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Cem anos de Os Sertões (11)

02/12/2002

Obra e episódio real inspiraram diretores

Vários filmes foram feitos sobre Canudos, e baseados na obra de Euclides da Cunha, mas nenhum deles tem tanta importância quanto 'Deus e o Diabo na Terra do Sol'

LUIZ ZANIN ORICCHIO

   Assim como fertilizaram o imaginário nacional em outras áreas, Os Sertões e o episódio de Canudos também se transportaram para o cinema em filmes como Canudos, de Ipojuca Pontes, Os Sete Sacramentos de Canudos, uma obra coletiva com episódios dirigidos por sete cineastas diferentes, Memórias de Monte Santo e de Cocorobó, de Agnaldo Azevedo, e Memórias do Sangue, de Conceição Senna. Mas essas marcas estão, principalmente, num clássico do cinema nacional, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Guerra de Canudos, épico de Sérgio Rezende preparado para o centenário do fim do combate, em 1997.

   Nada indica que em Deus e o Diabo na Terra do Sol Glauber tenha feito uma "adaptação" cinematográfica de Os Sertões. Mas o fato é que o tom do filme e a maneira como um dos personagens - o beato Sebastião - é construído, indica que a leitura de Euclides fazia parte dos interesses do cineasta.

   Aliás, Glauber, em várias ocasiões, falou sobre a influência que determinado tipo de literatura tinha sobre sua concepção de vida e de cinema. Referia-se a Euclides e também a Guimarães Rosa e José Lins do Rego. Enfim, podemos somar aí toda a literatura regionalista dos anos 30, de Graciliano Ramos a José Américo de Almeida, passando por Rachel de Queiroz. Esse elenco de escritores, que coloca o Nordeste brasileiro na ponta das preocupações sociais e literárias, não passa despercebida ao jovem cineasta. Glauber integra o épico de Euclides à crueza dos regionalistas e os tempera com a noção metafísica de sertão, importada de Rosa.

   É curiosa a maneira como Glauber constrói o personagem Sebastião, interpretado no filme por Lídio Silva. Sebastião não é a réplica de um personagem real, Antonio Vicente Mendes Maciel, dito Antonio Conselheiro.

   Longe disso. O beato é resultado do diálogo de Glauber com a figura mítica do Conselheiro, da maneira como é descrito em Os Sertões, mas também na literatura de cordel e em toda a tradição oral do povo nordestino. O fato de ele se chamar Sebastião não é gratuito. Glauber resolveu cobrir o mito com uma ressonância tão forte no imaginário do sertanejo, embora ainda seja questão em aberto para historiadores se o milenarismo de Antonio Conselheiro teria base sebastianista ou não. Ao que parece, ele não se referia explicitamente ao rei dom Sebastião, desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir e que retornaria, segundo lenda, trazendo com ele a paz e a prosperidade.

   O personagem de Glauber fala desse tempo, no qual da terra seca irá jorrar o leite e o mel. Fala na inversão da ordem das coisas e o texto famoso faz parte das prédicas do verdadeiro Antonio Mendes Maciel: "O sertão vai virar praia e a praia vai virar sertão." O leitor já reconheceu, levemente transformada, a frase emblemática de Deus e o Diabo na Terra do Sol, musicada por Sérgio Ricardo: "O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão."

   Para o Glauber revolucionário de 1963-1964, Sebastião só pode ser um entrave à consciência plena dos personagens. Assim, Manuel (Geraldo Del Rey) e Rosa (Yoná Magalhães) passam pelo fanatismo religioso do beato, mas apenas como etapa de sua, digamos assim, "evolução política". A religiosidade é alienação, e o fanatismo religioso, alienação elevada ao cubo. Assim, Sebastião deverá morrer para que o casal entre para o cangaço e se defronte com essa outra face do engano, a violência anárquica. Esta também será ultrapassada para que Manuel e Rosa se vejam sozinhos, e diante de um futuro em aberto - o mar e a música dissonante de Villa-Lobos. Então, os versos serão diferentes: "A terra é do homem, não é de Deus nem do Diabo." Nem o fanatismo de Sebastião nem a violência de Corisco, mas a solidão revolucionária do homem tornado sujeito de si. Euclides, lido por Glauber, não desqualifica Canudos como atraso por oposição à modernidade da República. Não mitifica os jagunços nem faz deles agentes de transformação, que não eram. Glauber lê esses elementos à sua maneira e os transforma em parábola revolucionária.

   Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende, relembra os 100 anos do fim do arraial. Sua intenção é ser uma memória crítica, e suas fontes vão além de Os Sertões, incluindo O Rei dos Jagunços, de Manoel Benício, que cobriu a guerra para o Jornal do Commercio do Recife. As primeiras imagens do filme parecem uma ilustração cinematográfica das páginas em que Euclides descreve a região. Surgem logo depois os penitentes e o quadro adquire tons medievais, que lembrariam Brueghel e sua visão pictórica da desordem no mundo. Curiosamente neste caso, o Conselheiro, interpretado por José Wilker, fica em segundo plano, aparecendo muito menos que a trama familiar escolhida como pólo narrativo principal. Nele, uma garota (Cláudia Abreu) se nega a seguir os pais (Paulo Betti e Marieta Severo) para o arraial, acaba por se prostituir e desenvolve ódio cego ao Conselheiro. Feito com intuito de ligar o massacre do passado com a contemporânea dívida social brasileira, Guerra de Canudos perde eficácia quando privilegia o drama individual e coloca em segundo plano a saga coletiva de Canudos.

(© O Estado de S. Paulo)

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