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12/01/2002
Premiada tese de doutorado de
historiadora francesa sobre Lampião é publicadaEm entrevista, autora fala sobre a influência ainda exercida
pelo cangaceiro na cultura brasileira
ALCINO LEITE NETO
DE PARIS
O maior bandido da história brasileira chegou à Sorbonne e comparece agora
nas livrarias da França em "Lampião - Vies et Morts d'un Bandit Brésilien"
(Vidas e Mortes de um Bandido Brasileiro), escrito pela historiadora Élise
Grunspan-Jasmin.
Originalmente uma tese de doutorado para a
universidade francesa, o trabalho recebeu o prêmio de melhor pesquisa científica
concedido pelo jornal "Le Monde" e pela PUF (Presses Universitaire Françaises),
que está publicando a obra.
"Lampião" é ao mesmo tempo uma biografia
do cangaceiro e um ensaio sobre o seu mito na cultura nordestina e brasileira. A história
de Virgulino Ferreira da Silva, nascido em torno de 1897 e morto em 1938, é traçada pela
historiadora por meio de variados registros: documentos, imagens, depoimentos, reportagens
jornalísticas e versos de cordel.
As diferentes fontes narram as sucessivas
"vidas" e "mortes" criadas para o bandido, em suas duas décadas de
cangaço e depois. Em Lampião, a sociedade brasileira projetou múltiplos conteúdos
simbólicos, que expressavam as suas contradições concretas a respeito da posse da
terra, das diferenças raciais, da violência, do sertão e da unidade nacional. "A
história de Lampião é um vai-e-vem contínuo entre imaginário e real", diz
Grunspan-Jasmin, 34. Leia a seguir trechos da entrevista.
Folha - O que levou uma historiadora francesa a se
interessar pela história de Lampião?
Élise Grunspan-Jasmin - Primeiro, porque seu mito impregna até hoje a cultura do
Nordeste, onde eu vivi durante um tempo, em Recife. Depois, porque a fotografia foi parte
integrante desse mito. Eu trabalhava anteriormente sobre os traços históricos nas
fotografias e fiquei impressionada com a profusão de imagens desse personagem, desde o
início de sua trajetória até a sua morte. Creio que a primeira foto que vi de seu grupo
de cangaceiros foi a das cabeças cortadas e exibidas publicamente pelas forças da ordem.
A imagem me chocou muito, pelo cuidado extremo de encenação fotográfica e a dimensão
simbólica que foi visada na cenografia dessa morte.
Folha - Por que a encenação da morte é importante no caso
de Lampião?
Grunspan-Jasmin - A encenação da morte, feita pelo poder público, ocorre tanto
com Lampião quanto com Antonio Conselheiro. Esses personagens simbolizam o sertão como
um espaço de barbárie, que não poderia ser penetrado pela dita civilização, e a
impossibilidade para o Brasil de obter a sua unidade nacional. Assim, em ambos os casos,
as práticas de poder visam à destruição do mito e a uma despossessão pós-morte. No
caso de Conselheiro, as autoridades impuseram que seu cadáver fosse desenterrado e
fotografado em seguida, para só depois ter direito à decapitação. Como ele havia se
apropriado de uma terra, ele é tirado dela, não tem o direito de ficar ali. No caso de
Lampião, é o ato de decapitação, de separar o corpo em dois, que é determinante. Como
ele não tinha terra, mas dominava um território e carregava suas riquezas sobre o
próprio corpo, então é sobre esse corpo que se deve agir. Efetivamente, sua cabeça é
cortada e o resto do corpo é deixado sem sepultura.
Folha - Da parte de Lampião, não haveria também um desejo
de encenação do cangaço?
Grunspan-Jasmin - Claro. Esse é um dos aspectos geniais do personagem. Ele
utilizava a mídia, a fotografia, tudo que diz respeito ao visual, como a vestimenta, para
a construção de seu próprio mito e de sua própria imagem. Isso é uma das grandes
particularidades e um dos traços modernos desse personagem.
Folha - Por que o sertão interessou pouco os historiadores,
como a sra. afirma em seu livro?
Grunspan-Jasmin - Isso está mudando progressivamente. O sertão simbolizou para o
Brasil essa impossibilidade de encontrar uma forma de unidade nacional. Era uma espécie
de encrave arcaico, uma região considerada fora do tempo e da história, que não poderia
ser desenvolvida. Ainda hoje, é bastante estigmatizado. Trata-se de uma questão que
permanece aberta, a saber: como um país se constrói a partir dessa cristalização de
uma região que sofre, como uma ferida sempre aberta, e revela frequentemente a essa
nação a sua incapacidade de representar um corpo sem sofrimento.
Folha - O Brasil que a sra. descreve é um país guerreiro e
violento, muito diverso da imagem dominante de um povo pacífico e conciliador.
Grunspan-Jasmin - No início, meu trabalho era sobre o cangaço e certos aspectos
da cultura nordestina por meio da violência. Para mim, que não conhecia direito o país,
essa violência se amplificava nas imagens que via. O que me interessou em Lampião e em
todas as projeções que fizeram dele é que se trata de um certo momento da história do
país em que se vê uma violência exacerbada, seja dos cangaceiros, seja das forças da
ordem. Ao mesmo tempo, vê-se uma força de vida, uma potência do imaginário e da
criatividade muito grande. É uma ambivalência que faz a história desse período ser
muito interessante. (© O
Estado de S. Paulo)
Com relação a este tema, saiba mais:
Lançado o livro Histórias do
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