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02/12/2002 O autor e o sertão em textos e imagens Instituto Moreira Salles promove exposição e edita duas publicações para marcar o centenário de publicação da obra de Euclides Uma edição especial dos Cadernos de Literatura Brasileira, dedicada a Euclides da Cunha, e o lançamento do volume de estréia dos Cadernos de Fotografia Brasileira, que reúne o olhar de 35 fotógrafos sobre Canudos, desde Flávio de Barros - o único a registrar o conflito - até artistas dos dias atuais. É assim que o Instituto Moreira Salles marca o centenário de Os Sertões. O lançamento oficial dos cadernos será dia 9, quando também será aberta, no Centro Cultural do IMS no Rio, uma mostra com as fotos usadas na publicação. "Esta é a primeira vez que dedicamos os Cadernos de Literatura Brasileira a um escritor que já morreu. Mas pela importância de Os Sertões no cânone da literatura nacional, nos pareceu uma oportunidade única para quebrar esta tradição, que, na verdade, nunca foi um dos princípios da coleção, mas cabia bem ao propósito de romper com a tradição do País de só celebrar seus grandes artistas após a morte", diz o presidente do IMS, Antonio Fernando De Franceschi. Dentro do mesmo espírito é que foi tomada a decisão de abrir a coleção Cadernos de Fotografia Brasileira com um volume dedicado a Canudos. "Após Flávio de Barros, houve um longo período no qual fotógrafos pareciam ignorar a região de Canudos, até que em 1946 Pierre Verger viajou até lá para fazer um ensaio que seria publicado no ano seguinte na revista O Cruzeiro, marcando os 50 anos do episódio. Desde então, Canudos tornou-se uma espécie de Meca para fotógrafos." O processo de reunião e edição dos materiais durou, segundo De Franceschi, pouco mais de um ano. "Nossa proposta era proporcionar o quadro mais amplo e articulado possível do escritor, da obra e também do episódio e dos problemas que ele encerra. Procuramos reunir manifestações intelectuais diversas, contemplando abordagens políticas, sociais, culturais, literárias, históricas." Assim, a reunião de fotografias, por exemplo, está aliada a uma série de ensaios que discutem desde o ato de fotografar a guerra até a experiência pessoal dos fotógrafos com relação ao objeto de estudo. "A própria obra possui uma série de vertentes, o que a torna, de certa forma, uma espécie de síntese de questões brasileiras, ao retratar - em um formato que a distingue de qualquer outro livro escrito até então - um momento especial da história do País, que se transformava em um Estado Nacional ao modo de seu tempo, e ao mostrar o povo como um ator político e literário. Pelo texto de Euclides, de repente se descobriu um povo sem face, sem política." Evocação - A estrutura dos Cadernos de Literatura Brasileira (416 págs., R$ 70) evoca a estrutura de Os Sertões. Divide-se em três segmentos: O Homem, A Terra e A Obra. No primeiro, está presente uma biografia em datas que ficou a cargo de Roberto Ventura que, morto este ano, preparava uma biografia de Euclides da Cunha. Toda a edição, aliás, é dedicada a ele e a outros pesquisadores da obra: Oswaldo Galotti, José Calasans e Renato Ferraz. O segmento A Terra traz uma reportagem do jornalista Roberto Pompeu de Toledo a respeito do sertão nacional, ilustrada por um ensaio fotográfico de Edu Simões. Já em A Obra, a intenção é "espelhar os vários caminhos percorridos por Euclides". Estão presentes, na seção Confluências, depoimentos de Celso Furtado, João Ubaldo Ribeiro, Leopoldo Bernucci e José Celso Martinez Corrêa, que relatam seus primeiros contatos com Os Sertões. Em Inéditos/Manuscritos, o tema é a produção poética de Euclides da Cunha, e nela estão reunidos poemas de diversas fases da vida do escritor, desde a juventude. Na seqüência, ensaios contemplam diversos aspectos da literatura euclidiana. Walnice Nogueira Galvão analisa o sentido da viagem no autor, aproximando-o de Joseph Conrad e Lawrence da Arábia. Cândido da Costa Silva trata da faceta religiosa do episódio, Mario Jorge da Fonseca Hermes discute o papel do Exército no conflito. Álvaro Pinto Dantas de Carvalho Júnior analisa a representação dos grupos oligárquicos baianos em Os Sertões. O interesse de Euclides pela Amazônia é o tema do ensaio de Milton Hatoum. Textos do tradutor do livro para o alemão, Berthold Zilly, e do geógrafo Antonio Carlos Robert Moraes encerram a seção. Em Mesa-Redonda está a reprodução de um encontro realizado este ano na sede paulista do IMS, que reuniu especialistas de diversas áreas relativas a Euclides e Canudos. Por fim, dois dos principais estudiosos do tema são perfilados: Oswaldo Galotti (por Álvaro Ribeiro de Oliveira Neto) e José Calasans (por Fernando da Rocha Peres). Os Cadernos de Fotografia Brasileira (308 págs., R$ 63) também estão divididos em segmentos, uma forma, segundo De Franceschi, de contextualizar melhor o episódio. Assim, há uma seção toda dedicada a recontar os fatos principais não apenas dos primeiros e conturbados anos da República, mas também da vida do País até os nossos dias. Cinco fotógrafos - Maureen Bisilliat, Anna Mariani, Edu Simões, Claude Santos e Cristiano Mascaro - dão seus depoimentos a respeito da viagem que fizeram a Canudos e do processo de resgate, por meio da imagem, de um momento histórico específico. Sergio Burgi, coordenador da reserva fotográfica do IMS, e João Sócrates de Oliveira, que há 20 anos recuperou os dois tomos do álbum de Flávio de Barros pertencente ao Museu da República, escrevem, na seção Laboratório, sobre o processo de recuperação do material original de Barros. Além das fotos, que vêm a seguir na estrutura da publicação, há ainda a seção Grande-angular, na qual Joaquim Marçal Ferreira de Andrade (chefe da Divisão de Iconografia da Biblioteca Nacional) e Cícero Antônio F. de Almeida (museólogo do Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan) abordam o lugar do registro fotográfico no campo de batalha e, em especial, no caso de Canudos. (© O Estado de S. Paulo)
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