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Cem anos de Os Sertões (12)

02/12/2002

'Os Sertões' ganha vida e floresce no Oficina

Sob a batuta de José Celso Martinez Corrêa, 'A Terra', teatralização da primeira parte da obra, tem pré-estréia neste dia 2

BETH NÉSPOLI

   O impossível acontece no Teatro Oficina. A Terra, a primeira parte de Os Sertões, de Euclides da Cunha, a menos acessível de todas, ganha vida pulsante e teatral - sob a batuta de José Celso Martinez Corrêa - nos movimentos, nos gestos, nas vozes e nos ritmos de uma equipe de 60 pessoas, entre atores e técnicos. O espetáculo A Terra poderá ser visto pelo público a partir de sábado. Mas amanhã, no dia do centenário do lançamento de Os Sertões, haverá uma sessão especial, às 18 horas.

   Teatro Oficina. Noite de sábado. O Estado tem acesso ao ensaio geral de A Terra. Qualquer um que tenha se aventurado na leitura de Os Sertões vai ao teatro imbuído de uma quase convicção: impossível encenar o primeiro dos três grandes capítulos do livro - os outros são O Homem e A Luta. Como transformar em cena aquelas descrições e análises geológicas, geográficas, hidrográficas, climáticas e botânicas?

   O impacto começa pela primeira cena, a entrada lenta e silenciosa do grupo de quase 40 atores no teatro. A partir daí, o impossível acontece. Tomemos como exemplo um pequeno trecho, aparentemente não encenável: "Vê-se, de fato, que três formações geognósticas (geológicas) díspares, de idades mal determinadas, aí se substituem, ou se entrelaçam, em estratificações discordantes, formando o predomínio exclusivo de umas, ou a combinação de todas, os traços variáveis da fisionomia da terra." Pois essas três formações geológicas assumem a forma de três longos tecidos - verde, amarelo e vermelho - que movimentados pelos atores em corridas e escaladas por corredor e arquibancadas do Oficina, ondulam, se entrelaçam, se substituem dando forma e vida às palavras de Euclides, à geologia. O mais importante, porém, é a ênfase à 'variação fisionômica da terra brasilis'.

   Num outro momento ainda, Euclides narra uma experiência vivida 'nos fins de setembro', quando ele, 'fugindo à monotonia de um canhoneio frouxo de tiros espaçados e soturnos' encontra um soldado que aparentemente descansa sob à sombra de uma quixabeira, "braços largamente abertos, face volvida para os céus". Na verdade, o soldado está morto há três meses. "E estava intacto.

   Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos.... Nem um verme - o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria - lhe maculara os tecidos." Euclides descobre que a secura do ar é tamanha que conserva os cadáveres, daí o título que dá a esse trecho - Higrômetros (instrumento destinado a medir a umidade do ar) Singulares. Zé Celso mantém na íntegra o longo e poético texto, mas transforma a cena em um diálogo entre o soldado e Euclides (Marcelo Drummond). Quando Euclides diz "descansa", o soldado morto o contesta e explica o que lhe ocorreu.

   Na concepção de Zé Celso, os elementos todos da natureza ganham vida, dialogam, viram imagens de forte impacto como o encontro entre mar e terra ou o apunhalamento da terra (encarnada pela bela atriz Luciana Domschke) por bandeirantes e especuladores imobiliários. Como observa Leopoldo M. Bernucci no prefácio da recém-lançada edição de Os Sertões pela Ateliê Editorial, o "martírio da terra" - pelas secas, pelas queimadas, pela insensibilidade - "antecipa e articula" a narrativa que virá com O Homem e A Luta. Idéia que, obviamente, não escapou ao encenador.

   Quem ainda tem de Zé Celso apenas a imagem de um encenador dionisíaco - ou delirante, como preferem seus críticos - deveria assistir a um de seus ensaios. Solitário em uma das arquibancadas do Oficina, seu rosto é uma máscara de tensão enquanto faz incessantes anotações em um caderno.

   Terminado o ensaio, elenco reunido, as cobranças são rigorosas: "Essa cena de encontro entre mar e terra precisa ser apolínea, precisa", conclama.

