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Cem anos de Os Sertões (7)

02/12/2002

Livro cria uma nova expedição para Canudos

No romance 'Quinta Expedição', Oleone Coelho Fontes parte de farto material de pesquisa para aguçar a imaginação do leitor

BIAGGIO TALENTO
Correspondente

   SALVADOR - Canudólogo de primeira hora, daqueles que não deixam apagar da memória nacional a história de Antonio Conselheiro e seus "sequazes" (como dizia Euclides da Cunha), o escritor Oleone Coelho Fontes lançou na capital baiana (em meio às comemorações dos cem anos de Os Sertões) o livro Canudos - A Quinta Expedição (Editora Ponto e Vírgula, 435 págs.), seu quarto trabalho sobre o tema.

   Antes, escreveu Guerra de Canudos em Quatro Atos, Uauá, Terra dos Vagalumes e O Treme-Terra, este sobre a vida do coronel Moreira César, o implacável comandante da terceira expedição ao Arraial de Canudos no sertão baiano, massacrado pelos jagunços de Conselheiro.

   Somente a quarta expedição do Exército, comandada pelo general-de-brigada Artur Oscar de Andrade, destruiria Canudos no fim de 1897. Oleone Coelho Fontes decidiu, com sua criatividade e o farto material de pesquisa que dispõe, organizar uma hipotética quinta expedição nesse seu novo livro. Ele tenta provocar a imaginação do leitor, passando a idéia de que toda fantasia do livro é uma realidade que testemunhou, "como uma máquina de filmar na mão", costuma dizer.

   Seguiu à risca uma frase do seu professor, o pesquisador José Calasans, considerado um dos maiores especialistas sobre a Guerra de Canudos, segundo a qual o assunto é inesgotável. De fato, Canudos ainda rende estudos no Brasil e no mundo. Fontes tem conhecimento de várias dessas iniciativas: o coronel Durval Matos coleta dados para obra sobre tática, estratégia, armamento, abastecimento e assuntos afins sobre a guerra no sertão.

   Existe A Guerra do Fim do Mundo, de Llosa e recentemente foi traduzido para o português o romance Veredito de Canudos, do autor húngaro Sandor Márai (Companhia das Letras, 160 págs., R$ 26) e, no próximo ano, o americano George Brown deverá publica o romance Rivers of Milk. E Fontes acrescenta outra obra importante que está sendo gestada, um trabalho sobre sociedades apocalípticas no mundo, com ênfase na turma de Conselheiro, do americano Thomas Oliver Beebee, professor de PennState.

   Curiosamente, Beebee foi transformado em principal personagem da Quinta Expedição. Ele serve de fio condutor para a narrativa na qual Fontes usa uma técnica comum à novelística inglesa, o contraponto. Assim, correm duas histórias em paralelo, a do professor americano que a mando de um jornal canadense viaja para o sertão da Bahia em 1896, para estudar o fenômeno Canudos; e a empreitada do major do Exército Vaz Sampaio organizada em 1957, 60 anos após a guerra.

   Vaz Sampaio reúne um punhado de personagens estranhos para refazer a jornada do fracassado coronel Moreira César, morto na terceira expedição a Canudos.

   "Há, na urdidura, duas fantasias que se interpenetram e podem ser lidas independentemente", diz o autor que levou quatro anos escrevendo a imaginária quinta expedição.

   Crueldade - Natural da cidade de Senhor do Bonfim, próxima ao teatro da Guerra de Canudos, Fontes se impressionava com as histórias que seu pai lhe contava sobre o conflito. Quando leu Os Sertões, chorou em vários trechos diante da "crueldade republicana" e se surpreendeu ao descobrir que Queimadas, cidade que havia morado na adolescência, foi um dos cenários do episódio de Canudos. A vontade de conhecer mais a fundo o assunto ocorreu quando teve a sorte de ser aluno do professor Calasans. A partir de então, fez várias viagens aos cenários da guerra e coletou muito material de pesquisa, que até hoje lhe rende livros e artigos sobre Canudos. Depois de Salvador, A Quinta Expedição será lançado em São Paulo no dia 10, no Restaurante Gato Que Ri, com noite de autógrafo do autor.

(© O Estado de S. Paulo)

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