|
|
02/12/2002 O sertão da dialética negativa Leitura de "Facundo", do argentino Domingo Sarmiento, forneceu ao brasileiro as bases para desenvolver a noção de modernidade como bênção e catástrofe por Sergio Paulo Rouanet Pelo menos desde Hegel (1770-1831), o pensamento filosófico ocidental se habituou a uma forma otimista de lidar com a contradição. Sim, a oposição de tese e antítese era a lei geral do espírito e da história, mas a tensão mesma dos pólos antagônicos impulsionava as idéias e as coisas em direção a uma síntese superior, capaz de preservar e transcender os opostos. Foi preciso esperar Adorno (1903-1969) para que surgisse o conceito de uma dialética negativa, capaz de manter a contradição em toda a sua virulência, uma dialética sem síntese, em que os dois pólos permanecessem inconciliáveis. Aplicada à crítica da cultura, essa dialética proclama que a modernidade é ao mesmo tempo repressiva e libertadora. Ela é repressiva porque, contendo em si elementos míticos, não é suficientemente racional e, a pretexto de lutar contra o arcaísmo, produz frequentemente efeitos desumanos. E é libertadora porque, sem ela, o homem não teria nenhum controle sobre a natureza e ficaria sujeito à superstição e à tutela da autoridade ilegítima. Apropriando-se da antítese entre civilização e barbárie, usada pelo argentino Domingo Sarmiento [1811-88; presidente da Argentina entre 1868 e 74, célebre pelo livro "Facundo" (1845), sobre o caudilhismo] e que teria tão grande curso no debate de idéias no Brasil e na Europa, Euclides da Cunha se aproxima dessa dialética, em suas duas vertentes: a modernidade enquanto barbárie e a modernidade como força civilizadora. As forças que representavam a modernidade, em
Canudos, eram elas próprias arcaicas. O delírio de Canudos tinha uma contrapartida exata
na capital. Em Canudos, os jagunços baleavam os intrusos com seus clavinotes; no Rio, os
florianistas linchavam transeuntes e empastelavam jornais. Para os conselheiristas, a
república era o reino do anticristo; para os citadinos, Canudos era o centro de uma
conspiração monarquista. Para os cariocas, Canudos era a Vendéia; para os jagunços, o
Rio era a Babilônia. Os conselheiristas tocavam sinos e cantavam hinos religiosos. As
tropas do governo saudavam o aniversário da queda da Bastilha metralhando os jagunços
com salvas de 21 tiros e cantando o Hino Nacional. Os dois campos se interpenetravam. Os
soldados e os combatentes do arraial eram idênticos na origem regional, na fala, muitas
vezes no vestuário. Sua religiosidade era a mesma. Criados ouvindo lendas sobre os
milagres do Conselheiro, os soldados do Norte tinham as mesmas crendices dos jagunços.
Havia o mesmo arcaísmo entre os oficiais. Os que tombavam à entrada de Canudos tinham no
peito esquerdo uma pequena medalha de bronze com a efígie de Floriano e, ao morrer,
saudavam sua memória com o mesmo fervor que os jagunços reservavam ao Bom Jesus. A crueldade era idêntica nos dois lados. Para Euclides, o Conselheiro e o coronel Moreira César eram figuras simétricas. O Conselheiro era um doente mental; o coronel, um epiléptico. Duas patologias, reforçadas por duas sociedades retrógradas. O uniforme de Moreira César era o avesso do camisolão azul do Conselheiro. Ao mesmo tempo, Euclides não vê saída fora da modernidade. O progresso técnico é um bem. E a civilização é um processo inexorável. O mundo moderno pode ser um Moloch, sedento de sangue, um "Juggernaut", carro divino cujas rodas esmagam pessoas e tradições, mas representa um estágio superior e necessário na evolução da humanidade. É o que ele deixa claro desde a "Nota Preliminar": a civilização avançará implacavelmente, arrasando raças e culturas arcaicas, e Canudos foi, no Brasil, a primeira escaramuça dessa guerra, da qual os soldados do governo foram "mercenários inconscientes". Só a adesão plena à modernidade poderá impedir a extinção do Brasil como entidade nacional, do mesmo modo que foram ou estão sendo extintas as "sub-raças sertanejas". A dupla vertente dessa dialética pode ser ilustrada por duas frases de Euclides. A primeira denuncia a modernidade enquanto barbárie: Canudos só viu "o brilho da civilização através do clarão das descargas". A