   "Esse texto é dificílimo, precisa ser ouvido, não se pode falar para o chão, é importantíssimo colocar a voz para esse espaço", adverte. E por aí vai, comentando cena a cena, com grande rigor.

   "É um paradoxo engraçado", comenta Zé em entrevista ao Estado no dia seguinte ao ensaio. "Por um lado, é difícil encontrar atores dispostos a ler o livro, estudá-lo durante dois anos, como esses atores fizeram. O ator profissional não tem mais essa disponibilidade. Por outro lado, com excessão de alguns, a grande maioria não tem experiência em teatro e aí é um processo muito difícil para eles a teatralização do livro. Mesmo para um, digamos, ator ideal, com domínio de todas as técnicas, seria dificílimo. Mas também tenho certeza de que esse processo de maturação vai acontecer, se aperfeiçoar, se requintar e então vamos encontrar uma maneira de exprimir esse livro, que é profundamente teatral." Zé Celso já tem ensaiado partes de O Homem e a Luta, mas ainda não estão prontos.

   "Não é um 'projeto' do Oficina encenar Os Sertões", diz Zé. "Detesto essa palavra projeto, formatação, espera. É um movimento vital e vamos fazer.

   Estamos vivendo uma seca de recursos. Os Sertões é uma peça cara, que exige produção. Se os recursos vierem, vamos fazer mais rápido e melhor. Mas vamos fazer de qualquer maneira. Uma coisa em aprendi com Euclides. A terra tem vida nela mesma para superar todas as torpezas. Nos últimos tempos, fomos convencidos pelos tecnocratas que não temos poder. Em todos os planos. Somos convencidos a virar espectadores, empregados. O teatro é muito parecido com a terra em seus ciclos vitais. Quando parece entorpecido, floresce. E às vezes nas situações mais trágicas."

   Ele ressalta a importância de encenar essa peça no momento histórico vivido pelo País. "A Campanha de Canudos consolidou a República. Todos os canhões que estavam no litoral voltaram-se para lá. Não houve diálogo. Alguns frades foram até lá, num primeiro momento, para tentar convencê-los a se dispersar.

   Havia sido um ano de seca terrível e ali, naquele sertão, 25 mil pessoas desenvolveram uma estratégia de sobrevivência à seca. Não queriam se dispersar. Depois disso, não houve mais diálogo. Eles foram chacinados como monarquistas e pronto. Essa chacina selou o timbre da República. A partir daí várias outros movimentos sociais foram calados pela República, sem diálogo. Nesse momento, um homem que vem da seca, dos movimentos sociais, acaba de se investir dos poderes dessa mesma República. E é um momento histórico interessante."

   Zé Celso avisa que não está montando Os Sertões para realizar uma catarse, para as pessoas terem dó dos massacrados. "Eu não quero a chacina. Estou fazendo Os Sertões para furar o cerco. Para furarmos esse cerco centenário.

   Até hoje existem esse dois Brasis que não dialogam e se massacram. É preciso furar esse cerco. Não basta resistir. É preciso avançar, furar o cerco", argumenta Zé. Metaforicamente e concretamente, a estréia de A Terra hoje significa furar um cerco, o cerco da censura econômica. "Hoje, o teatro é tão excluído quanto qualquer excluído."

   Quando o diretor alemão Peter Stein decide fazer, em Hannover, uma encenação de Fausto, de 18 horas de duração (dois dias de espetáculo de 9 horas), ele tem à sua disposição os melhores atores da Alemanha e um farto orçamento.

   Para fazer Os Sertões, Zé Celso conta com 10 atores experientes e outros 30 saídos de uma oficina. Financeiramente, apenas o apoio da Lei de Fomento, que não chega a R$ 300 mil, dos quais só recebeu 40% até agora. A sessão especial de amanhã de Os Sertões é para convidados, mas não é uma 'sessão fechada'. Está aberta à classe artística, a urbanistas, a ecologistas, a políticos, a todas as pessoas interessadas na terra, no homem e na sua luta.

(© O Estado de S. Paulo)

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