonzaguinha cita um sucesso de Taiguara, ''Universo no teu corpo''. Mas a referência vai mais além: é musical também, pois a concepção da faixa, baseada em orquestra e naipe de sopros, se assemelha ao modo como Taiguara arranjava suas músicas - bem ao estilo do maestro e compositor norte-americano Burt Bacharach, referência mundial na música dos anos 70. Em 1979, Nana Caymmi faria uma participação especialíssima no disco Gonzaguinha da Vida, regravando magistralmente essa canção.

   Plano sensacional - Parodiando a Jovem Guarda, Gonzaguinha manda um sha-la-la-la na introdução da música. Mas a letra não é nada alienada e não faz a menor concessão ao mundo dos negócios, da propaganda, da mídia e da telenovela - mundo que vende até felicidade a prazo e apresenta o sorriso ''colgate'' como emoção principal. Profético, o filme-canção de Gonzaguinha já anunciava ''cores alegrando os horrores da visão mundial'' (isso lembra algum conflito recente?). Na letra, enquanto rola um love story nas telas, na vida real o bandido vence o herói. Em pleno 1971, ele parecia prever a insegurança e a violência reinantes nas ruas do Brasil de hoje.

   Felícia - Título e nome de mulher que viria de felicidade, ironicamente é uma canção triste. Nesse samba-canção, Gonzaguinha revela o seu lado lupiscínico (ele sempre reconheceu no compositor gaúcho Lupiscínio Rodrigues uma grande influência). Na letra, o prenúncio (''seus beijos matando as saudades/ e mil desejos/ cantando, vivendo, viajando no amor'') do que oito anos mais tarde, em 1979, resultaria na gradação afetivo-erótica dos gerúndios em ''Explode Coração'' (''quero sentir o sol dessa manhã/ nascendo, rompendo, tomando, rasgando meu corpo/ e então eu/ chorando, sofrendo, sorrindo, adorando, gritando'').

   Eu quero - Em pleno 1971, o precoce Gonzaguinha elege o afoxé - gênero ainda muito pouco difundido na época - para expressar a festa do desejo e da vida no carnaval. O arranjo é costurado por percussão marcante e guitarra baiana.

   Sanfona de prata - Gonzaguinha presta comovente homenagem ao seu pai, Luiz Gonzaga. A gente ouve a letra e visualiza facilmente a figura do Gonzagão: ''rei com sua sanfona de prata/ rei com seu gibão de couro/ estrela de ouro no chapéu/ carrega consigo o céu/ pra semear pelo sertão''.
O trem (você se lembra daquela nega maluca que desfilou nua pelas ruas de Madureira?) - Uma canção muito complexa, com toques sinfônicos, com que Gonzaguinha tirou o primeiro lugar no II Festival Universitário da Canção, em setembro de 1969 (faixa gravada ao vivo). ''O Trem'' até hoje é marco na canção de protesto no Brasil, com sua densidade na abordagem de problemas sociais como a fome, a injustiça, a pobreza, a baixa qualidade de vida, a alienação e a exploração sobre o trabalhador. O quilométrico subtítulo talvez seja inspirado em canções contemporâneas dos Beatles, a exemplo de ''She came in through the bathroom window'' e ''Everybody's got something to hide except for me and my monkey''.

   Parada obrigatória para pensar - Uma das canções mais herméticas que já ouvi na minha vida. Basta dizer que o produtor Marcelo Fróes deixa de incluir a letra no encarte, ''por não ter sido encontrado nenhum registro impresso da mesma, nem junto à editora musical e nem na gravadora, e também pelo fato de a letra ter em sua complexidade um impeditivo de que fosse simplesmente transcrita a partir da mera audição do disco''.

   Africasiamérica - Mais um exemplo do hermetismo e do anticonvencionalismo de Gonzaguinha no início da década de 70. Com um teclado à la The Doors ao fundo, o ''cantautor'' adota uma linguagem canto-falada muito cifrada (bom lembrar que ele teve nada menos que 54 músicas censuradas), propondo uma consciência-de-terceiro-mundo - a consciência de luta e auto-respeito que os países do Terceiro Mundo devem ter para não se deixarem dominar pelas potências do Primeiro Mundo. Desafiando o coro dos contentes, a letra termina com refrão bilíngüe (''love for all no más''), bem antiamericano (quer dizer: chega, ianques, desse papo hippie-de-butique de amor para todos, se há tanta pobreza na África, na Ásia e nas Américas Central e do Sul).

   Pobreza por pobreza - Mais uma música sobre pobreza e exploração do homem pelo homem, agora sob a ótica de um sertanejo nordestino que, renitente, prefere ficar em sua terra a ir embora para o Sul Maravilha. ''Pobreza por pobreza/ sou pobre em qualquer lugar/ A fome é a mesma fome/ Que vem me desesperar/ E a mão é sempre a mesma/ Que vive a me explorar'', dizem os versos de Gonzaguinha nesse xote gravado pelo desconhecido cantor Jorge Nery em 1968. Luciano Sá é jornalista e compositor O POVO)


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