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02/12/2002 Como os ficcionistas descobriram Euclides Um professor achou que estava impondo um castigo ao amazonense Milton Hatoum, autor de 'Dois Irmãos' (Companhia das Letras); um outro impôs um desafio a um aluno, Deonísio da Silva ('Guerreiros do Campo', Mandarim), catarinense, que tinha a vã pretensão de conhecer todas as palavras. Assim dois escritores brasileiros contemporâneos descobriram 'Os Sertões'. Também o baiano Antonio Torres ('Essa Terra', Record) o conheceu no tempo de escola. Mas nem sempre a obra-prima de Euclides da Cunha chegou a eles nas salas de aula. João Ubaldo Ribeiro, autor de 'Viva o Povo Brasileiro' (Nova Fronteira), que nasceu na Bahia e passou a infância em Sergipe, afirma que o leu aos 10 anos, já incutido da deferência de muito ouvir falar do livro na casa dos pais. Luiz Antonio de Assis Brasil, o gaúcho autor de 'Breviário das Terras do Brasil' (LP&M), já passara dos 30 anos quando, por obrigação profissional, precisou ler o livro e se maravilhou. O Estado elaborou um pequeno questionário sobre o livro e o submeteu a estes cinco escritores brasileiros. Suas sensações, opiniões e recomendações sobre o livro centenário podem ser conhecidas nesta página. Nela, eles também explicam por que acham que 'Os Sertões' continua sendo uma obra fundamental para entender a literatura, o Brasil e os brasileiros. (Haroldo Ceravolo Sereza) AS PERGUNTAS1 Quando e como o sr. leu Os Sertões? Qual foi a sua primeira sensação diante do livro? 2 Em algum momento, o sr. se sentiu influenciado por ele? 3 O sr. acha que Os Sertões ainda ajuda a pensar o País e a literatura brasileira? 4 O sr. recomenda a leitura do livro? Por quê? Qual é, na sua opinião, o melhor caminho para chegar até ele? 5 Tem um trecho preferido? Qual? Por quê? João Ubaldo Ribeiro1Deve ter sido há cerca de 50 anos, quando eu tinha uns 10 anos.
Peguei o volume, em que meu pai e as antologias escolares falavam muito, na biblioteca de
meu pai. Li com a reverência que já me tinham incutido. De alguma forma, devo ter sido, mas não sei precisar como. 3Acho um livro básico em qualquer bibliografia, por mínima que
seja, sobre o Brasil. 4Recomendo enfaticamente. 5Meu trecho preferido é a abertura mesmo, por causa da imponente descrição da terra. Antônio Torres1 Li Os Sertões pela primeira vez quando estudava no Ginásio de
Alagoinhas (BA). De cara, me entusiasmei com a Nota Preliminar de Euclides da Cunha, na
qual dizia que a campanha de Canudos havia sido um crime. Mas achei chata a primeira parte
do livro (A Terra) e pulei para a segunda, O Homem. E aí foi um deslumbramento. É possível que haja ressonância dele no meu romance Essa Terra,
em que há breves referências à Guerra de Canudos. No sertão onde nasci, Antônio
Conselheiro tornou-se uma figura mitológica. 3Sim, Os Sertões é um dos pilares do pensamento e da literatura
do nosso País, pelo seu manancial de informações sobre a paisagem física e humana de
um Brasil profundo. Os outros são: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Raízes
do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, Macunaíma, de Mário de Andrade, Grande
Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa... 4Em 1994, na Feira do Livro de Frankfurt, a editora Michi
Strausfeld, da Suhrkamp, exibia a edição alemã de Os Sertões dizendo: "É o livro
dos livros." Precisa dizer mais? Para mim, o melhor caminho para chegar até ele é
indo direto a uma edição recente da Francisco Alves, com texto estabelecido por Anamaria
Skinner. 5O meu trecho preferido é o 3.º capítulo da segunda parte, que descreve o sertanejo, "antes de tudo um forte", porém "desgracioso, desengonçado, torto". É impressionante a agudeza com que Euclides observou a postura do homem do sertão em todos os seus movimentos ou parado. É de cair de cócoras. Milton Hatoum1Em 1967, li trechos do capítulo Últimos Dias, no Ginásio
Amazonense Pedro II. A leitura e o fichamento foram uma punição aos alunos, por causa de
um ato de vandalismo da turma da pesada. Agradeço até hoje a esse severo professor. Ele
queria que a gente sofresse com a leitura; no começo, não entendi muita coisa, percebi
que estava diante de um texto dificílimo e complicado. Mas, com o passar do tempo, as
dificuldades se tornaram um prazer. 2De alguma maneira, um escritor é influenciado por um grande
livro. Não me refiro ao estilo euclidiano, que é arrevesado, pomposo demais. Tem algo de
escultural, como notou Gilberto Freyre. Mas há outros textos valiosos de Euclides. Por
exemplo, no livro À Margem da História (1909), ele foi um dos primeiros a denunciar com
contundência as condições de trabalho dos seringueiros, questões sobre o meio
ambiente, a brutalidade contra os índios da Amazônia. Ele intuiu questões e apontou
problemas que ainda estão aí; percebeu que os bárbaros eram, na verdade, os
"civilizados" da nossa República. Esse foi o Euclides que mais me influenciou. 3Os Sertões nos ajuda a perceber as contradições profundas da
sociedade brasileira. Até hoje o livro causa vários impactos: o dos conflitos sociais e
das diferenças de culturas, a mistura de gêneros numa mesma obra e, sobretudo, o estilo
abarrocado, a linguagem euclidiana. Tudo isso ainda é surpreendente e espantoso. Penso
que Guimarães Rosa deve alguma coisa, senão muita, a Os Sertões. 4É um livro seminal sobre o Brasil. Um desses momentos raros de
uma cultura. Quando um jovem lê a maçaroca que é Os Sertões, se depara com um Brasil
que herdou as terríveis desigualdades daquela época. Nesse sentido, ainda é muito
atual. Tem muita coisa anacrônica e ideologicamente retrógrada, como as teorias
racialistas, o determinismo climático, etc. E isso deve ser dito. Mas o gênio verbal é
muito mais importante que o ingênuo e fervoroso republicano. 5Gosto de muita coisa nesse livro. Cada página é um estrondo. As últimas são memoráveis. Por exemplo, a rendição do Beatinho, "um consumado diplomata", erguendo o longo cajado semelhante a uma batuta, como se fosse um maestro dos desvalidos. Ou então o primeiro parágrafo do trecho intitulado A Dinamite, em que o trágico e o sublime convergem para a destruição de um ideal: "- sob a impassibilidade dos céus tranqüilos e claros - a queda de um ideal ardente, a extinção absoluta de uma crença consoladora e forte..." Dionísio da Silva1Li Os Sertões pela primeira vez no curso ginasial, no seminário.
