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Culinária: Nordeste para brasileiro ver

21/01/2002

Baião de dois


Luciana Fróes

   Mar e sertão. É possível falar genericamente de uma culinária nordestina, partindo do sertão do Maranhão e indo parar nos mares da Bahia? Sim, é possível. E que viagem é reunir (e conferir) a riqueza da cozinha dessa região! O passaporte para esse brasileiríssimo tour gastronômico, recheado de delícias (e calorias), é o livro de receitas “Culinária nordestina, encontro do mar e sertão”, editado pelo Senac. Do litoral nordestino chegam as peixadas, as lagostas, os pirões e os caldinhos de sururu, acompanhados de uma boa cachaça e dos cajus suculentos. Do cangaço, sertão rascante, a carne-de-sol com macaxeira, o feijão-de-corda, o feijão-verde com pedaços de queijo de coalho regados com manteiga de garrafa ....

   O chef francês Claude Troisgros, que assina o simpático prefácio, há alguns anos embarcou nessa viagem e deslumbrou-se com o incrível colorido das frutas, com o exótico sabor do maxixe, quiabo, batata-baroa, aipim, tucupi, jambu, jabuticaba, cupuaçu, açaí...

   — A cozinha brasileira ainda é pouco reconhecida e valorizada dentro do seu próprio país. E fora também. Que pena! Acho uma das mais fabulosas e variadas do mundo. Qualquer dia desses, ela vai estourar como a cozinha oriental — prevê o chef.

Baião-de-dois, farofa de bolão, feijão de coco, buchada de carneiro....

   Com introdução interessantíssima do antropólogo Raul Lody e fotos de Humberto Medeiros, o livro (edição bilíngüe em inglês) lista o que há de mais típico na cozinha nordestina. Entre os salgados, lá estão o baião-de-dois (também chamado de rubacão); o ótimo Maria Isabel, arroz misturado com paçoca de carne-de-sol, mandioca, toucinho e cheiro-verde; a carne-de-sol (sempre ela) com farofa de bolão, feita com a farinha grossa de mandioca; o feijão de coco, servido na consistência de um purê, ou a buchada de bode, cabrito ou carneiro, a gosto do freguês. E do leitor.

   O cozido do sertão tem jerimum, maxixe, quiabo e vem com cuscuz. A feijoada pernambucana é de feijão mulatinho e traz todo tipo de legumes. O arroz de cuxá mistura camarão seco com vinagreira (ervinha arroxeada de sabor ácido) e gergelim.

   Do mar, a caldeirada de camarões com casca e pimentinha típica do Maranhão (que não arde); a guaiamunzada (tipo de caranguejo) com pirão; a lagosta Maurício de Nassau, ao leite de coco, macaxeira, batata-doce e queijo de coalho; a moqueca de arraia ao dendê; e o sururu de capote, quando se recomenda “desprezar os sururus que já estejam abertos...”

   O capítulo Doces é de salivar: munguzá, cuscuz de milho, canjica, bolo de macaxeira, pamonha, bolo de rolo. E algumas gratas surpresas, como o manuê (mandioca, coco, açúcar e manteiga assados na grelha) e a siricaia, feita com ovo, açúcar, manteiga, leite e baunilha. O visual do livro investe nas cores fortes e em imagens pinçadas da literatura de cordel. É com prazer que o leitor vai descobrindo, pouco a pouco, as maravilhas da cozinha nordestina. Com aval de Claude Troisgros. (© O Globo.Com)


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