Notícias
Cem anos de Os Sertões (2)

02/12/2002

Diagnóstico da formação da sociedade brasileira

Num momento em que se manifestou a violência da modernidade, Euclides da Cunha captou problemas que se tornaram permanentes na vida do País, como a distância entre a vida rural e urbana

RINALDO DE FERNANDES
Especial para o Estado

   O livro de Euclides da Cunha, Os Sertões, é uma obra que, em certos aspectos, tem muito a ver com a realidade atual do Brasil. A importância do livro reside sobretudo no fato de Euclides ter focalizado de perto o problema das nossas disparidades sociais, regionais, ainda agora bastante visíveis. Euclides não só denunciou um crime (o do Exército contra os canudenses), mas fixou um problema que está na formação da sociedade brasileira - o do desprezo histórico às populações interioranas do País, que ainda agora se deslocam para virar miseráveis nas grandes cidades. E esse fluxo de pessoas para os grandes centros urbanos (que se intensificou desde o início da segunda metade do século 20) é, em grande medida, fruto do modelo econômico, da falta de uma reforma agrária.

   Se se formula a pergunta: o que faz com que Os Sertões tenha status de literatura e, mais, seja aclamado em seus cem anos como uma das mais importantes obras da cultura brasileira? A resposta é: o estilo de Euclides.

   Sobre o estilo euclidiano já falaram em "jogo antitético", em "barroco científico", etc. É visível em Os Sertões uma mistura dos gêneros literários (o épico, o lírico e o dramático). Além disso, o esforço de Euclides em decifrar aspectos fundamentais da nossa nacionalidade é um atributo literário de imenso valor. Um outro fator é o da intertextualidade. Ou seja, a grande massa de informações com as quais Euclides trabalha no livro, apoiando-se amplamente nas teorias do seu tempo (algumas delas hoje já reconsideradas). Citando Walnice Nogueira Galvão: "Em 'A Terra', são mobilizados peritos em geologia, em meteorologia, em botânica, em zoologia, em física, em química. Em 'O Homem', o mais polêmico e que gera toda espécie de conjecturas, são passados em revista escritos de etnologia, de história da colonização, de folclore, de psiquiatria, de neurologia, de sociologia.

   Na parte de 'A Luta', o autor recorre não somente a suas próprias reportagens e anotações em cadernetas de campo, mas também aos registros de outros correspondentes, às ordens do dia do Exército, aos relatórios de governo."

   Violência - A Guerra de Canudos - que ocorreu entre 1896 e 1897 no interior da Bahia, com quatro expedições militares contra o arraial fundado por Antonio Conselheiro - foi um dos episódios mais sangrentos da nossa história. Ela se dá no momento inicial da República, tornando-se um conflito que revela bem o lado violento da modernidade.

   Euclides, em Os Sertões, elabora muito bem a "inversão de papéis" (aspecto que Roberto Ventura comenta com brilho em seu ensaio Euclides da Cunha no Vale da Morte, que consta de O Clarim e a Oração: Cem Anos de 'Os Sertões', livro que organizei e que foi lançado em agosto último pela Geração Editorial). Ou seja, em certos momentos Euclides caracteriza o Exército como bárbaro e os jagunços como civilizados. Assim, a importância de Os Sertões está ainda no fato de ser uma obra que abre o século 20 fazendo uma das mais importantes interpretações do Brasil a partir da realidade específica do sertão.

   Uma pergunta que se costuma fazer é: sem o texto de Euclides, a Guerra de Canudos ganharia o alcance que teve? A resposta: é provável que não. O livro de Euclides, por sua construção, por sua qualidade literária, terminou fazendo com que a Guerra de Canudos permanecesse viva, permanentemente lembrada, amplamente discutida. De fato, o alcance do episódio foi muito maior com o relato agudo de Euclides. Se lembrarmos do Contestado, por exemplo, veremos que não houve um "livro vingador", uma obra com força literária que fizesse com que esse episódio - tão violento quanto o de Canudos - permanecesse vivo como o conflito no interior da Bahia relatado por Euclides. De qualquer forma, a associação mais nítida que se tem feito de Canudos é mesmo com o Contestado, levante que se iniciou em 1912 e foi até 1916 na região Sul (Santa Catarina/Paraná). O líder desse levante, o profeta/curandeiro Miguel Lucena Boaventura, que adotou o nome de José Maria, tinha certas semelhanças com o Conselheiro. O Contestado e Canudos têm pontos parecidos - condenação à República, fundação de uma cidade santa, etc. Um e outro, fundados em bases messiânicas, tiveram como raiz problemas de natureza econômica e política. Mas, repito, o Contestado não teve o Euclides que merecia.

   E como definir Os Sertões em termos de gênero? Nesse problema de classificação da obra há pelo menos três posições. Há aqueles que acham, como o historiador da literatura Alfredo Bosi, que não se deve enquadrar o livro em "determinado gênero", já que "a abertura a mais de uma perspectiva é o modo próprio de enfrentá-lo". Há quem viu, caso de Afrânio Coutinho, o texto euclidiano como "obra de ficção". Há ainda aqueles, como Massaud Moisés, que entendem como "cômoda" a posição de não enfrentar a questão da classificação da obra - daí dizer que o livro se trata de um "ensaio recheado de elementos estéticos e literários". Fico com a opinião de Bosi - é a mais coerente, e a que mais atende à natureza do livro. Isso porque a obra permite, efetivamente, várias entradas. Ela acata leituras a partir de vários pontos de vista. Vejo, por outro lado, que a leitura do livro como obra literária (ou pelo menos como "artefato verbal", para usar uma expressão de Hayden White, historiador norte-americano) tem gerado bons trabalhos. Entre os bons ensaístas da questão literária de Os Sertões, aponto Roberto Ventura, Luiz Costa Lima, Walnice Nogueira Galvão, Leopoldo Bernucci e Berthold Zilly.

   Lembremos rapidamente de um livro de ficção baseado em Os Sertões propondo uma última pergunta: afinal, como Mario Vargas Llosa traduziu Canudos em seu romance A Guerra do Fim do Mundo, de l981? Bem, a resposta aqui, sem a pretensão de ser definitiva, é também rápida: Vargas Llosa não decifrou tão bem o sentido da guerra como Euclides da Cunha. Ele viu mais "fanatismos" de todos os lados (os quais curiosamente se equivalem no seu romance) como causa do conflito. Entendo isso como uma redução da História. As causas da guerra têm raiz na formação da sociedade brasileira. Contudo, o livro de Vargas Llosa não deixa de ter um rico diálogo com Os Sertões e vale a pena ser lido.

   Já a leitura de Os Sertões se torna necessária sobretudo porque, como bem disse Antonio Candido, é uma obra que assinala "o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira". E que belo começo!


Rinaldo de Fernandes é escritor e professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal da Paraíba. Organizador de "O Clarim e a Oração: Cem Anos de 'Os Sertões'" (São Paulo, Geração Editorial, 2002)

(© O Estado de S. Paulo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind


Google
Web Nordesteweb