Meu professor de português, um padre, que dizia que eu era muito bom em vocabulário.
Não havia palavra da qual não soubesse sinônimos e variantes. Os Sertões foi minha
primeira derrota. A minha primeira sensação foi de que eu desconhecia a língua
portuguesa, que Euclides da Cunha deixara uma bomba de efeito retardado que somente então
me atingia. Perguntei a um colega, Wilson Volpato, hoje advogado em Porto Alegre, que
sabia tudo de literatura, e ele me disse: "Livro bom é assim, acrescenta o que você
não sabe." Outro dia me consolei: um "brazilianist" dizia em nota de pé
de página que caatinga é um cheiro estranho que existe no sertão. E ele é PhD em não
sei o quê! 2Acho que sim, sobretudo quando escrevi Avante Soldados Para Trás,
embora as influências de um escritor sobre outro sejam inconscientes e ali o único que
aparece explicitamente me influenciando seja Visconde de Taunnay. Euclides terá passado a
escritores que têm ligações perigosas e vinculações de fogo com a sociedade em que
vivem, como acho ser o meu caso, sérias, complexas e por vezes confusas preocupações
com o povo brasileiro, com seu destino, com seus impasses, com a crueldade inaudita com
que nossas elites o golpeiam freqüentemente. 3Sim, mais de um século depois daqueles eventos, a leitura de Os
Sertões nos ajuda a entender o País, seu povo, sua luta. Considero Euclides da Cunha meu
professor, embora eu tenha começado a ler Os Sertões como um romance. Depois foi que
percebi que era tudo verdade, que tudo tinha acontecido, que era um relato de um
jornalista. E ele continua um exemplo para os jornalistas que não se contentam com o
espaço exíguo do jornal e buscam no livro um novo território para sua expressão. 4Quem não o leu ainda, não completou sua alfabetização. Hoje
há grandes vias de acesso ao livro. São cerca de 400 edições no mundo todo. No Brasil,
há vários especialistas. Tenho, porém, para mim que o melhor caminho é tomar o touro
pelos chifres, o prato quente de mingau pelas beiradas, seja qual for a metáfora,
ninguém substitui o abraço direto entre escritor e leitor. Primeiro o livro, depois os
comentaristas. 5"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seu súltimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados. (...) Caiu o arraial no dia 5. No dia 6 acabaram de o destruir, desmanchando-lhe as casas, 5.200, cuidadosamente contadas. Luiz Antonio de Assis Brasil1Li-o muito tarde, lá perto dos 30 anos, e por uma necessidade
profissional. A sensação foi de assombro. Não esperava encontrar um autor com essa
força dramática. Mas foi bom haver lido Os Sertões já na maturidade; antes,
dificilmente entenderia toda a sua complexidade. Não; o estilo era bem diferente do que eu gostava de praticar.
Mas confesso que me perturbou aquela síntese entre crônica, história, romance e tratado
sociológico. Então era possível escrever daquela forma? Hoje, inclusive, percebo que
Euclides era um pós-moderno "avant la lettre". 3Sim para ambos os casos. Os problemas apontados por Euclides ainda
permanecem, e talvez mais graves --- e nosso desconhecimento do "Hinterland" é
patético. Por outro lado, a Literatura Brasileira passa, necessariamente por Os Sertões;
a verdadeira tragédia nacional tem nesse livro a sua suma e sua explicação. 4Sim, mas tenho o cuidado de escolher a pessoa. Não é para
qualquer um: é preciso ter sensibilidade social e muito conhecimento sobre a
nacionalidade. E, claro, uma carga considerável de leituras prévias para que a fruição
da obra seja completa. E particularmente recomendo Os Sertões porque aqui no Rio Grande
do Sul tivemos, em 1874, o episódio dos Muckers, que é uma pré-visão estarrecedora do
que viria a ser Canudos. 5É o dos últimos dias do Conselheiro. É uma peça de magnífico drama, essencialidade vocabular e impacto (inclusive visual). É o ponto culminante da obra, que sempre me faz voltar a ela. Há, em todo o trecho, um clima sombriamente mágico. (© O Estado de S. Paulo)
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