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Pernambuco perde seu maior historiador, José Antônio Gonsalves de Mello

10/01/2002


José Antônio Gonsalves de Mello escreveu mais de 30 livros. Ele é considerado o maior estudioso da presença flamenga no Brasil

   O maior historiador pernambucano dos últimos tempos, reconhecido na Europa pelos estudos sobre o domínio holandês no Brasil, foi sepultado na tarde do dia 7 de janeiro no Cemitério de Santo Amaro, no Recife. José Antônio Gonsalves de Mello, 85 anos, morreu de madrugada, após sofrer uma parada cardíaca. Ele estava no Hospital Jayme da Fonte, onde havia sido internado, desde o fim do ano passado, para tratamento de uma pneumonia.

   Amigos, familiares e historiadores que têm José Antônio como grande mestre acompanharam o velório e o sepultamento. Autor de mais de 30 livros e formador de acervos importantes, José Antônio destacou-se pela seriedade dos trabalhos. Era considerado um historiador eticamente científico.

   “Foi o maior estudioso da presença flamenga no Brasil e com conhecimento de causa. Pois ia às fontes, identificando cada documento e a sua representatividade para a história brasileira”, explica Fernando Freyre, presidente da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), onde o corpo do historiador foi velado.

   Embora não tenha reconhecimento popular no Brasil, o pernambucano José Antônio era considerado o maior historiador vivo do País pelo Instituto Histórico Brasileiro e tem destaque internacional. Em 1940, no Rio de Janeiro, com refugiados holandeses e Honório Rodrigues, criou o Instituto Brasil-Holanda. Na década de 70 foi eleito para a Academia Portuguesa de História, de Lisboa, a princípio como sócio-correspondente. Em janeiro 1972 foi condecorado pela rainha Juliana, dos Países Baixos, como Oficial da Ordem Orange Nassau, por causa dos estudos sobre o período holandês no Brasil.

   Há menos de dois meses, o trabalho de José Antônio tornou-se visível mais uma vez, com a publicação, na Holanda, de uma de suas principais obras: Tempo dos Flamengos. Assim como a carreira do historiador, essa publicação tinha um destaque especial. Era a história do Brasil, que, pela primeira vez, estava chegando aos holandeses, contada por um brasileiro.

   Obra mais importante sobre o domínio holandês, publicada no Brasil em 1947, Tempo dos Flamengos foi traduzida para o holandês e lançada na sede da Embaixada do Brasil em Haia (Holanda). Para os holandeses, José Antônio era tido como um teórico importante, definiu na época o pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e responsável pela edição holandesa do livro, Marcos Galindo.

   CARREIRA – Filho do médico Ulysses Pernambucano de Mello e Albertina Carneiro Leão de Mello, José Antônio nasceu no Recife. Tinha também um primo ilustre, o sociólogo Gilberto Freyre. Estudou no Ginásio Pernambucano, no Recife, e no Anglo-Brasileiro, no Rio de Janeiro. Depois entrou para a Faculdade de Direito do Recife. A carreira de historiador começou com pesquisas para o livro em formação, Casa Grande & Senzala, do primo Gilberto Freyre.

   José Antônio Gonsalves de Mello deixou três filhos (além de Ulysses, Maria Dulce e Diva Maria), nove netos e um bisneto. O último livro foi publicado em 1998, uma coletânea de seus artigos publicados em jornais. Dois anos antes, foi publicada a segunda edição de Gente da Nação: Cristãos Novos e Judeus em Pernambuco 1542-1654. Ontem, o prefeito em exercício, Luciano Siqueira, decretou luto oficial no Recife. (© Jornal do Commercio)


Gonsalves de Mello estudou período holandês

   O historiador José Antônio Gonsalves de Mello, com sua paixão pela documentação e pelo estudo da escrita antiga (paleografia), fez uma escola de professores que se dedicam à leitura de documentos do século 16 ao século 19. Esse legado deixado por ele foi lembrado com orgulho pela professora Socorro Ferraz, coordenadora do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

   “Era dedicadíssimo ao estudo da História e respeitado no Brasil todo”, disse a professora, destacando que foi José Antônio, em 1970, quem organizou o curso de pós-graduação em História da UFPE. “Para que os alunos pudessem ler os documentos do período holandês no Nordeste brasileiro, dava aulas nesse idioma”, observou.

   Socorro Ferraz lembrou das inúmeras visitas que o professor José Antônio fez a arquivos da Holanda e de Portugal, em busca de mais informações sobre o período holandês. “Os historiadores que visitarem esses arquivos encontrarão, com certeza, o rastro deixado por ele.”

   Em junho do ano passado, José Antônio emocionou-se ao receber, em nome do reitor da UFPE, Mozart Ramos, a carta original de João Fernandes Vieira comunicando a Dom João IV, rei de Portugal, o fim do domínio holandês em Pernambuco, que durou de 1630 a 1654. O documento, integrado ao acervo do Departamento de História da universidade, foi doado por um historiador inglês. (© Jornal do Commercio)


Duas exposições mostram obra do pesquisador

   Quem não conheceu José Antônio Gonsalves de Mello ou sabe pouco sobre sua obra pode recuperar informações em duas exposições que estão em funcionamento no Recife. Uma no Centro de Cultura Judaica, prédio da primeira sinagoga das Américas, na Rua do Bom Jesus, e outra no Museu Cidade do Recife, no Forte das Cinco Pontas.

   As duas mostras foram organizadas pelo Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, que pertence ao Centro de Cultura Judaica. Nelas são encontrados painéis sobre a vida de José Antônio e resumo de seus principais trabalhos.

   O professor tem o reconhecimento dos judeus e estudiosos da cultura judaica por sua dedicação ao tema. É considerado o primeiro e principal historiador da presença judaica em Pernambuco no período holandês. Um de seus principais livros trata do assunto: Gente da Nação, que enfoca os cristãos novos e judeus em Pernambuco no período de 1542 a 1654.

   A exposição no Centro de Cultura Judaica deve demorar ainda 30 dias e depois funcionar como mostra itinerante. Pode ser visitada pelo público de segunda à sexta-feira, das 9h às 17h. Aos sábados e domingos o local abre das 15h às 19h.

   No Museu Cidade do Recife, os painéis estão expostos na sala que tem o nome do historiador. Outra fonte de consulta sobre os trabalhos de José Antônio Gonsalves de Mello é a biblioteca da Fundação Joaquim Nabuco, entidade que dirigiu quando foi fundada como instituto. (© Jornal do Commercio)


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