segunda afirma que a modernidade é inevitável: "Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos". A dialética negativa pode exercer um papel importante. Ela impede as reconciliações prematuras e permite fazer justiça aos dois pólos de um conflito. No caso de Euclides, ela evitou tanto a exaltação da modernidade quanto sua contestação obscurantista. Mas, dito isto, a dialética negativa é um "Holzweg", o caminho dos caminhos que não levam a lugar nenhum. Ela dá ao pensamento uma dignidade trágica, mas paralisa a ação. Foi por isso que Habermas, o último grande herdeiro do pensamento de Adorno, não hesitou em substituir a retórica da "grande recusa" pelo que ele chamou de "reformismo radical". Euclides também procurou saídas para os impasses da
dialética negativa. Num certo momento, depositou esperanças no sertanejo, "a rocha
viva de nossa nacionalidade". Os sertanejos, pelo fato de terem ficado isolados do
mundo exterior, tiveram a sorte de evoluir segundos seus próprios ritmos, ao contrário
dos mestiços litorâneos, expostos a influências européias que eles não podiam
assimilar. Livre dessas influências, o sertanejo ascenderia progressivamente ao estágio
da civilização, transformando-se no sustentáculo de uma modernidade real. Mas na "Nota Preliminar" Euclides parece
ter perdido essas ilusões. O jagunço, o tabaréu e o caipira "destinavam-se talvez
à formação dos princípios imediatos de uma grande raça". Mas agora é tarde
demais. A civilização já os condenou. A "Tróia de taipa" teve o mesmo
destino da Tróia homérica, e só resta a Euclides, como novo Virgílio, chorar sobre
suas ruínas calcinadas, "ubi Troia olim fuit", onde outrora foi Tróia. Em
consequência, a última palavra fica mesmo com a dialética negativa: a modernidade é ao
mesmo tempo uma bênção e uma catástrofe, sem mediação entre os dois pólos. Substituindo a grade biológica pela sociológica, veríamos na guerra de Canudos a metáfora de uma modernização de fachada, resultante da aliança entre o "feudalismo tacanho" do interior e as frágeis elites burguesas (constituídas, em parte, pelos famosos "mestiços neurastênicos do litoral"). Com isso, desvendamos o fundamento da
interpenetração do velho e do novo que Euclides descobrira nas forças pretensamente
modernizadoras. A mescla vinha do fato de que a burguesia republicana não era na
realidade uma força progressista, porque estava comprometida com a grande propriedade e
com a antiga classe escravocrata, revelando-se incapaz de cumprir sua missão histórica
de realizar a reforma agrária. A "modernização" pretendida por essa burguesia
era de fato a perpetuação do latifúndio, o novo a serviço do velho. A tarefa só pode
ser executada por uma classe ou aliança de classes capaz de levar em frente o projeto da
modernidade, sem excessivos compromissos com as velhas elites de poder e também sem
adotar uma política de terra arrasada com relação às raízes culturais do país. Qual seria essa classe? Para Euclides, era a "raça" sertaneja ou, numa linguagem que hoje consideraríamos menos extravagante, a "classe" camponesa. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) talvez concorde com Euclides. Mas os últimos acontecimentos políticos no Brasil parecem favorecer uma interpretação marxista curiosamente ortodoxa, segundo a qual o proletariado industrial seria o verdadeiro motor da renovação. Em qualquer hipótese, é o fim da dialética negativa no Brasil. Hegel é mais atual que Adorno. No país novo que está começando, não se trata de idealizar as contradições, mas de superá-las, em busca das sínteses possíveis. E é o fim, em especial, da aplicação da dialética negativa à crítica da modernidade. Não se trata de querer e não querer a modernidade, mas de implementar sem ambiguidade o projeto moderno, constituído, em sua essência, pelos grandes ideais humanistas do Iluminismo e que, portanto, é visceralmente incompatível com a barbárie que arrasou Canudos. Sergio Paulo Rouanet é ensaísta e professor visitante na pós-graduação em sociologia da Universidade de Brasília. É autor de, entre outros, "As Razões do Iluminismo" e "Mal-Estar na Modernidade" (Cia. das Letras). Escreve regularmente na seção "Brasil 503 d.C.". (© Mais - Folha de S. Paulo)
|
|
||