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Braulio Tavares: do cordel à ficção científica |
O
universo sertanejo se mistura à ludicidade futurista da ficção-científica na
obra do paraibano Bráulio Tavares. Contando Histórias em Verso e O Flautista
Misterioso e os Ratos de Hamelin chegam às prateleiras
Manoel Ricardo de Lima
Especial para O POVOA imagem do "folheto guenzo" que João Cabral
desenha em seu poema Descoberta da Literatura é encantadora (encanto: esta
dimensão perdida que parece nenhuma literatura tem mais) para que a gente
possa pensar um pouco sobre a literatura de cordel. E não este cordel
pobrezinho, desfeito pelos aproveitadores de plantão, estes que tomam posse
do romanceiro e de seus chapéus para surrupiar uma graninha aqui outra ali a
partir do que não é de ninguém; mas falo de um outro que recupera, de alguma
forma, o caráter do encanto e mantém o domínio espalhado no mundo, movendo,
como aquele feito por gente como Ugolino Nunes da Costa, Germano da Lagoa ou
Leandro Gomes de Barros, todos vivendo ali pelos 1800 e anos afora. O
"folheto guenzo" e seus desmanches, seus devires, seus ciclos, que estão em
outra imagem do poema de João, a do "ali como espaço mágico", o espaço do
romanceiro maravilhoso.
Quem não lembra por aí o clássico Romance do Pavão Misterioso de José Camelo
de Melo Resende, que depois virou até uma canção de Ednardo: "Pavão
misterioso, pássaro formoso/ Um conde raivoso não tarda a chegar/ Não temas
minha donzela, nossa sorte nessa guerra/ Eles são muitos, mas não podem
voar." Não custa lembrar que este "pavão do título não é uma ave de verdade,
mas uma máquina voadora em forma de pavão, utilizada por um rapaz para fugir
com sua amada presa numa torre", diz Bráulio Tavares. Daí, pois, o tema
repisado na bonita canção.
Ou seja, é possível pensar certas coisas aparentemente imóveis num seu
mover-se. E é o mover-se que pode fazer também da literatura popular uma
zona tensa e híbrida, uma zona em que o leitor não seja um simples
usufrutuário, e que mesmo desaparecendo uma idéia de leitor, que a leitura
tenha lugar como uma im-pertinência. Como diz lindamente Roland Barthes:
"Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com freqüência a leitura,
não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de idéias, excitações,
associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler levantando a cabeça? É
essa leitura, ao mesmo tempo irrespeitosa, pois que corta o texto, e
apaixonada, pois que a ele volta e dele se nutre, que tentei escrever. Para
escrevê-la, para que minha leitura se torne por sua vez objeto de uma nova
leitura, tive evidentemente de sistematizar todos esses momentos em que a
gente levanta a cabeça."
É isso que Bráulio Tavares, por exemplo, tem feito: levantar a cabeça para
provocar afluxos ao texto através de uma leitura móvel. E tem feito com uma
dignidade muito interessante. Nascido na Paraíba, autor de canções e ficção
científica (a próxima revista Ficções, editora 7Letras, a sair agora em
agosto próximo, toda dedicada à ficção científica brasileira, tem boa
entrevista com ele), dramaturgo e por aí indo. Bráulio publicou recente,
pela editora 34, duas preciosidades: o primeiro, Contando Histórias em
Versos, livro-resultado de suas oficinas de poesia, este, dedicado a poesia
popular, o poema narrativo, o folheto guenzo de cordel; o segundo,
objeto-experiência, O Flautista Misterioso e os Ratos de Hamelin, num
mavioso cordel-encantado, fantástico, em que relê, como sugere Barthes, no
momento do levantando a cabeça e movendo as estruturas da forma, a lenda
famosa do flautista de Hamelin e sua praga de ratos que nós ficamos
conhecendo através dos relatos dos irmãos Grimm ou na versão de Robert
Browning.
E o mais importante ainda nestes trabalhos de Braulio é o que ele usa como
procedimento, um pouco a idéia de ler particularmente uma diferença numa
leitura que também pode ser outra. E aí, não apenas como uma porosidade
simplista, do vale tudo, do tudo pode ser dito, mas muito mais pelo que
consegue retirar do visível como visitação. Depois, um certo didatismo, que
não é o incômodo do interessantíssimo, mas que também não é a conformação
repetida do adequar-se a uma filiação, a um cânone nem muito menos a uma
imobilidade do conforto. É tomando como possibilidade esta condição da
leitura como uma im-pertinência, a que Bráulio Tavares, por exemplo, adota,
que se pode alterar, politicamente, a tortuosa via do pacto cretino, cínico,
silencioso e populista com as coisas da cultura neste país.
Por fim, tomo licença na conversa para atentar a uma questão: reporto que já
disseram não me interessar pela coisa da cultura popular, oral ou coisa que
os valha deste Nordeste de onde sou e que incorporo comigo. E ademais a mais
o equívoco, enquanto desempenhamos trabalho seminal e semovente em
literatura nesta cidade de Fortaleza, eu e Carlos Augusto Lima (com direito
também a todos os erros mais que bem vindos, mas sem abrir mão de nossa
dignidade, e sem modéstia nenhuma), partindo de nosso precioso espaço neste
O POVO e do Alpendre, uma casa de cultura de pauta radical, chegaram também
a dizer à revelia da solapa e da grosseria, ou da burrice, que lá
queimávamos cordel. A bobagem é tão grande e tão descabida que não
queimávamos não, pelo simples fato que lá cordel não entrava. Nunca por
preconceito ou por nada, até porque o cordel é, para nós, uma incorporação
amorosa. E apenas também porque, naquele momento, o nó recortado para a
tensão era outro, a cidade carecia, como ainda carece, clama e se dói.
Sempre fomos contrários à política oportunista da imobilidade de como se lê
e se trata o cordel. Se ninguém entendeu ou entende ainda, que seja. A vida
e o mundo se movem, sempre, menos ou mais, se todos morremos ou não.
Manoel Ricardo de Lima é poeta. Professor de Literatura Portuguesa,
UFSC. Autor de As mãos, Embrulho e Falas Inacabadas, este com Elida Tessler.
SERVIÇO
Contando Histórias em Versos/ O Flautista Misterioso e os Ratos de Hamelin -
Obras do escritor, compositor e pesquisador paraibano Bráulio Tavares.
Lançamentos Editora 34. 160 páginas/ 71 páginas. Preços: R$ 27,00/ R$ 22,00.
(©
JC Online)
Leia entrevista exclusiva com
Braulio Tavares
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