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Cem anos de Os Sertões (6)

02/12/2002

Bahia realiza simpósio para celebrar e discutir livro

Debates vão analisar as pressões que levaram à 'canonização' de 'Os Sertões'

BIAGGIO TALENTO
Correspondente

   SALVADOR - Uma ampla programação marcará as comemorações do centenário da publicação do livro Os Sertões na Bahia. Considerado um divisor de águas na literatura brasileira, principal instrumento de interpretação da Guerra de Canudos e da nossa nacionalidade, a obra será debatida, exaltada, cantada, interpretada e comentada no Simpósio Internacional Os Sertões: 1902-2002 - Permanência e Rasuras, entre 1.º e 7 de dezembro, em Salvador, Feira de Santana e Canudos.

   A organização é do Centro de Estudos Euclides da Cunha da Universidade Estadual da Bahia (UnEB) com o apoio da Universidade Federal da Bahia (UFBa), da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e da Universidade Católica de Salvador (UCSal).

   Durante a abertura solene do simpósio, hoje à noite na Reitoria da UFBa, serão homenageados quatro pesquisadores, que dedicaram suas vidas ao estudo da grande tragédia brasileira que teve como palco o sertão nordestino, os professores José Calasans, Renato Ferraz e Roberto Ventura e João de Régis, morador da região do conflito, todos já mortos.

   Prefaciando a festa, contudo, ocorreu na semana passada, em Salvador, um pacote de eventos culturais relacionadas ao tema, como as leituras dramáticas de peças inspiradas na Guerra de Canudos pelos alunos da Escola de Teatro da UFBa, no Teatro Martim Gonçalves; a exposição Visões do Sertão, de imagens dos fotógrafos Claude Santos, Luciano Andrade e Maira Azevedo, no Aeroclube Plaza; e um show/palestra no câmpus da Universidade Católica com o compositor Gereba e convidados. Na ocasião ele lançou o livro/CD do show.

   A partir de amanhã, os participantes dos debates vão trocar idéias procurando analisar, entre outros aspectos, as pressões que impulsionaram o processo de "canonização" de Os Sertões, transformando-o em principal referência sobre a refrega de Canudos.

   Entre os outros temas, pode-se destacar uma série de conferências a respeito da interpretação da obra por meio da música, palestras discutindo o imaginário criado à sua volta e mesmo de seu autor, um debate a respeito da possível relação entre literatura e história e também sobre a permanência de problemas sociais apontados por Euclides.

   Multiplicidade - Conforme os organizadores, o simpósio buscará também "redimensionar a multiplicidade de discursos que tece a malha textual da obra, através dos quais se constroem determinadas imagens e representações da nação", da identidade e formação do povo nordestino. Além disso, os pesquisadores pretendem discutir o legado literário de Os Sertões: as diversas teses, obras e "rasuras" que o livro inspirou.

   Reflexão - Um dos aspectos mais interessantes do evento certamente será a visão de estudiosos internacionais sobre a obra euclidiana. O professor francês Antoine Seel que traduziu Os Sertões para a sua língua natal, participará de uma das mesas-redondas do simpósio, evento que tem como uma de suas propostas básicas "atender à demanda de uma reflexão sobre a obra".

   Nem tudo será teoria e discussão de teses. No programa que ocorrerá na cidade de Canudos, os participantes visitarão o cenário da guerra, dentro do Parque Estadual de Canudos, podendo percorrer, entre outros locais, o Morro de Antonio Conselheiro e o açude de Cocorobó, sob cujas águas estão as ruínas do arraial destruído pelo exército republicano no final de 1897.

   Um dos organizadores do simpósio, Manoel Neto, informou que 400 pessoas devem participar dos eventos. "Pelo menos 40 pesquisadores e estudantes se inscreveram para apresentar textos e comunicações sobre o tema", disse, reforçando que celebrar o centenário de Os Sertões é "resgatar as razões de esse livro permanecer como uma referência na literatura brasileira até os dias de hoje".

(© O Estado de S. Paulo)

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