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Cem anos de Os Sertões (3)

02/12/2002

Ele foi o primeiro a ver os sertões de avião

Oswald de Andrade considerava Euclides um dos guardiães da literatura brasileira

MOACIR AMÂNCIO

   Com seu grande livro, Euclides da Cunha criou dois problemas que se têm mostrado permanentes no País. Em primeiro lugar está o problema dos sertões, social e político. Depois, o próprio livro, o texto Os Sertões, que desafia os teóricos da literatura e outros, sempre estimulados pela impossibilidade de definição clara e simples da obra. Porque recursos da ficção, ou seja, da poesia, sustentam as páginas onde se misturam relatórios, narrativas e ensaios. Um livro que põe em cena o poder sempre capaz de reagir com brutalidade extrema diante da ameaça de um fenômeno desestabilizador e incompreensível. E, ao mesmo tempo, não se define como gênero literário, uma expressão de conflitos abertos à discussão atual e atualizante.

   O termo atualidade foi escolhido por Oswald de Andrade há quase 60 anos, para o artigo que publicou no Diário de São Paulo (20 de agosto de 1943), reeditado pela revista Sala Preta (n.º 2), do Departamento de Artes Cênicas ECA-USP. O livro tinha saído apenas 40 anos antes, mas na perspectiva do tempo da vida humana isso pode parecer muito tempo, até mesmo garantia de eternidade para uma obra literária. Em seu Atualidade d'Os Sertões, Oswald critica uma tendência para a estatística ditada pela sociologia norte-americana, na qual o número se torna simulacro da informação segura e eliminando qualquer possibilidade de informação:

   É, na opinião de Oswald, uma espécie de "obrigação, originada do surgimento da América na cultura, de ter de tomar nota, fazer estatística, levantar mapas das coisas mais inúteis da vida da terra. Saber quantos sujeitos vestidos de branco subiram no bonde de Santana, entre as duas e quatro horas da tarde. Fosse ainda do Bom Retiro! Verificar quantas mulheres gordas foram à feira do Arouche. Para quê?".

   Para o autor de Os Condenados e A Revolução Melancólica, livros horrorosos, devidamente compensados por Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte-Grande, Euclides e Os Sertões são um antídoto para essa mania mal-intencionada. O repórter-engenheiro, escreveu, "foi quem pela primeira vez antes das descobertas de Santos Dumont viu a terra brasileira de avião.

   Aquele intróito d'Os Sertões é uma mágica fotometria, assentada sobre os seus vastos recursos de conhecimento técnico. Que equilíbrio, que elegância, que modéstia culta não se exalam das primeiras linhas dessa obra mestra!"

   Seu artigo, na verdade, é uma defesa entusiasmada da literatura. Os grandes autores "constituem, sem dúvida, o reflexo de um corte social e econômico, mas sem a força expressional de sua personalidade, outros podiam ser os caminhos abertos para o futuro. Sem Whitman talvez a América do Norte fracassasse por muito tempo na mão adunca de seus pioneiros, longe de encontrar a sua missão de democracia e humanidade. A presença de um grande escritor impossibilita a inflação dos valores medíocres e põe sempre no julgamento crítico um ponto alto de referência e de destino".

   E alerta incautos, trêfegos e doidivanas: "No pórtico da nossa moderna literatura permanecem duas sentinelas vigilantes: Machado de Assis e Euclides da Cunha."

(© O Estado de S. Paulo)

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